====== 1.0.6 Matemática ====== //ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982// * Chegam ao fim as observações preliminares, que poderiam ampliar ainda mais a rede de contextos históricos e conceituais sem alcançar mais do que preliminares. Ao reconhecer-se quanto o pensamento estava repleto do pressuposto de que pensar equivalia a pensar o Todo, o conteúdo até então fundamentalmente simples da filosofia, o Todo do pensamento e do ser, deslocou-se inesperadamente em três partes separadas, opostas entre si de diversas maneiras ainda impossíveis de precisar. * Dessas três partes, Deus, mundo e homem, nada se sabe ainda em sentido estrito, embora muito se tenha falado delas ao ligá-las livremente à consciência geral do tempo presente. São os nadas a que a crítica dialética de Kant reduziu os objetos das três "ciências racionais" de sua época: a teologia, a cosmologia e a psicologia racionais. Não se pretende restabelecê-las como objetos de ciência racional, mas, ao contrário, como objetos "irracionais". * Para lançar os primeiros marcos de seus domínios, serviu o método designado pelo prefixo "meta": partir do objeto racional de que o objeto irracional procurado se exclui, a fim de apropriar-se de seu ser irracional. Assim, para o homem, parte-se do homem objeto da ética; para o mundo, do mundo objeto da lógica; para Deus, do Deus objeto da física. Era apenas um meio para lançar marcos, e a exploração dos domínios assinalados terá de fazer-se de outro modo. * Dos nadas do saber, a travessia exploradora chega ao "algo" do saber. Não se foi muito longe ao chegar ao "algo", mas "algo" é mais que nada, e o que possa haver além dele é impossível de suspeitar a partir do ponto em que se está, isto é, a partir do nada. * Que o ser vazio, o ser anterior ao pensamento, equivalha ao nada naquele breve e quase inapreensível instante em que ainda não se tornou ser para o pensamento, está entre os conhecimentos que acompanham toda a história da filosofia, desde seus inícios na Jônia até seu desfecho em Hegel. Esse nada permaneceu tão infecundo quanto o ser puro, e a filosofia só começou quando o pensamento se uniu ao ser. É justamente a isso, e nesse ponto, que se recusa obediência. * Busca-se um definitivo que não precise do pensamento para ser; por isso não era lícito negar a morte, e por isso era preciso acolher o nada, de qualquer modo que se apresente, como ponto de partida definitivo do definitivo. "O" nada não deve significar desvelamento da essência do ser puro, como na imensa herança de dois milênios de história da filosofia; onde quer que um elemento subsistente do Todo repouse em si mesmo, indissolúvel e definitivo, importa pressupor para esse ser um nada, o seu nada. * Para esse caminho de um nada rumo ao seu "algo" oferece-se como guia uma ciência que nada mais é que derivação perpétua de um "algo", jamais mais que um "algo qualquer", a partir do nada, e não do nada vazio em geral, mas sempre do nada "seu", próprio desse "algo": a matemática. **A origem** * Que a matemática não conduz além do "algo", do qualquer coisa, e que o real mesmo, o caos do "isto", quando muito lhe concerne sem ser tocado por ela, é descoberta já feita por Platão, à qual ela deve o respeito ou por vezes o desprezo dos filósofos, conforme o "universal" estivesse em honra ou em desdém na mentalidade dominante. Mas que se lhe tenha assinalado desde o nascimento esse até-aqui-e-não-mais-além (jusque-là-et-pas-plus-loin) só foi reconhecido, não por acaso, depois que esse movimento de dois mil anos completou seu ciclo. * Só Hermann Cohen, contrariamente ao que ele próprio julgava e à aparência de suas obras, foi muito mais que simples epígono desse movimento realmente acabado, e só ele descobriu na matemática um órganon do pensamento, justamente porque ela não gera seus elementos a partir do nada vazio do zero uno e universal, mas do nada do diferencial, nada determinado, a cada vez ordenado ao elemento buscado. * O diferencial reúne em si propriedades do nada e do "algo": é um nada que remete a um "algo", ao seu "algo", e ao mesmo tempo um "algo" que ainda repousa no seio do nada. Ora é a grandeza que se dissolve no que não tem grandeza, ora tem, como "infinitamente pequeno", todas as propriedades da grandeza finita, exceto a propriedade da própria grandeza. Extrai assim sua força fundadora da realidade ora da veemente negação com que rompe o seio do nada, ora da tranquila afirmação de tudo o que confina com o nada, ao qual permanece ligado como infinitamente pequeno. * Determina assim dois caminhos do nada ao "algo", o da afirmação do que não é nada e o da negação do nada, para os quais a matemática serve de guia, ensinando a reconhecer no nada a origem do "algo". Ainda que o mestre o recusasse em larga medida, prossegue-se a partir daí, sobre a obra-prima científica de sua lógica da origem, na elaboração do novo conceito de nada. * É possível que Cohen fosse mais hegeliano do que confessava em suas demais reflexões, e por isso tão perfeito "idealista" quanto desejava ser; mas nesse conceito fundamental operou uma ruptura decisiva com a tradição idealista. No lugar do nada uno e universal, que como o zero poderia não ser mais que "nada", verdadeira não-coisa (non-chose), pôs o nada particular, cuja fecundidade se comprovava nas realidades. * Opôs-se com máxima vivacidade à fundação da lógica por Hegel sobre o conceito de ser, e com isso a toda a filosofia que recolheu a herança hegeliana. Pela primeira vez um filósofo que ainda se considerava "idealista", sinal a mais da violência do acontecimento nele, conhecia e reconhecia que o pensamento, ao sair para "puramente gerar", não encontra o ser, mas o nada. * Pela primeira vez, embora entre todos os pensadores do passado só Kant, em observações lançadas sem seguimento sistemático, tenha mostrado o caminho que agora se percorrerá. Ele, que despedaçou as três "ciências" racionais anteriores, não retornou por isso a um desespero uno e universal quanto ao conhecimento, e, ainda que às apalpadelas, arriscou o grande passo e formulou o nada do saber não numa expressão simples, mas tripla. * A "coisa em si" e o "caráter inteligível" indicam ao menos dois nadas do saber separados, que na terminologia aqui adotada são os nadas metalógico e metaético. As obscuras palavras com que ele fala ocasionalmente de sua raiz comum tendem também a apreender um ponto sólido para o nada metafísico do conhecimento. * É altamente significativo que o pensamento, a quem fora proposto o Todo como objeto uno e universal, não seja agora rechaçado para um ignoramus uno e universal. O nada do saber não é simples, mas triplo, e por isso se pode, tanto quanto Fausto, esperar reencontrar nesse triplo nada do saber o Todo que fora preciso reduzir a pedaços: "Desaparece, pois, no abismo! Poderia dizer igualmente: sobe!" {{tag>Rosenzweig matemática}}