====== 0 Introdução ====== **«Introdução» ao curso O que é a técnica?** 1. Sem a técnica o homem não existiria nem jamais teria existido, tese que orienta seis lições concebidas como um encontro dramático e grave entre quem ensina e quem aprende, pois uma lição que não seja essa peripécia é uma hora perdida e, sendo a vida tempo limitado, perder parte dela equivale a matar vida, a praticar um assassinato branco. 2. Como as lições universitárias raramente são essa peripécia, a universidade tornou-se lugar de crime permanente e impune, e a desmoralização mundial somada à perda de prestígio das universidades sugere que os defeitos da instituição estejam entre as causas do desconcerto europeu, sobretudo porque, mesmo que o homem pudesse ter existido sem técnica, hoje ela é condição ineludível da vida, uma sobrenatureza em que ele habita, e no entanto nenhum grau de ensino leva o homem médio a contemplá-la, já que as escolas especiais ensinam apenas técnicas particulares e a universidade se constituiu justamente excluindo a técnica, como se ela não dissesse respeito ao homem enquanto tal. 3. Os conflitos que a técnica produz hoje nas sociedades, nascidos paradoxalmente da superabundância de sua eficiência, revelam até aos mais cegos a mórbida distância a que a universidade ficou do destino humano, isto é, da vida real. 4. Diante dos problemas mais agudos que angustiam o homem civilizado, o indivíduo formado pela universidade fica paralisado por desconhecer seus fatores, e os economistas, os mais próximos dessas matérias, fracassaram completamente, surpreendidos pelos conflitos por não terem contato verdadeiro com a técnica nem incluírem em suas previsões seus resultados econômicos e sociais. 5. Os engenheiros, por sua vez, mergulhados cada um em seu tecnicismo especial e privados da educação panorâmica e sintética que só a universidade pode dar, eram incapazes de enfrentar ou prever o problema que a técnica impõe hoje à humanidade. 6. A separação radical entre universidade e engenharia é uma das grandes calamidades responsáveis pela inépcia do homem atual diante de suas grandes angústias, sendo funesta, por razões diversas e complementares, para ambas. 7. Embora a universidade tenha sempre carecido de contato com a técnica e tenha tido mesmo assim momentos de plena eficácia histórica, não há paridade entre a situação do homem de então e a de hoje em relação à técnica. 8. A falta de contato com a técnica imprime à universidade um caráter abstrato e espectral, desligado da vida real, situação muito pior que a do universitário medieval, pois a porção de técnica presente na existência humana era então muito menor e cada homem precisava realizar por si mesmo muito mais atos técnicos, ao passo que hoje o progresso técnico entrega prontas inúmeras coisas, até subir a escada, por meio do elevador. 9. A universidade medieval não precisava ocupar-se da técnica porque a camada técnica incorporada à vida não tinha espessura suficiente para se tornar um problema que exigisse técnica e pedagogia especiais e porque a vida extrauniversitária punha suficientemente em contato com a técnica simples e transparente da época, como o senhor feudal que via ferrar seus cavalos e lavrar suas terras, enquanto hoje as técnicas são em sua maioria invisíveis, e ver uma fábrica ou um automóvel não revela sua realidade. 10. Por isso, a posição do homem atual diante da própria vida é mais irreal e inconsciente que a do homem medieval, pois conhece menos as condições sob as quais vive, como os sócios de uma Casa do Povo, que sabem menos das condições de seu trabalho que o artesão medieval, de modo que a técnica, cuja missão é resolver problemas, converteu-se num novo e gigantesco problema. 11. Desde o fim do século XIX era previsível esse desenvolvimento, e muitos quiseram reformar a educação e a universidade para ajustá-las aos novos problemas, mas não foram ouvidos, e a universidade permaneceu ancilosada em sua tradição, julgando que sua missão central era formar latinistas e helenistas. 12. As sociedades humanas revelam ao longo da história uma penosa incapacidade de reformar-se, oscilando entre a teimosia conservadora e a leviandade revolucionária, e raramente se impõe o sentido da reforma oportuna que corrige a tradição sem desarticulá-la, de modo que quem esperava da Europa atual uma visão capaz de eliminar os erros elementares do passado já perdeu essa ilusão. 13. Perder a ilusão não é perder a esperança, pois a Europa de hoje não é necessariamente a de amanhã e a história é uma dialética de experiências encadeadas em que cada sociedade embarca a fundo num molde, como um tipo de Estado, para só então descobrir seus limites e desembarcar rumo a outro, cadeia necessária em que nenhum elo pode ser saltado, embora nem todas as experiências tenham o mesmo valor e algumas sejam frívolas e só sirvam para demonstrar sua insubstancialidade, o que mantém viva uma esperança ativa que deve começar a preparar o amanhã ensaiando uma nova universidade. 14. Essa universidade de verão pode ser um laboratório oportuno para tais ensaios, desde que haja constância na atenção dedicada a ela ano após ano, e já representa um avanço que nela se tenha posto pela primeira vez a cultura universitária em contato com a engenharia, a técnica por excelência. 15. As razões mais profundas dessa conveniência aparecerão ao longo do curso e formarão o contraponto pedagógico e até político que acompanhará a melodia das questões reunidas sob o título O que é a técnica? {{tag>Ortega técnica}}