====== 0.4 O Outro ====== //ORTEGA Y GASSET, José. El hombre y la gente. Madrid: Revista de Occidente, 1957.// **Introdução** **IV. O APARECIMENTO DO "OUTRO"** 1. Os algos presentes no mundo vital, que constituem os assuntos e importâncias com que é preciso haver-se, são puras presenças e copresenças sensíveis que atuam como sinais, indicações e sintomas, como mostra o exemplo do céu, mas, embora o visível ofereça maior clareza expositiva, seria grave erro supor que a visão é o sentido mais importante, pois mesmo do ponto de vista psicofisiológico parece cada vez mais verossímil que o tato foi o sentido originário de que os demais se diferenciaram, e do ponto de vista radical o tato é a forma decisiva do trato com as coisas e o contato o fator mais peremptório na estruturação do mundo. 2. O tato distingue-se de todos os outros sentidos porque nele se apresentam sempre juntos e inseparáveis o corpo tocado e o próprio corpo que toca, numa relação não entre um fantasma e o homem, como na pura visão, mas entre um corpo alheio e o corpo próprio, de modo que no contato as coisas são sentidas dentro do corpo, e o contorno patente se compõe fundamentalmente de corpos porque chocam com a coisa mais próxima do eu, seu corpo, que faz com que todos os demais sejam corpos, razão pela qual um espírito puro não poderia ter vida humana, pois não tropeçaria nos corpos nem poderia manejá-los, deslocando-se pelo mundo como fantasma, como os seres bidimensionais do conto de Wells que assistem impotentes ao assassinato de uma anciã adormecida e se angustiam com seu ser fantasmático. 3. O homem é antes de tudo alguém que está num corpo e que, apenas nesse sentido, é só seu corpo, fato simples e irremediável que decide a estrutura concreta do mundo, da vida e do destino, pois o homem está por toda a vida recluso em seu corpo, como diziam grave e melancolicamente os pitagóricos com o jogo de palavras soma sema, corpo tumba, corpo cárcere. 4. O corpo em que se vive infuso e recluso faz do homem inexoravelmente um personagem espacial, que o põe num lugar e o exclui dos demais, impedindo-o de ser ubíquo e cravando-o a cada instante como um prego num lugar chamado aqui, palavra cujo acento agudo e queda fulminante do a aberto ao i pontiagudo exprimem maravilhosamente essa martelada do destino, de modo que as demais coisas só podem ser vistas, ouvidas e tocadas a partir dele. 5. Mude-se de lugar, este será sempre o próprio aqui, inseparável do eu por toda a vida, e como o mundo tem de ser a partir dele, converte-se automaticamente numa perspectiva, com coisas perto ou longe, à direita ou à esquerda, acima ou abaixo, terceira lei estrutural do mundo de cada um, não do mundo objetivo da física, que não se sabe o que é, e esse súbito aparecimento do perto e do longe é grave porque significa distâncias, o próximo e o distante, podendo o próximo ser odiado e o distante a mulher amada, distância não geométrica, mas que exige esforço e tempo para ser vencida, como para o primitivo, ou dinheiro, cuja obtenção se mede em horas de trabalho. 6. O outro homem também tem seu aqui, mas os aquis se excluem e não se interpenetram, de modo que a perspectiva em que o mundo lhe aparece é sempre distinta da própria e os mundos não coincidem suficientemente, nova causa de solidão radical, já que não só cada um está fora do outro, mas também seu mundo está fora do mundo alheio, sendo ambos mutuamente dois foras e por isso radicalmente forasteiros. 7. Longe é o que está a distância considerável do aqui, o que está lá, e entre o aqui e o lá há um termo médio, o aí, o que não está no aqui, mas próximo, talvez onde está o próximo, sendo o aqui, advérbio demonstrativo de lugar, procedente linguisticamente de um pronome pessoal. 8. Ser o homem corpo faz não só que todas as coisas sejam corpos, mas que todas, inclusive as não corporais, que só se manifestam por meio de corpos, como as imagens de Homero, que não existiriam sem os pergaminhos em que foram escritas, estejam situadas em relação a ele e repartidas em regiões do mundo, como o Norte ou o Oriente, localização tão constitutiva do homem que até o cristianismo precisa avizinhar Deus num lugar, rezando ao Pai que está nos céus, e alojar o diabo no extremo oposto, o inferno, enquanto os gregos primitivos situavam na região inferior o Tártaro, base do mundo, sustentado por um animal de casco largo e duro, a tartaruga, cujo nome viria do grego tartarougos, o que sustenta o Tártaro. 9. Nada disso, porém, é fenômeno autêntico ou radical, mas interpretações imaginárias com que a mente reage às coisas e à sua perspectiva e localização primárias, inventando coisas imaginárias situadas em regiões imaginárias, mencionadas apenas para mostrar quão constitutivo do homem é sentir-se num mundo regionalizado, embora não caiba ocupar-se aqui dessas localizações de um mundo que já não é o primário e real da vida, mas uma ideia ou imagem do mundo. 10. O aparecimento do corpo e de sua localização em perspectiva e regiões não deve fazer esquecer que, ao mesmo tempo, as coisas são instrumentos ou estorvos para a vida, cujo ser não é em si e por si, mas um ser para, como revela o jogo das crianças que perguntam a um adulto o que é uma matraca e o fazem girar a mão, ou o esboço de pedalar quando se pergunta o que é uma bicicleta, de modo que a definição verbal apenas exprime o que o homem faz ou padece com uma coisa e todo conceito é descrição de uma cena vital, enquanto a metafísica, nascida na Grécia no primeiro terço do século V, e a ontologia, assim batizada por um cartesiano no fim do século XVII, buscam há vinte e cinco séculos o ser em si das coisas sem encontrá-lo, razão para suspeitar que elas não o têm ou que, se o têm, é problemático e não o ostentam, o que leva à opinião audaz de que esse ser é apenas hipótese, como as ideias científicas, e de que a resposta aristotélica que o identifica com a substância há muito deixou de satisfazer as mentes ocidentais. 11. Sem ocupar-se do que as coisas são em absoluto, supondo que o sejam, cabe descrever metodicamente o que elas são patentemente no âmbito da vida, onde seu ser não é um presumido ser em si, mas seu evidente ser para, de modo que o ser das coisas como prágmata não é a substancialidade, mas a servicialidade, que inclui sua forma negativa, a desservicialidade, o ser dificuldade, estorvo ou dano. 12. Analisando a servicialidade positiva, encontra-se que cada coisa serve para outra, que serve para uma terceira, numa cadeia de meios até uma finalidade humana, como o enxofre que serve para fazer pólvora, que serve para carregar fuzis e canhões, que servem para fazer a guerra, cuja utilidade é duvidosa, mas também para carregar espingardas para a caça, cuja finalidade foi esmiuçada num prólogo ao livro de arte venatória do conde de Yebes, homem que na selva caça a marmota e nos saraus a imita, e ainda para fazer foguetes para as festas populares, uma das grandes coisas do mundo. 13. As coisas como serviços positivos ou negativos articulam-se formando arquiteturas de servicialidade, pequenos mundos particulares como o da guerra, da caça, da festa, da religião, dos negócios, da arte, das letras e da ciência, chamados campos pragmáticos, e essa é a última lei estrutural do mundo, que não é um totum revolutum, mas está organizado em campos pragmáticos nos quais cada coisa articula seu ser para com o de outras, campos localizados predominantemente em regiões espaciais, mas que convém chamar campos, como na física recente, por serem âmbitos de puras relações dinâmicas, já que no mundo vital nada é material e o corpo e as coisas com que choca são puro choque e dinamismo. 14. O homem vive num enorme âmbito ocupado por campos de assuntos localizados em regiões, e cada coisa que aparece pertence a um deles, de modo que basta advertir uma coisa ou ouvir seu nome para referi-la fulminantemente ao lado da vida a que pertence, como o traje à elegância indumentária ou o plano Marshall à política internacional, e não por metáfora, pois experimentos fisiológicos mostram que ao ouvir uma palavra se produz uma contração muscular mínima que inicia um movimento de empurrá-la numa direção espacial, o que indica que todos levam na imaginação um diagrama do mundo a cujas regiões referem todas as coisas, mesmo as chamadas espirituais, tema interessante para a investigação psicológica. 15. A estrutura do mundo e da vida em lados diversos permite ver o que é o gênio do poeta e a própria poesia, modo de conhecimento cujas verdades diferem das científicas apenas em caracteres secundários, como mostra Proust, que sem ideia científica dessa estrutura narra o adolescente hipersensível que, num veraneio na Normandia, passeia ora para o lado da casa de Swann, judeu sem estirpe mas de rara elegância e vícios retorcidos, ora para o lado do palácio dos Guermantes, de velhíssima nobreza, dois mundos ou campos pragmáticos que funcionam como pontos cardeais opostos de onde sopram sobre sua alma estímulos e tristezas diferentes, e por isso os títulos No caminho de Swann e O caminho de Guermantes são intuições poéticas que equivalem a termos técnicos de uma teoria científica da vida, convindo a cada um precisar de que lados de sua vida sopram com mais insistência os ventos de seu viver. 16. Com isso termina o estudo da estrutura formal do mundo em que cada um vive, muito pouco parecido com o mundo da física, no qual não se vive, apenas se pensa e imagina, pois, se a poesia é forma de conhecimento, a física é forma de poesia, de fantasia mutável que hoje imagina um mundo distinto do de ontem e amanhã imaginará outro, enquanto cada um vive efetivamente no mundo pragmático, imenso organismo de campos de assuntos, regiões e lados, essencialmente invariável desde o homem primigênio. 17. Passando ao conteúdo do mundo para descobrir o que seja social, pode-se atravessar rapidamente o que evidentemente não o é, e a classificação tradicional em minerais, vegetais, animais e homens mostra que o comportamento diante de uma pedra não é social, pois quem a golpeia com um martelo para quebrá-la conta com sua dureza e fragilidade e com o fato decisivo de que ela não se inteira da ação, não age nem padece, sendo a relação unidirecional, o mesmo valendo macroscopicamente para a planta, ao passo que com o animal a relação se modifica, porque o projeto de ação conta com que se existe para ele e com sua reação esperada, de modo que o ato faz uma viagem de ida e volta, antecipando a coice do cavalo ao selá-lo ou a mordida do mastim do rebanho. 18. Com o animal aparece um novo tipo de realidade, pois dizer que a pedra e o eu são dois é inadequado, já que a pedra é pedra para o eu, mas o eu nada é para a pedra, não cabendo comunidade entre ambos, enquanto o animal não só é animal para o eu, e tal animal, pois não se trata igual um pintassilgo e um touro de Miura, mas o eu também é para ele outro animal, como se o burro espancado pelo tropeiro pensasse que bruto é esse animal chamado homem, tão diferente daquele que entra na estrebaria e o lambe e se chama cão. 19. Dizer que o animal e o eu são tem já algum sentido, porque mutuamente se são e o animal responde à ação, relação de mutualidade ou reciprocidade pela qual ele não só existe para o eu, mas coexiste com ele, pois a pedra existe mas não coexiste, e coexistir é entrelaçar existências, um inter-existir, e não simplesmente estar aí sem ter que ver um com o outro. 20. Isso parece o que se chama trato social, ação recíproca em que cada um é centro emissor de atos e antecipa a ação do outro, que por sua vez conta com a sua, de modo que se correspondem, e o animal de fato corresponde a seu modo, olhando, buscando ou fugindo, lambendo ou mordendo, mas com um repertório muito limitado, mensurável numa escala por espécie que mostraria quão escassa é essa coexistência, e o adestramento só dá a ilusão de ampliá-la, pois o animal adestrado não responde a partir de seu centro espontâneo, mas como mecanismo, como as respostas de gramofone do papagaio, de modo que, para coexistir mais com ele, só resta elementarizar e embrutecer a própria vida, como as senhoras idosas que vivem anos sozinhas com um cão e acabam parecidas com ele, seguindo o conselho que Pascal dá diante de Deus, il faut s'abêtir. 21. Não se pode decidir sem mais se a relação com o animal é social, pois retêm a resposta afirmativa a limitação da coexistência e o caráter confuso e ambíguo do modo de ser da besta, que desconcerta e faz oscilar entre tratá-la humana, vegetal ou mineralmente, como mostra a história, que vai dos primitivos e egípcios, que viam nela quase um deus, a Descartes e Malebranche, para quem o animal é uma máquina, uma pedra um pouco mais complicada. 22. Só comparando essa relação com fatos incontestável e saturadamente sociais se pode decidir se ela é social, pois é o caso pleno, diáfano e evidente que permite entender os casos confusos, débeis e ambíguos. 23. Essas considerações delimitaram o conjunto de fenômenos entre os quais pode aparecer de modo patente algo social, restando do conteúdo do mundo apenas as coisas chamadas homens. 24. A simples pergunta sobre como aparecem no mundo vital os outros homens produz uma mudança de ânimo, uma leve inquietude como onda elétrica pela medula, pois até agora se estava num paraíso de pedras, plantas e animais, a natureza, o campo, e embora se fale abstratamente de um mundo que é o concreto de cada um, paradoxo constitutivo da teoria da vida, que dá quadros vazios onde cada um aloja sua autobiografia, basta anunciar os outros homens para que surja um alerta, um quem vem lá, e já não se viva em abandono, mas em guarda e com cautela. 25. Tão temíveis são os outros homens que a tranquilidade sentida no campo se explica pela frase de Nietzsche segundo a qual se está tão à vontade na natureza porque ela não tem opinião sobre nós, enquanto os homens se caracterizam por ter uma opinião sobre nós, e por isso no doce horizonte do mundo paradisíaco desponta um perigo, o outro homem, com o que tudo começa a animar-se e a desconcertar a todos. 26. No contorno aparece o Outro, o outro homem, do qual se tem presença sensível apenas de um corpo que se move e maneja coisas, seu behavior, mas através disso se vê algo invisível por essência, pura intimidade, seu pensar, sentir e querer, que não ocupam espaço nem têm qualidades sensíveis, e já no animal o corpo sinaliza uma incorporeidade, um dentro de onde ele prepara sua resposta, de modo que toda coexistência é coexistência de duas intimidades, e quando um corpo é sinal de uma intimidade nele reclusa é carne, e essa função de sinalizar a intimidade chama-se expressão, o mais enigmático dos problemas da biologia, que há tempos evita ocupar-se da própria vida por ser problema demais. 27. A função expressiva, de certo modo o sugestivo por antonomásia por ser causa de toda sugestão, foi tratada longamente no estudo Sobre a expressão, fenômeno cósmico, e o que concerne ao aparecimento do outro homem será tratado nas lições seguintes. 28. O corpo do outro, quieto ou em movimento, é um abundantíssimo semáforo que envia constantemente sinais e indícios do que se passa no dentro que é o outro homem, intimidade nunca presente, mas copresente, como o lado não visto da maçã, aplicação ainda mais surpreendente do conceito de copresença, pois a parte oculta da maçã já foi presente outras vezes, mas a intimidade alheia nunca o foi nem pode sê-lo e, no entanto, é encontrada ao encontrar um corpo humano. 29. A fisionomia do corpo alheio, sua mímica e pantomima, gestos e palavras não patenteiam, mas manifestam que há ali uma intimidade semelhante à própria, sendo o corpo um fertilíssimo campo expressivo. 30. Os olhos, janelas da alma, mostram do outro mais que tudo, porque são olhares, atos que vêm de dentro como poucos, e neles se vê não só o que e como se olha, mas de que profundidade se olha. 31. Por isso o enamorado nada agradece tanto quanto o primeiro olhar, mas é preciso cuidado, pois se os homens soubessem medir a profundidade do olhar feminino evitariam muitos erros e penas, já que há o olhar concedido como esmola, raso, simples ver, e o olhar saturado que emerge do abismo do ser feminino carregado de algas e pérolas, transbordante de seu querer ser olhar, e se o homem não fosse vaidoso e não interpretasse qualquer gesto insuficiente como prova de amor, suspendendo o juízo até que surjam gestos saturados, não sofreria tantas surpresas dolorosas. 32. Do fundo de solidão radical que é a vida, pratica-se uma e outra vez a tentativa de interpenetração, de dessolidarizar-se, assomando ao outro ser humano com o desejo de dar-lhe a própria vida e receber a sua. {{tag>Ortega humano sociologia alteridade}}