====== Fundamentação da moral ====== //SCHOPENHAUER, Arthur. Die beiden Grundprobleme der Ethik: Behandelt in zwei akademischen Preisschriften. Frankfurt am Main: Johann Christian Hermannsche Buchhandlung, 1841. / Sobre o Fundamento da Moral. Tradução de Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola. São Paulo: Martins Fontes, 1995.// **Introdução de Alain Roger** 1. Ao publicar em 1841 Os dois problemas fundamentais da ética, reunindo A liberdade da vontade e O fundamento da moral, Schopenhauer já não era o jovem filósofo promissor saudado por Goethe, mas um rentista solitário em Frankfurt que, havia mais de vinte anos, vira fracassar O mundo como vontade e representação, obra centrada em sua pensamento único, a distinção kantiana entre fenômeno e coisa em si convertida em representação e Vontade, e que ainda esperaria uma década pela glória trazida pelos Parerga e Paralipomena, o que torna enigmático tanto seu longo insucesso quanto seu triunfo posterior. 2. A filosofia alemã da primeira metade do século XIX estava dominada por Hegel, a quem Schopenhauer desafiou imprudentemente ao marcar suas aulas em Berlim no mesmo horário das dele, sofrendo um fracasso pedagógico que, somado ao fracasso editorial, o levou a abandonar o ensino e alimentou seu ódio à universidade, aos três sofistas Hegel, Fichte e Schelling e aos professores venais que reduziam a filosofia a serva da teologia. 3. Em 1840, o pensamento de Schopenhauer era inatual no sentido nietzschiano, pois a filosofia alemã, prestes a viver a década prodigiosa dos hegelianos de esquerda, desenvolvia-se na direção oposta à de uma doutrina sem teoria política consistente, de considerações econômicas anedóticas e de uma metafísica que exclui a história e o progresso, resumida no lema "o mesmo, mas de outro modo". 4. A posição de Schopenhauer revela-se ambígua e desconfortável, pois, de um lado, recusa os progressistas, denuncia a história como ilusão representativa e ataca o materialismo, o atomismo e o evolucionismo de Darwin, e, de outro, investe contra a teologia com acentos anticlericais agressivos, ao mesmo tempo que sua ética exalta as virtudes cristãs e recorre às categorias neotestamentárias, a ponto de ele próprio a considerar uma verdadeira filosofia cristã, o que explica sua solidão filosófica aos cinquenta e três anos, antes da surpresa dos Parerga. 5. A premiação do Ensaio sobre a liberdade incentivou Schopenhauer a concorrer ao prêmio da Real Sociedade de Ciências da Dinamarca sobre a origem e o fundamento da moral, mas, embora fosse o único candidato, foi recusado com justificativas tão ofensivas que a publicação conjunta dos dois ensaios, com um prefácio violentamente polêmico, serviu para opor o juízo esclarecido dos noruegueses à estupidez dos dinamarqueses, num infortúnio semelhante ao de Rousseau com a Academia de Dijon. 6. Além do motivo anedótico, há uma razão filosófica para reunir os dois ensaios, já que, do ponto de vista kantiano, liberdade e moralidade são indissociáveis, embora Schopenhauer, depois de louvar a doutrina kantiana dos dois caracteres, denuncie o imperativo categórico, separe a liberdade da moralidade e atribua a esta como fundamento não a razão, mas a piedade, como se reescrevesse a Fundamentação da metafísica dos costumes. 7. Kant arruinou a teologia especulativa e purificou a moral de todo eudemonismo, que no entanto retorna sorrateiramente sob o nome de sumo bem, mas permaneceu essencialmente teólogo, pois a forma pura do imperativo, com as noções de lei, mandamento e necessidade moral, é um empréstimo da moral teológica e um avatar laico da lei mosaica, de modo que Kant permanece judeu, num judaísmo que Schopenhauer condena por seu realismo, seu monoteísmo e seu otimismo raso. 8. O formalismo kantiano é criticado ainda por carecer de substância real e por não oferecer critério efetivo de decisão, crítica já formulada por Hegel, para quem a universalidade da lei mascara a subjetividade e pode justificar qualquer conduta, mas que em Schopenhauer se torna necessidade, pois, ao estabelecer uma máxima universal, o indivíduo se imagina também na posição passiva e prejudicado num mundo de mentira generalizada, o que reintroduz sub-repticiamente o ponto de vista do egoísmo. 9. Refutadas as pretensões da razão prática, o verdadeiro fundamento da ética parte do critério, compartilhado com Kant, de que o ato moral é aquele isento de todo motivo egoísta, e se demonstra pela sequência segundo a qual a ação moralmente boa visa ao proveito de outro, o que exige que o bem alheio se torne motivo direto como o próprio bem, o que supõe uma identificação com o outro que suprime em certa medida a diferença em que se apoia o egoísmo, fenômeno cotidiano que é a piedade, único princípio real da justiça espontânea e da verdadeira caridade. 10. Essa série de pensamentos não é um devaneio, pois desemboca num fenômeno indubitável e familiar, a piedade, da qual procedem as duas virtudes cardeais, a justiça, que manda não lesar ninguém e resume o Antigo Testamento, e a caridade, que manda ajudar a todos tanto quanto possível e resume o Novo. 11. A Real Sociedade não se convenceu da suficiência da simpatia como base da moral e ofendeu-se com o tom inconveniente usado contra grandes filósofos contemporâneos, sem perceber que Schopenhauer se considerava o único herdeiro legítimo de Kant, e ele, tendo descartado desde o início toda fundamentação teológica e não encontrando apoio entre os filósofos, reconheceu como único predecessor Rousseau, o maior dos moralistas modernos. 12. O elogio a Rousseau surpreende, dada a severidade habitual de Schopenhauer para com o autor da Profissão de fé do vigário saboiano, e as semelhanças com o segundo Discurso são enganosas, pois neste a piedade é um princípio anterior à razão de essência biológica, desprovido da função metafísica que Schopenhauer lhe atribuirá, embora as citações abundantes reforcem sua dedução com a única autoridade disponível entre a teologia e o racionalismo e sugiram uma identificação com o pensador que, como ele, também fracassara num segundo concurso. 13. A naturalidade da piedade poderia ser contestada pela história e pela etnologia, que apontam sociedades que a ignoram, mas Schopenhauer a sustenta como fato inegável, essencial e universal da consciência humana, independente de religiões, dogmas ou educação, e interpreta os costumes aparentemente impiedosos como desvios da piedade rumo à direção jurídica da moralidade, o que confirma em vez de refutar sua vocação fundamental. 14. O suposto desinteresse da piedade, que La Rochefoucauld poderia denunciar como previsão interessada dos próprios males, é preservado por Schopenhauer ao considerar as ações movidas por recompensa, reputação ou utilidade como casos de piedade impura, contaminada pelo egoísmo, assim como o dever kantiano se torna heterônomo quando misturado à inclinação, e ao remeter à experiência originária que dissipa toda dúvida sobre o altruísmo, sendo que a própria denúncia nietzschiana da piedade como motor da moralidade acaba por confirmar inesperadamente sua tese. 15. Como não era possível partir de uma metafísica dada e tida como verdadeira, Schopenhauer completa a dedução do fundamento da moral com a determinação do fundamento metafísico desse fundamento ético, apresentada modestamente como apêndice voluntário, articulação que suscita três observações. 16. Essa articulação é sugerida ao longo do terceiro capítulo pela constante evocação do mistério da piedade, cuja realidade é cotidiana mas cuja origem é enigmática, pois, situando-se do lado da coisa em si e da Vontade incondicionada, escapa ao princípio de razão suficiente e não admite explicação racional, embora permita talvez uma investigação metafísica. 17. A articulação é preparada por uma longa digressão sobre os animais, acrescentada após a primeira edição, cujas críticas à vivissecção e cujo elogio às sociedades protetoras britânicas, longe de serem risíveis, traduzem concretamente a concepção metafísica segundo a qual, sendo a Vontade una, maltratar os animais significa atentar contra a essência eterna presente em todo ser vivo e, portanto, contra si mesmo. 18. Apesar da pretensão de proceder analiticamente, das consequências ao princípio, a determinação do fundamento metafísico não segue a sequência regressiva da dedução da piedade, mas limita-se a expor de modo antes sintético a doutrina do Mundo, já que o Tat Twam Asi, que deveria ser o elo analítico entre a experiência da piedade e sua verdade metafísica, aparece depois da exposição da dualidade entre fenômeno e coisa em si e da homenagem à Estética transcendental de Kant. 19. A conclusão do ensaio com a citação do livro mais antigo do mundo pode explicar a construção algo negligente do esboço, inteiramente dominado pela sublime palavra dos Upanixades, Tat Twam Asi, que exprime lírica e praticamente o pensamento único da Vontade como realidade em si independente da multiplicidade fenomênica e que fundamenta a identidade entre o carrasco e sua vítima. 20. Sendo ilusória a individuação fenomênica, o erro não está em suprimir a barreira entre o eu e o não eu, mas em mantê-la, de modo que a piedade recebe uma dupla destinação, ética, ao fundar a justiça e a caridade, e metafísica, ao abrir acesso à essência última dos seres, constituindo uma iniciação à Vontade em seu caminho rumo à própria negação, assim como a sexualidade é o verdadeiro foco da Vontade que se afirma. 21. O passo suplementar que Schopenhauer se recusa a dar, alegando não poder dizer tudo num só dia nem responder além do que se pergunta, corresponde, à luz do Livro quatro do Mundo, ao estágio superior da ética, a resignação ou supressão da Vontade. 22. A negação da Vontade, que Nietzsche atribuía a razões íntimas e que alguns textos de aversão à sexualidade e à feminilidade parecem confirmar, constitui na verdade uma dramaturgia essencial e universal, uma estrutura antropológica encarnada nas figuras paradigmáticas de Fausto e Margarida, de Adão e Jesus, pois todo homem é potencialmente tanto Adão quanto Jesus. 23. A inversão final insere-se numa metafísica em que a Vontade pode afirmar-se ou negar-se, mas em que a resignação prefigurada pela compaixão se aproxima mais da essência, tornando a piedade mais metafísica que a sexualidade, pois esta, embora permita romper a casca fenomênica e alcançar o núcleo do próprio ser, não liberta do tormento da diferença, enquanto só a piedade conduz à essência indivisa dos seres e se revela não apenas ratio essendi da moralidade, mas sobretudo ratio cognoscendi da Vontade que se desvela a si mesma como sua própria negação, a Nolontade. {{tag>Schopenhauer liberdade ética moral}}