====== 4 Excursões ====== **IV — EXCURSÕES AO SUBSOLO DA TÉCNICA** 1. As respostas dadas à pergunta sobre o que é a técnica são de uma superficialidade espantosa, não por acaso, mas porque partilham a falta de profundidade de quase todas as questões verdadeiramente humanas, que só se esclarecem quando tomadas no estrato profundo de onde brota tudo o que é propriamente humano, o que exige interrogar com todo o radicalismo como pode existir no universo esse fato absoluto e estranho que é o homem fazer técnica. 2. No universo ocorre o fato de que um ente, o homem, se vê obrigado, se quer existir, a estar em outro ente, o mundo ou a natureza, e esse estar de um no outro poderia assumir três feições distintas. 3. Na primeira possibilidade, a natureza ofereceria ao homem puras facilidades, de modo que seu ser coincidiria plenamente com o do mundo, como ocorre com a pedra, a planta e provavelmente o animal, e ele não teria necessidades nem carências, seus desejos não se distinguiriam de sua satisfação e, sem encontrar resistência alguma, não poderia sentir o mundo como algo distinto de si, pois andar por ele seria como andar dentro de si mesmo. 4. Na segunda possibilidade, inversa, o mundo ofereceria ao homem puras dificuldades, sendo os dois seres totalmente antagônicos, e então o homem não poderia alojar-se no mundo nem por uma fração de segundo, de modo que não existiriam a vida humana nem a técnica. 5. A terceira possibilidade, a que efetivamente se dá, é que o mundo se apresenta ao homem como uma intrincada rede de facilidades e dificuldades, como a terra, que o sustenta com sua solidez mas também o separa da fonte e se ergue em ladeiras penosas, e esse fenômeno, talvez o mais radical de todos, confere seu caráter ontológico peculiar à realidade chamada vida humana. 6. Por encontrar facilidades, o homem pode existir, mas, por encontrar também dificuldades, essa possibilidade é constantemente estorvada e ameaçada, de modo que, ao contrário da pedra, que recebe pronta sua existência, ele precisa combater incessantemente o contorno e fazer a cada momento sua própria existência, pois lhe é dada apenas a possibilidade abstrata de existir, não a realidade, que deve conquistar minuto a minuto, ganhando a vida não só econômica mas metafisicamente. 7. Isso ocorre porque o ser do homem e o da natureza não coincidem plenamente, sendo o homem uma espécie de centauro ontológico, metade imerso na natureza e metade transcendendo-a, como os barcos de Dante com meia quilha na praia, e enquanto sua porção natural se realiza por si mesma e não é sentida como seu ser autêntico, sua porção extranatural consiste numa mera pretensão de ser, num projeto de vida que constitui a personalidade e o eu, sem que isso deva ser entendido no sentido do velho espiritualismo. 8. A vida de cada um não é senão o afã de realizar um determinado programa de existência, e o eu é esse programa imaginário a cujo serviço tudo se faz, de modo que o homem não tem realidade corporal nem espiritual, sendo antes aquilo que ainda não é e aspira a ser, e embora o programa precise ser pensado numa ideia, ser esse projeto não é ser essa ideia, como se percebe ao pensar sem dificuldade a ideia de ser um grande financista e estar muito longe de sê-lo. 9. Essa é a condição tremenda e sem par do ser humano, que o torna único no universo: um ente cujo ser consiste no que ainda não é, ao passo que tudo o mais, como o astro, consiste no que já é, coincidindo nele potencialidade e realidade, e a isso se chama coisa, aquilo que tem seu ser já dado e alcançado. 10. Nesse sentido o homem não é uma coisa, mas uma pretensão de ser isto ou aquilo, que cada época, cada povo e cada indivíduo modulam de maneira diversa. 11. Existir é encontrar-se de repente tendo de realizar a pretensão que se é numa circunstância determinada, não escolhida previamente, que abrange não apenas a paisagem ao redor, mas também o corpo e a alma, pois o eu não é nem um nem outro, que são coisas com as quais se tem de viver, mas um drama, uma luta por chegar a ser o que se tem de ser, cuja pressão sobre o mundo em torno é por este aceita ou resistida, facilitando-a em alguns pontos e dificultando-a em outros. 12. Natureza, circunstância ou mundo não são originariamente senão o puro sistema de facilidades e dificuldades com que o homem programático se depara, sendo esses nomes, assim como o conceito de coisa, interpretações intelectuais posteriores que atribuem ao contorno um ser independente, quando na verdade ele esgota sua consistência em ser facilidade ou dificuldade em função da pretensão de cada um, o que explica que o mundo seja diferente para cada época e cada homem, como para o comerciante e o poeta, e que a espécie humana, cujo ser é pura possibilidade imaginária, seja de uma instabilidade e variabilidade incomparáveis, sendo os homens enormemente desiguais, contra o que afirmavam os igualitários dos dois últimos séculos e ainda afirmam os arcaicos do presente. {{tag>Ortega técnica}}