====== Russell ====== ~~NOCACHE~~ Bertrand Russell //Giovanni Reale// ** A rejeição do idealismo ** Bertrand Russell (1872–1970), descendente de uma família whig com longa tradição de luta pelas liberdades constitucionais, herdou dos antepassados o espírito de revolta contra todo dogmatismo e autoritarismo. * Na Autobiografia (1962), Russell definiu sua vida como dominada por três paixões: a sede de amor, a busca do conhecimento e uma imensa piedade pelo sofrimento humano. * Lord William Russell, antepassado seu, participou da conspiração contra Carlos II e foi executado. * Seu avô, Lord John Russell, foi ministro da rainha Vitória, lutou pela reforma eleitoral e visitou Napoleão na ilha de Elba. * Seu pai, visconde de Amberley, foi discípulo e amigo de Stuart Mill, membro do Parlamento em 1861–1862 e defensor convicto do controle de natalidade; morreu em 1876. * Sua mãe Katherine, filha do segundo Lord Stanley de Alderley, morreu em 1875. * Nascido em 18 de maio de 1872 em Ravenscroft, perto de Tintern, no Monmouthshire, Russell foi criado pela avó — Lady John —, escocesa e presbiteriana, defensora dos direitos dos irlandeses e crítica do imperialismo britânico na África. * Recebeu educação de preceptores agnósticos, aprendeu francês e alemão com perfeição e descobriu na geometria de Euclides o rigor e a clareza da matemática. * Aos dezoito anos ingressou no Trinity College de Cambridge, onde conheceu Lowes Dickinson, George Macaulay Trevelyan, John Ellis McTaggart, Henry Sidgwick e George Edward Moore. * Mais tarde, ainda no Trinity, teve Ludwig Wittgenstein como discípulo — encontro que Russell descreveu como "uma das aventuras intelectuais mais excitantes de sua vida"; com o tempo, os dois se afastaram até romper completamente a amizade. * Sob influência de McTaggart, Russell foi brevemente hegeliano, de um hegelismo filtrado por Bradley; em 1898, com a ajuda de Moore, libertou-se do idealismo. * Russell recordou essa libertação: "Bradley havia sustentado que tudo em que o senso comum acredita é mera aparência; nós passamos ao oposto e pensamos que é real tudo o que o senso comum, não influenciado pela filosofia e pela religião, supõe que seja real." * Russell descreveu a sensação de "fugir de uma prisão" ao poder pensar que a erva é verde e que o sol e as estrelas existiriam mesmo que ninguém fosse consciente deles — e assim "o mundo que até então era sutil e lógico tornou-se de repente rico, variado e sólido." ** O atomismo lógico e o encontro com Peano ** Liberto do idealismo, Russell retornou à trilha do empirismo tradicional da filosofia inglesa e passou a defender que a filosofia não pode ser fecunda se desvinculada da ciência. * Em A minha vida em filosofia (1959), Russell afirmou que "a imaginação do filósofo deveria ser impregnada de concepções científicas" e que "uma filosofia, para ter algum valor, deve ser construída sobre amplas e sólidas fundações de conhecimento não especificamente filosófico." * Russell concebia sua visão de mundo como "uma concepção resultante da síntese de quatro ciências diferentes: física, fisiologia, psicologia e lógica matemática." * Entre 1899 e 1900, adotou "a filosofia do atomismo lógico e a técnica de Peano na lógica matemática" — período que considerou a data fundamental de seu trabalho filosófico. * O atomismo lógico articula empirismo radical e lógica apurada: a lógica fornece as formas padrão do raciocínio correto e o empirismo fornece proposições atômicas ou proposições complexas construídas a partir delas. * Em A filosofia do atomismo lógico (1918), Russell escreveu: "A razão pela qual chamo minha doutrina de atomismo lógico é que os átomos a que desejo chegar como resíduos últimos da análise são átomos lógicos e não átomos físicos." * A proposição atômica descreve um fato — afirma que uma coisa tem certa qualidade ou que certas coisas têm certas relações; "Sócrates é ateniense" é uma proposição atômica, enquanto "Sócrates é ateniense e Sócrates é marido de Xantipa" é uma proposição molecular — ideias que reaparecerão no Tractatus logico-philosophicus de Wittgenstein. * No Congresso Internacional de Filosofia de Paris em 1900, Russell tomou conhecimento da importância de uma reforma lógica na filosofia da matemática ao ouvir as discussões de Giuseppe Peano com outros filósofos. * Russell escreveu sobre Peano: "Em cada discussão, ele revelava maior precisão e maior rigor lógico do que qualquer outro"; leu imediatamente todas as obras de Peano, que deram "o impulso necessário às suas teorias sobre os princípios da matemática." * Russell já havia estudado Leibniz como precursor da lógica matemática (A filosofia de Leibniz, 1900) e publicou em 1903 Os princípios da matemática, com o objetivo de mostrar que toda a matemática procede da lógica simbólica. * Os Principia Mathematica — três volumes escritos em colaboração com Alfred North Whitehead e publicados em 1910, 1912 e 1913 — desenvolveram o segundo objetivo: descobrir os princípios da própria lógica simbólica. * Russell, junto com o alemão Gottlob Frege, sustentou que a matemática pode ser reduzida a um ramo da lógica e que "a matemática pura é a classe de todas as proposições da forma 'p implica q'." ** A teoria das descrições ** Russell concordou com Frege no programa logicista e no realismo platônico para os objetos da matemática, mas divergiu dele com a Teoria das descrições (1905). * Frege havia observado que "a estrela da manhã" e "a estrela da tarde", embora designem o mesmo planeta Vênus, têm sentidos diferentes — distinguindo assim entre sentido (Sinn) e significado (Bedeutung), ou, em termos clássicos, entre conotação e denotação. * Alexius Meinong havia refletido sobre o estatuto de frases como "a montanha de ouro não existe" ou "o círculo quadrado não existe" — proposições verdadeiras que, no entanto, parecem referir-se ao nada. * Russell rebelou-se contra o "reino das sombras" de Meinong e propôs uma análise que faz desaparecer as expressões denotantes: em vez de "a montanha de ouro não existe", diz-se "não há nenhuma entidade que ao mesmo tempo seja de ouro e seja uma montanha." * Pela mesma análise, "o atual rei da França é calvo" transforma-se em uma proposição complexa que elimina a expressão denotante e, com ela, qualquer razão para acreditar que o objeto por ela indicado tenha algum tipo de existência. * Nos Principia Mathematica, Russell distinguiu entre descrições indefinidas ("um homem", "alguém que caminha") e descrições definidas ("o primeiro rei de Roma"). * Em 1950, Peter Frederick Strawson atacou a teoria de Russell no ensaio Sobre a referência, argumentando que "nem as regras aristotélicas nem as de Russell dão a lógica exata de qualquer expressão da linguagem ordinária, porque a linguagem ordinária não tem uma lógica exata." * Strawson, na esteira do "segundo" Wittgenstein, sustentou que "a expressão em si não se refere a coisa alguma, embora, em ocasiões diversas, possa ser usada para referir-se a inúmeras coisas" — acusando Russell de ter confundido o enunciado com o uso do enunciado. * Leonard Linsky sintetizou a divergência em Referência (1967): o intento de Russell é analisar uma certa classe de proposições; o intento de Strawson é estudar um certo uso das palavras. * Russell replicou duramente a Strawson, vendo na divergência de fundo a crença de filósofos como Strawson de que "o falar comum é suficientemente bom não só para a vida cotidiana, mas também para a filosofia." * Saul A. Kripke, em Nome e necessidade (1970), propôs uma "nova teoria da referência", introduzindo a ideia de denominador rígido: o nome próprio designa o mesmo indivíduo "em todo mundo possível", enquanto as descrições designam indivíduos diferentes em mundos possíveis diferentes. ** Russell contra o segundo Wittgenstein e a filosofia analítica ** Russell submeteu ao "microscópio da lógica" questões filosóficas relevantes, mas sempre preocupado com a relação que a linguagem deve ter com os fatos para que haja conhecimento válido. * Russell reconhecia os limites do empirismo — o princípio de que "todo conhecimento sintético é fundado na experiência" não é ele mesmo fundado na experiência —, mas sustentava que, entre as teorias disponíveis, o empirismo é a melhor. * Contrário ao pragmatismo, Russell opôs-se também aos neopositivistas como Neurath e Hempel, que pareciam ter esquecido que o objetivo das palavras "é ocupar-se de coisas diferentes das palavras." * Sobre o "segundo" Wittgenstein, Russell escreveu: "O novo Wittgenstein parece ter-se cansado de pensar a sério e parece ter inventado uma doutrina adequada a tornar essa atividade desnecessária." * Quanto ao movimento analítico em seu conjunto, Russell enumerou cinco razões para rejeitá-lo: insinceridade; possibilidade de desculpar a ignorância de matemática, física e neurologia; tom de santimoniosa retidão como se a oposição fosse um pecado contra a democracia; banalização da filosofia; e perpetuação do atitude confusa herdada do senso comum. * Russell comparou o analista a Carlóstadio — que buscava a verdade na boca dos homens mais ignorantes —, a Pascal com suas "razões do coração", a Rousseau e seu "nobre selvagem", e a Tolstói preferindo A cabana do Pai Tomás à literatura mais sofisticada. * Na Prefação a Palavras e coisas de Ernest Gellner, Russell escreveu: "A filosofia linguística, que se ocupa da linguagem e não do mundo, é como uma criança que prefere o relógio sem o pêndulo porque, mesmo não marcando mais as horas, funciona com maior facilidade e num ritmo bem mais divertido." * Dois são os principais pontos da acusação de Russell contra a filosofia analítica: ela praticaria o culto do uso comum da linguagem em detrimento de toda linguagem técnica; e, em vez de buscar conhecimentos verdadeiros, ocupar-se-ia esterilmente do sentido das palavras. ** A moral e o cristianismo ** Convicto de que os valores não podem ser logicamente deduzidos do conhecimento, Russell foi defensor tenaz das liberdades individuais contra toda ditadura e defensor do pacifismo. * A Primeira Guerra Mundial tirou-lhe "a possibilidade de continuar a viver num mundo de abstrações"; diante dos jovens enviados ao massacre no Somme, Russell sentiu-se ligado ao mundo real "num estranho casamento de dor." * Adversário das injustiças do capitalismo, foi igualmente duro quanto aos métodos do bolchevismo; após longa conversa com Lenin em 1920, escreveu: "O sectarismo e a crueldade mongólica de Lenin gelaram o sangue em minhas veias." * Em 1952, pediu ao governo americano a libertação de Morton Sobell, condenado a trinta anos de prisão por espionagem. * Em 1954, apoiado por Einstein, promoveu uma campanha contra os armamentos atômicos. * Durante a crise de Cuba, escreveu cartas memoráveis a Kennedy e a Kruschev; meses depois, escreveu à Izvestia para combater a hostilidade russa contra os judeus. * Pacifista durante a Primeira Guerra Mundial, posicionou-se ao lado dos Aliados durante a Segunda; criou "a fundação atlântica da paz" e inspirou o "tribunal Russell" para denunciar os crimes de guerra dos Estados Unidos no Vietnã. * Processado várias vezes, foi preso e perdeu a cátedra de filosofia no City College de Nova York — removido por ordem da Suprema Corte de Nova York, a pedido de uma senhora Jean Kay de Brooklyn, que qualificou sua obra de "obscena, libidinosa, lasciva, depravada, erótica, afrodisíaca, irreverente" e "desprovida de qualquer fibra moral"; nem a intervenção conjunta de Einstein, Dewey e Whitehead reverteu a decisão. * Russell defendeu o amor livre, casou-se quatro vezes e divorciou-se três; em 1927, fundou com sua segunda esposa, Dora Winefred Black, uma escola de princípios educativos "revolucionários" — que fracassou. * Para Russell, apenas as asserções tautológicas da matemática e as sintéticas das ciências empíricas têm sentido; sobre essa base, toda fé, toda visão metafísica e qualquer religião se tornam sem fundamento — e formulou: "O mundo não precisa de dogmas, precisa de livre investigação." * O cristianismo foi considerado por Russell — por exemplo em Por que não sou cristão, que inclui o debate com o padre Frederick Copleston na BBC — um conjunto de absurdos do ponto de vista teórico e uma moral desumana e obscurantista do ponto de vista ético. * O biógrafo Alan Wood ressalta que Russell combateu na prática um estado de coisas cruel e absurdo da era vitoriana, em que jovens eram mantidos na ignorância sobre sexualidade, as mulheres eram ensinadas a ver as relações sexuais como um penoso dever conjugal e não havia saída legal para casamentos infelizes sem complicadas provas de adultério. * Russell escreveu sobre o novo mundo que almejava: "Um mundo em que o espírito criativo é vivaz, em que a vida é uma aventura cheia de alegria e esperança [...], um mundo em que o afeto tenha livre curso. Um tal mundo é possível; ele aguarda apenas que os homens queiram criá-lo." * Publicou também uma brilhante História da filosofia ocidental (4 vols., 1934), na qual tentou "mostrar que os filósofos são o resultado de seu meio social." * Morreu na noite de segunda-feira, 3 de fevereiro de 1970.