====== 5.1 Intersubjetividade ====== //ROSA, Hartmut. Resonanz: Eine Soziologie der Weltbeziehung. Berlin: Suhrkamp Verlag, 2016. (Tradução inglesa: Resonance: A Sociology of Our Relationship to the World. Cambridge: Polity Press, 2019).// **Ressonância e alienação como categorias básicas de uma teoria de nossa relação com o mundo** **1 Neurônios-espelho e varinhas mágicas: a intersubjetividade como base antropológica** 1. A ideia de que a articulação entre as relações físicas, afetivas e cognitivas com o mundo resulta de um processo de espelhamento, ou antes de ressonância, constitui um surpreendente ponto de convergência de tendências importantes da pesquisa contemporânea em neurobiologia, ciência cognitiva, biologia evolutiva, psicologia do desenvolvimento e sociologia, segundo as quais o cérebro não apenas reproduz ou representa mentalmente o mundo, nem a mente é mero produto de processos cerebrais, mas se desenvolvem relações ressonantes ou responsivas entre mundo, corpo e cérebro e entre cérebro e mente, que tornam possíveis o pensamento, a cognição, a aprendizagem, a comunicação e a ação humanos. 2. A ascensão recente da pesquisa sobre a empatia como tema central da ciência cognitiva forneceu um ponto de partida para esse desenvolvimento, ao mostrar que a capacidade de empatia mútua, compreensão e adoção de outras perspectivas é importante não apenas para as qualidades sociomorais, mas para a aprendizagem, o pensamento e a ação em geral, como observa Fritz Breithaupt. 3. A capacidade de compreender intelectual e emocionalmente os outros repousa em grande parte em capacidades inatas de mimetismo e em possibilidades neuronais básicas que permitem experimentar como próprios os comportamentos observados nos outros, de modo que criaturas sociais como os seres humanos vivem num mundo cheio de ruído empático, adotando perpétua e quase instintivamente a perspectiva alheia. 4. Os debates da teoria da mente reforçam essa ideia ao mostrar que a capacidade, já observável em crianças pequenas, de apreender os estados mentais dos outros e depois os próprios é pré-condição do desenvolvimento social, cognitivo e epistêmico, e há fortes indícios de que ela não decorre da elaboração de teorias cognitivas, como supõe a teoria-teoria da mente, mas de interações e coconstruções intersubjetivas, como a atenção conjunta, pelas quais se reencena na própria mente o que se observa nos outros, conforme a teoria da simulação, sendo plausível, do ponto de vista da psicologia evolutiva, que essa capacidade de ressonância tenha favorecido a evolução humana como espécie social. 5. A abordagem do sociólogo das emoções Randall Collins tornou essa teoria diretamente compatível com a sociologia. 6. Os seres humanos evoluíram para ter sensibilidade particularmente elevada aos sinais microinteracionais emitidos por outros humanos, estando biologicamente predispostos a envolver-se num foco mútuo de atenção intersubjetiva e a fazer ressoar emoções de um corpo a outro em ritmos comuns, o que os torna propensos a criar rituais de interação e a manter a solidariedade face a face, não apenas por terem cérebros grandes e capacidade de aprender cultura, mas por estarem hipersintonizados emocionalmente uns com os outros e, portanto, especialmente suscetíveis às dinâmicas das situações interacionais. 7. O egoísmo humano está longe de ser primário e só surge em circunstâncias especiais, em geral tardiamente na história humana, já que os seres humanos estão predispostos ao arrastamento interacional e à solidariedade, o que torna a violência tão difícil. 8. A surpreendente redescoberta das obras de Gabriel Tarde, contemporâneo e compatriota de Durkheim, indica que a primazia das relações ressonantes sobre os modelos representacionais e causais da subjetividade também repercute na sociologia, pois Tarde, como Collins, interessa-se pelos campos de energia afetiva entre os participantes de uma interação e explica os desenvolvimentos sociais pelas leis da imitação raramente consciente, embora ambos deixem claro que as ressonâncias sociais não são meros espelhamentos e repetições, mas atitudes responsivas que envolvem diferenças, variações e a capacidade de bloquear a ressonância. 9. Não apenas a relação entre sujeito e mundo social, mas também a organização interna da percepção, do pensamento e da ação e a interação entre cérebro e organismo só se compreendem segundo a lógica dos processos ressonantes, como procura demonstrar Hans Jürgen Scheurle em O cérebro não está isolado, ao elaborar uma teoria da ressonância do cérebro que explica a interação entre neurônios sensoriais e motores não como troca de informações, mas como interações sincronizadas. 10. Os impulsos nervosos aferentes conectam os processos ressonantes dos receptores de luz, som e resistência às áreas cerebrais específicas de cada sentido, permitindo uma ressonância cerebral aos eventos do ambiente sem transmissão de informação neural, enquanto os nervos eferentes transmitem as excitações centrais em sentido inverso aos órgãos sensoriais e motores, como os marca-passos do tronco cerebral que ativam os músculos respiratórios, de modo que a atividade nervosa em ambas as direções é indispensável, pois um desempenho estável e coerente só é possível por meio de retroalimentação constante. 11. Daí resulta uma teoria fenomenológica da ressonância segundo a qual processos de oscilação sincronizada conectam cérebro, corpo e ambiente, tornando o cérebro um órgão de percepção e ativação responsivo a processos internos e externos, não um aparelho isolado, mas o órgão de um ser vivo em relação com seu mundo, de modo que, assim como a consciência só se compreende como relação entre ser humano e ambiente, a função cerebral só se compreende por sua relação ressonante com o entorno. 12. Se as novas técnicas de imagem cerebral permitem visualizar literalmente esses processos ressonantes, a descoberta dos neurônios-espelho oferece um ponto de partida popular espetacular para ligar a organização neural do cérebro e a relação entre sujeito e ambiente, remontando à descoberta feita no fim dos anos 1980 pelo neurofisiologista italiano Giacomo Rizzolatti e sua equipe de neurônios no córtex pré-motor de macacos que disparavam de modo idêntico quando o animal pegava um amendoim ou apenas observava outro fazê-lo, demonstrando que, para certos processos cerebrais, é indiferente executar uma ação ou apenas observá-la ou ouvi-la, numa relação espelhada ou ressonante entre fora e dentro, e que essa resposta se refere a um vocabulário de atos, como agarrar, segurar e esmagar, que não é inato, mas aprendido. 13. A ressonância observada aplica-se não apenas a movimentos, mas também a ações e às intenções subjacentes, e a pesquisa foi ampliada, em primeiro lugar, para demonstrar a existência de neurônios-espelho em humanos, inclusive por imagem cerebral, com resultados que indicam espelhamento neural na área de Broca, embora controversos. 14. A estreita ligação entre as respostas visuais e motoras dos neurônios-espelho indica que, ao observar uma ação alheia, evoca-se no cérebro do observador um ato motor potencial semelhante ao ativado na organização e execução efetiva dessa ação, com a diferença de que num caso o ato permanece como representação motora interna e no outro se traduz numa sequência concreta de movimentos. 15. Em segundo lugar, a pesquisa expandiu-se para a ressonância de estados e respostas emocionais, mostrando que estes são altamente contagiosos, pois observar a dor, o medo, a tristeza ou o nojo alheios, sobretudo por meio da mímica, dos gestos e das expressões físicas, frequentemente desperta involuntariamente os mesmos sentimentos, ainda que se possa bloqueá-los, alterá-los e reinterpretá-los por processamento cognitivo posterior. 16. Estudos mostram que pessoas diante de um rosto sorridente numa tela não conseguem deixar de sorrir, ainda que por microssegundos, mas desativam essa reação ressonante e congelam a expressão ao saber que se trata de um assassino em massa, o mesmo ocorrendo com rostos que expressam tristeza, dor e sobretudo nojo. 17. Contágios semelhantes ocorrem com o bocejo, o riso, o espirro e o choro de crianças pequenas, mas essas ressonâncias não funcionam igualmente com todas as pessoas nem em todas as circunstâncias, pois a capacidade de ressonância diminui significativamente sob angústia ou estresse, com redução maciça da taxa de sinais dos neurônios-espelho, o que abre espaço para analisar sociologicamente as qualidades promotoras e inibidoras de ressonância das formações e instituições sociais, e o autismo parece associado a uma capacidade reduzida de ressonância, o que explicaria por que pessoas autistas não se contagiam com sorrisos ou bocejos e precisam formular hipóteses sobre os estados alheios em vez de simulá-los, já que, segundo Joachim Bauer, a empatia repousa num sistema capaz de ativar no cérebro do receptor percepções e emoções trocadas entre pessoas, criando um espaço interpessoal comum de significado, e esse sistema é o dos neurônios-espelho. 18. A hipótese de Bauer, assim como a referência de Rizzolatti e Sinigaglia a um vocabulário de atos aprendido, mostra que o conceito de neurônios-espelho não conduz necessariamente a um neurorreducionismo cientificista que reduza consciência, comunicação e processos sociais a processos neurológicos, constituindo antes uma possível base neural de fenômenos ressonantes observáveis no mundo social, que, porém, não os produz nem os determina. 19. Para não interpretar de modo naturalista a relação entre neurônios-espelho e socialidade, quatro pontos são essenciais: o conceito de espelhamento é enganoso, pois se trata de uma excitação responsiva individual e situacionalmente diferenciada, isto é, de ressonância; os neurônios-espelho estabelecem uma capacidade de ressonância, mas não seu conteúdo, que depende da cultura e é reprogramável, como mostra o desejo aprendido da Ferrari vermelha; a direção e o resultado das ressonâncias sociais, como o pânico, o linchamento ou o êxtase coletivo, dependem mais da lógica das dinâmicas interacionais do que de neurônios em si sem direção; e as ressonâncias neurais não determinam as cognições nem as ações, pois, como mostram Fritz Breithaupt e Hans Jürgen Scheurle, a especificidade da conduta social e da cultura humanas, e portanto a autonomia e a liberdade, reside menos na capacidade de gerar ressonância do que na de inibi-la, obstruí-la, controlá-la, sublimá-la e redirecioná-la deliberadamente. 20. A capacidade humana de ressonância tem base neural, e as diversas relações com o mundo, cognitivas, afetivas e físicas, só se desenvolvem por processos ressonantes, o que confirma que sujeito e mundo não precedem sua relação como entidades distintas, mas são produtos da relação, e oferece uma base neural à teoria de George Herbert Mead sobre a emergência da subjetividade a partir da intersubjetividade, já que os bebês desenvolvem o sentido de si pelo olhar e pelo sorriso da mãe e medem a intensidade da dor após uma queda pelas reações dos adultos, de modo que a subjetivação ocorre num campo denso de ressonância, sem o qual, como mostram os experimentos do tipo Kaspar Hauser, as crianças ficam suscetíveis a graves distúrbios psíquicos, doenças e até à morte, mesmo bem nutridas, respondendo com estresse e retraimento a uma figura de apego que as fita sem expressão. 21. A dependência da ressonância não termina na vida adulta, como mostram Claude Lévi-Strauss, Walter B. Cannon e outros etnólogos ao observar em sociedades tribais muito diversas a prática da morte social ou morte vodu, na qual membros excluídos da tribo, privados de toda saudação, sorriso, olhar e reconhecimento gestual ou facial, perdem a vontade de viver e morrem fisicamente por falta de ressonância, o que não surpreende, já que a dor social causada por intimidação ou desconsideração e a dor física produzem reações cerebrais muito semelhantes e em muitos aspectos idênticas. 22. Simples experimentos cotidianos revelam a força da recusa de ressonância na sociedade tardo-moderna, pois bloquear por alguns minutos as expressões de ressonância numa conversa, sem retribuir sorrisos, rir das graças, mudar a expressão diante do desagradável, abrir o círculo da conversa ou acolher suas ofertas, provoca rapidamente sinais claros de irritação ou agressividade, fazendo a vítima sentir-se cercada por um muro de gelo, numa das estratégias de intimidação mais eficazes. 23. Os bloqueios de ressonância, involuntários ou premeditados, permitem identificar situações socialmente problemáticas, como quando se percebe, pela expressão facial, pelos gestos e pelo tom de voz de alguém que cumprimenta e responde normalmente, que algo não vai bem com ele, podendo a recusa de ressonância servir de arma em conflitos interpessoais ou indicar uma incapacidade temporária de ressonância, e é provável que simpatia e antipatia exprimam sensibilidades alternadas à ressonância, conforme se vibre ou não na mesma frequência que o outro. 24. Como os poetas sempre souberam, e como mostra o Werther de Goethe, o estado de paixão distingue-se sobretudo pela intensificação da sensibilidade ressonante mútua do casal, que nunca se cansa do sorriso, do olhar, da voz e dos gestos um do outro, sendo o amor em sua forma mais pura a encarnação da noção hegeliana de estar inteiramente consigo no outro, em que alegrias, tristezas, esperanças e desejos do amado se tornam quase próprios, expressão máxima da atenção conjunta, e os pesquisadores de neurônios-espelho afirmam até que na paixão a atividade desses neurônios atinge o nível de um verdadeiro bombardeio, fazendo vibrar no amante o que o outro sente. 25. Um espelhamento perfeito ou puro do outro provavelmente significaria o fim da relação, pois o amor vive não do eco de si no outro, mas da resposta, exigindo ouvir a voz própria do amado, de modo que a paixão é uma transformação adaptativa mútua, ou mesmo uma suprassunção hegeliana, em que cada amante funciona tanto como segundo diapasão posto em vibração pelo outro quanto como primeiro diapasão que faz o outro ressoar, sendo o amor, segundo uma imagem de Rilke, o processo que extrai de duas cordas uma só voz. 26. Seria insensato reduzir o amor a uma reação neural, dada a complexidade das inter-relações entre processos afetivos, emocionais, cognitivos e corporais e sua dependência da interpretação, mas é razoável interpretar a paixão mútua como acontecimento ressonante complexo e multiestratificado, mostrando que as relações ressonantes não se limitam às relações sociais, já que o amor pode produzir um fio vibrante que torna ressonante toda a relação com o mundo, funcionando como a varinha mágica de Eichendorff que faz o mundo cantar, fazendo flores, árvores, lua e estrelas parecerem sorrir ao apaixonado e a música soar mais doce, mas também, numa sensibilidade ampliada, mais triste, e as tempestades mais ameaçadoras, como atesta igualmente o Werther. 27. As relações ressonantes não se limitam às interpessoais, e, embora as ressonâncias extrassociais quase não tenham sido estudadas pela neuropsicologia, a pesquisa fenomenológica e certas áreas das humanidades oferecem evidências delas, como o uso, através dos séculos e aparentemente de todas as culturas, dos fenômenos meteorológicos como reflexos da psique, a ponto de ser quase impossível não interpretar como relações ressonantes as sensações evocadas pela simples menção da chuva torrencial, do céu cinzento de dezembro, das noites gélidas de inverno, das manhãs radiantes de primavera ou dos dias abafados de verão. 28. A influência do tempo sobre a qualidade da relação com o mundo experimenta-se toda manhã ao sair de casa, sendo difícil sentir-se deprimido numa manhã luminosa de primavera e natural estar mal-humorado na garoa fria do outono, a ponto de a incapacidade de responder ao tempo parecer sinal de distúrbio psicofísico, e esse fenômeno não é moderno, culturalmente específico ou meramente metafórico, como mostram, de um lado, as conexões estabelecidas em todas as culturas e épocas entre tempestades, secas e enchentes e as próprias ações, frequentemente interpretadas como castigo a ser aplacado por sacrifício ou penitência, e, de outro, os estudos experimentais que demonstram impactos ressonantes bidirecionais entre empatia social e sensações de calor e frio, pois quem segura uma xícara de café quente julga os outros mais calorosamente, enquanto a frieza social provoca sensação física de frio e desejo de alimento quente. 29. Não surpreende, portanto, que sociólogos tenham demonstrado uma influência significativa e espantosa do tempo sobre as avaliações econômicas e políticas, como numa meta-análise segundo a qual pessoas entrevistadas em dias particularmente ensolarados se mostravam em média mais satisfeitas com a democracia e com o governo federal alemão e avaliavam mais positivamente a economia do que as entrevistadas em dias chuvosos. 30. Parece igualmente lógico que pessoas deprimidas, assim como os poetas, descrevam o mundo sem ressonância como morto, frio e vazio, já que surgem relações espelhadas entre o mundo exterior percebido e o espaço psíquico interior, o que poderia confirmar a teoria de Thomas Fuchs ou de Otto Friedrich Bollnow sobre a extensão espacial da relação mental com o mundo. 31. Por isso a relação física e mental com o mundo também é influenciada por paisagens e espaços arquitetônicos, montanhas e desertos, oceanos e ruas de grandes cidades, edifícios de concreto e cabanas de madeira, que por sua vez servem de espelhos e superfícies de projeção das disposições psicofísicas, como mostra Bollnow com o exemplo de Petrarca, que em 1336 subiu o Mont Ventoux sem fim prático e se tornou o pai da forma moderna e ressonante da experiência da montanha, pois, como já observara Jacob Burckhardt, quase não descreve a paisagem, mas no cume é levado a refletir sobre a imensidão do tempo e da alma, numa repercussão ressonante entre paisagem e alma. 32. Petrarca não é indiferente à paisagem nem emudecido por seu efeito avassalador, mas a disposição da alma induzida pela vastidão espacial converte-se diretamente numa nova vastidão da própria alma, de modo que a orientação de seus pensamentos para a imensidão interior mantém uma relação indissolúvel com a vastidão da vista, voltada agora para a distância temporal, e a emoção da imensurabilidade do espaço manifesta-se na imensurabilidade do mundo interior, emoção que só a experiência edificante da vastidão espacial torna possível e cuja profundidade se percebe até no relato da descida à planície. 33. Essa interpretação mostra novamente que a base neural da sensibilidade à ressonância não pode ser entendida de modo determinista ou reducionista, pois a impressão de uma paisagem não evoca automaticamente certa afinação da alma, mas só o faz sob condições culturais muito específicas, surgidas no alvorecer da modernidade, sob as quais pode servir de espelho ou, melhor, de superfície ressonante da alma. 34. Talvez não haja espelho extrassocial mais forte e imediato da alma do ser humano moderno do que a música, capaz de evocar com poucos sons e notas, na maioria das pessoas, enormes efeitos emocionais, exprimindo dor e alegria, solidão e desespero, êxtase e alienação, e de atingir o córtex motor, suscitando os movimentos da dança, não sendo por acaso que a própria ressonância é uma metáfora musical, pois a música parece o meio capaz de exprimir diretamente, sem projeção ou mediação cognitiva, os modos, transformações e intensidades da relação com o mundo, permitindo estar inteiramente consigo no outro e entrar numa relação ressonante pura. 35. A capacidade de fenômenos como o tempo, a paisagem e a música se tornarem espelhos ativos ou superfícies ressonantes está provavelmente ligada à linguagem, que permite aos seres humanos ler o mundo, pois, ao contrário de outros primatas, eles podem não apenas executar e observar ações, mas também evocá-las linguisticamente, e a descrição verbal parece fazer disparar os neurônios-espelho de modo muito semelhante, já que a produção da linguagem está ligada ao vocabulário sensório-motor de atos e aos estados emocionais e psicofísicos associados, estando o centro da linguagem e os neurônios-espelho vizinhos e até sobrepostos no córtex pré-motor, o que dá sentido literal à ideia filosófica de fazer coisas com palavras, capazes de abater ou elevar, e faz da aquisição da linguagem um triângulo ressonante entre mão, boca ou voz e significado, pelo qual as comunidades sociais se tornam comunidades de ressonância por meio da língua comum. 36. Essa é apenas uma pequena parte das qualidades ressonantes da linguagem, pois ações, situações e delimitações de sentido mais complexas não têm equivalentes sensório-motores, de modo que os seres humanos geram ressonâncias empáticas fortes sobretudo pela evocação e configuração de conexões narrativas, contando histórias que estabelecem as condições do processo complexo de adoção de outras perspectivas e engendram o que Fritz Breithaupt chama de empatia narrativa, encontrando a noção filosófica do ser humano como criatura narradora sua raiz numa lógica da ressonância e numa teoria do espelhamento. 37. A capacidade das histórias de gerar ressonância não apenas emocional e psicológica, mas até sensório-motora, vê-se em qualquer cinema, onde os espectadores cerram os punhos, riem, choram, prendem a respiração, aceleram o pulso e arrepiam-se, assim como na leitura ou na escuta de histórias, efeitos que escapam em grande parte ao controle consciente, pois ocorrem com igual intensidade mesmo sabendo-se que se trata de pura ficção, de modo que as comunidades de ressonância que habitam os mesmos espaços ressonantes são antes de tudo comunidades de narração, dotadas de um repertório comum de histórias que produzem e dirigem a ressonância. 38. A narração forma uma ponte para os mapas cognitivos e avaliativos, parte reflexiva da relação com o mundo, e para as avaliações fortes neles registradas, pois as narrativas não apenas exprimem esses mapas e seus bens constitutivos, mas em grande medida os produzem, manifestam e modificam, ancorando-os nas disposições psicofísicas, corporais e talvez até neurais. 39. Resulta daí uma cadeia fechada, embora altamente especulativa, de relações com o mundo que se estende da relação física com o mundo, por meio dos neurônios-espelho, da capacidade de empatia, da linguagem e da narração, até o nível reflexivo dos mapas cognitivos e avaliativos, cadeia fundada não em determinações causais, mas em repercussões ressonantes elásticas e bidirecionalmente adaptativas. 40. As referências a relações mudas e ressonantes com o mundo, antes apenas metafóricas, revelam-se empiricamente fundamentadas, e o desejo e a sensibilidade humanos à ressonância têm raízes antropológicas, de modo que o medo de uma perda abrangente de ressonância ou de um emudecimento do mundo, característico das sociedades modernas, se mostra um medo existencial básico que aponta para um diagnóstico de época por meio da crítica das relações ressonantes, já que estas ligam as relações físicas e psicológicas, emocionais e cognitivas, avaliativas e sensório-motoras com o mundo e a capacidade de ressonância neuralmente ancorada é condição de toda relação com o mundo, embora a capacidade predominantemente receptiva de espelhamento seja apenas um dos lados da capacidade de ressonância, ao qual se soma outro, ativo e criativo. {{tag>HRosa mundo ressonância intersubjetividade}}