====== Vontade na natureza ====== //SCHOPENHAUER, Arthur. Ueber den Willen in der Natur: Eine Erörterung der Bestätigungen, welche die Philosophie des Verfassers, seit ihrem Auftreten, durch die empirischen Wissenschaften erhalten hat. Frankfurt am Main: Siegmund Schmerber, 1836.// **Prefácio à segunda edição** 1. A revisão deste pequeno tratado, realizada dezenove anos após sua primeira publicação, adquire especial importância porque o percurso que parte das observações empíricas de pesquisadores das ciências naturais conduz diretamente ao núcleo da metafísica da vontade, estabelecendo seus pontos de contato com essas ciências e oferecendo uma confirmação que torna sua tese fundamental mais clara, acessível e precisamente compreensível. 2. As modificações desta edição consistem quase inteiramente em acréscimos, alguns de considerável importância, enquanto o conteúdo da primeira edição foi preservado praticamente na íntegra. 3. A necessidade de uma nova edição constitui um sinal favorável do interesse pela filosofia séria e da exigência de seu progresso efetivo, particularmente diante de uma expansão das ciências naturais que, quando conduzida por especialistas alheios à formação filosófica, favorece um materialismo grosseiro, reduz a natureza orgânica ao jogo fortuito de forças químicas e pretende resolver questões sobre Deus, a alma e a origem do mundo sem conhecer as limitações do conhecimento estabelecidas pela crítica kantiana. 4. O crescimento inevitável da descrença, impulsionado pela ampliação dos conhecimentos empíricos e históricos, torna igualmente necessário o progresso filosófico, pois ameaça destruir tanto as formas do cristianismo quanto seu espírito moral, cujo alcance ultrapassa essa religião, enquanto a hipocrisia religiosa ostensiva, sobretudo quando introduzida em publicações científicas e filosóficas, agrava o descrédito que pretende combater. 5. O reconhecimento público da filosofia da vontade rompe finalmente o silêncio com que os professores de filosofia procuraram ocultá-la durante quase quarenta anos, demonstrando que a estratégia de ignorar uma obra e encobri-la com a celebração ruidosa das produções acadêmicas pode adiar sua influência e privar uma geração de conhecê-la, mas não impedir indefinidamente sua descoberta. 6. A primeira razão da hostilidade dos profissionais universitários da filosofia reside em que o contato com uma investigação substancial torna os leitores menos tolerantes às frases vazias, ao palavreado obscuro, à dogmática cristã disfarçada de metafísica e à moralidade filisteia apresentada como ética, comprometendo assim a receptividade pública ao modo de filosofar que esses profissionais cultivam. 7. A segunda razão dessa hostilidade decorre da incompatibilidade entre uma filosofia comprometida exclusivamente com a verdade e as exigências institucionais que fazem da teologia especulativa e da psicologia racional condições de subsistência dos professores, pois a crítica kantiana e sua continuação consequente eliminam justamente as doutrinas que a filosofia universitária procura restaurar sob fórmulas abstratas, convertendo-a em adversária da investigação filosófica autêntica. 8. A aversão dos professores à filosofia kantiana nasce da destruição dos fundamentos teóricos de seu próprio ofício, levando-os a desqualificar progressivamente Kant, apresentar suas descobertas como erros ultrapassados e retomar discursos dogmáticos sobre Deus e a alma como se a Crítica da razão pura jamais tivesse existido, com o apoio recíproco de uma corporação e a conivência de um público pouco familiarizado com suas obras. 9. A tentativa de enfraquecer indiretamente a filosofia kantiana mediante a negação do caráter a priori do espaço e do tempo incorre em contradição com as próprias condições do entendimento humano, pois faz essas formas derivarem da justaposição dos corpos e da sucessão das mudanças, embora justaposição e sucessão somente possam ser compreendidas mediante as intuições de espaço e tempo que necessariamente pressupõem. 10. A independência do espaço em relação aos corpos e do tempo em relação às mudanças possui uma evidência que dispensa a experiência, como reconhecem tanto o entendimento comum quanto a exposição física de Pouillet, mas somente a investigação kantiana transforma essa certeza em problema filosófico, perguntando pela possibilidade dos juízos sintéticos a priori e esclarecendo, a partir dela, a natureza da própria realidade empírica. 11. A restauração de erros anteriores à Crítica da razão pura revela o abandono das conquistas da Estética transcendental e a pretensão de anular, por simples afirmações contrárias ou pelo silêncio, descobertas fundamentais de um pensamento excepcional, como se a autoridade de uma corporação pudesse dispensar a compreensão e a refutação efetivas dessas descobertas. 12. A degradação contemporânea da filosofia resulta em grande parte da tolerância acadêmica que permitiu a Hegel difundir construções intelectuais extravagantes e ser celebrado durante décadas como o maior dos filósofos, criando um ambiente em que qualquer principiante se julga autorizado a apresentar suas ocorrências como soluções para problemas que desafiaram os maiores pensadores. 13. O esforço para apagar a filosofia crítica e regressar ao antigo dogmatismo explica também a exaltação de Leibniz acima de Kant, pois suas mônadas, sua harmonia preestabelecida e sua teodiceia acomodam os interesses teológicos dos professores, enquanto a crítica kantiana os ameaça, embora essas manobras de valorização do falso e de rebaixamento do mérito possam retardar o reconhecimento da verdade sem suprimi-lo definitivamente. 14. A hostilidade a Kant produz um desconhecimento de suas doutrinas que se manifesta tanto na inversão, por Michelet, do argumento que fundamenta o postulado da liberdade na obrigação moral quanto na rejeição, por outro professor, da concepção dos corpos como espaços preenchidos por forças, evidenciando que o abandono da filosofia crítica deixa a especulação sem a orientação das grandes conquistas anteriores e a reduz a uma improvisação baseada na instrução comum e no catecismo. 15. A denúncia desses erros torna-se necessária para defender a verdade e revelar o estado de degradação da filosofia alemã cinquenta anos após a morte de Kant, pois permanecer em silêncio permitiria que interesses estreitos continuassem a bloquear a influência dos grandes pensamentos que ampliaram o conhecimento humano. 16. A filosofia universitária constitui uma adversária da investigação filosófica autêntica porque, embora reivindique independência, permanece subordinada à teologia e a conclusões previamente estabelecidas, razão pela qual tanto o ensino da filosofia quanto o de sua história deveriam ser retirados das universidades, cujos professores encontrariam na condição explícita de teólogos a designação correspondente à função que efetivamente exercem. 17. A formação filosófica dos jovens exige a leitura direta das obras de Kant e da filosofia da vontade, em lugar da dependência das exposições universitárias e do acúmulo superficial de informações sobre sistemas anteriores, pois somente o estudo dos próprios filósofos pode organizar o pensamento, favorecer uma consideração imparcial do mundo e impedir que o conhecimento histórico substitua o exercício da reflexão. 18. As manifestações de hostilidade e as acusações difundidas em periódicos confirmam que o isolamento imposto à filosofia da vontade chegou ao fim, tornando os ataques de seus adversários motivo de satisfação por sua causa e de divertimento por seu efeito, à maneira de latidos que apenas atestam o avanço de quem prossegue em seu caminho. {{tag>Schopenhauer natureza vontade}}