====== Meditações====== //ORTEGA Y GASSET, José. Meditaciones del Quijote. Madrid: Publicaciones de la Residencia de Estudiantes, 1914.// **Leitor…** 1. Sob o título Meditações anunciam-se ensaios variados, de temas elevados, modestos ou humildes, que direta ou indiretamente se referem às circunstâncias espanholas e constituem, como a cátedra, o jornal ou a política, modos diversos de exercer uma mesma atividade movida pelo afeto mais vivo do coração, o amor intellectualis de Espinosa, de modo que se trata de ensaios de amor intelectual. 2. Desprovidos de valor informativo e alheios aos epítomes, esses ensaios são "salvações", que buscam conduzir pelo caminho mais curto um fato qualquer, um homem, um livro, um quadro, uma paisagem, um erro ou uma dor, à plenitude de seu significado, dispondo os destroços que a vida lança aos nossos pés de modo que o sol produza neles inúmeras reverberações. 3. Em toda coisa há a indicação de uma plenitude possível, e uma alma aberta e nobre sente a ambição de ajudá-la a alcançá-la, o que constitui o amor, entendido como amor à perfeição do amado. 4. Nos quadros de Rembrandt, um humilde pano ou um utensílio grosseiro aparece envolto na atmosfera luminosa que outros pintores reservam às cabeças dos santos, como uma advertência para santificar e amar as coisas, cada uma delas uma fada que esconde sob a miséria seus tesouros interiores e uma virgem que precisa ser amada para tornar-se fecunda. 5. A salvação não equivale a louvor ou ditirambo e pode conter fortes censuras, pois o essencial é pôr o tema em relação imediata com as correntes elementares do espírito e os motivos clássicos da preocupação humana, entrelaçamento que o transfigura, transubstancia e salva. 6. Sob o solo espiritual desses ensaios, por vezes áspero, corre surdamente uma doutrina do amor. 7. A morada íntima dos espanhóis foi tomada há muito tempo pelo ódio, afeto que aniquila os valores ao impedir a fusão da coisa com o espírito, reduzindo-a ao ponto em que o ódio se fixa e consumindo-a a cada instante, de modo que o universo se tornou para o espanhol rígido, seco, sórdido e deserto, e as almas atravessam a vida desconfiadas e fugidias como cães famintos, como na alegoria do Descontentamento de Mateo Alemán. 8. O amor, ao contrário, liga às coisas, fazendo do amado algo imprescindível, parte de nós mesmos, numa ampliação da individualidade que permite penetrar em suas propriedades, vê-lo inteiro e descobrir que ele próprio se liga a outras coisas, que também se tornam imprescindíveis, de modo que o amor, arquiteto divino segundo Platão, vai ligando tudo numa firme estrutura essencial para que tudo no universo viva em conexão. 9. A desconexão é o aniquilamento, e o ódio, que isola e desliga, atomiza o mundo e pulveriza a individualidade, como no mito caldeu em que Ishtar ameaça destruir toda a criação suspendendo por um instante as leis do amor que unem os seres. 10. Os espanhóis oferecem à vida um coração blindado de rancor, no qual as coisas ricocheteiam e são cruelmente repelidas, o que produz há séculos um desmoronamento incessante e progressivo dos valores. 11. Aos espanhóis caberia a sátira de um poeta seiscentista contra o autor de um poema sobre a criação do mundo, segundo a qual o Criador fez do nada o tudo e o poeta fez do tudo um nada, um criando o mundo e o outro destruindo-o. 12. Aos leitores mais jovens propõe-se que expulsem de seus ânimos todo hábito de ódio e aspirem fortemente a que o amor volte a administrar o universo. 13. O único meio disponível para isso é oferecer sinceramente o espetáculo de um homem agitado pelo vivo afã de compreender, única atividade amorosa passível de contágio, na esperança de talhar na alma espanhola novas facetas de sensibilidade ideal, multiplicando os feixes do espírito para que inúmeros temas possam atingi-lo. 14. O afã de compreensão, chamado num diálogo platônico de loucura de amor, é ao menos sintoma necessário de todo amor, o que torna suspeito o amor de quem não se esforça por compreender o inimigo, e aos espanhóis é mais fácil inflamar-se por um dogma moral que abrir-se à veracidade, abraçando o imperativo moral como arma para simplificar a vida aniquilando porções imensas do mundo, atitude em que Nietzsche descobriu formas e produtos do rancor. 15. O rancor, emanação da consciência de inferioridade, é a supressão imaginária daquele que não se pode suprimir realmente, convertido na fantasia em cadáver e encontrado na realidade como um morto indócil, mais forte que nossas forças, cuja existência personifica a zombaria e o desdém por nossa fraqueza. 16. Uma forma mais sábia dessa morte antecipada consiste em impregnar-se de um dogma moral que, sob a embriaguez de um falso heroísmo, nega ao inimigo qualquer razão ou direito, como o chefe dos marcomanos que, diante dos leões lançados por Marco Aurélio, gritou que eram cães romanos, ao passo que o amor também combate, mas combate os leões como leões e só chama cães os que o são. 17. A luta com um inimigo que se compreende é a verdadeira tolerância, atitude própria de toda alma robusta, rara na raça espanhola porque, como escreveu José de Campos, as virtudes de condescendência são escassas nos povos pobres, isto é, nos povos fracos. 18. Isso não significa indiferença ao ideal moral nem desdém pela moralidade em favor de um jogo frívolo com as ideias, pois as doutrinas imoralistas conhecidas carecem de senso comum, e todo esforço se dirige justamente a possuir um pouco de senso comum. 19. Em reverência ao ideal moral, é preciso combater seus maiores inimigos, as moralidades perversas, que são todas as morais utilitárias, inclusive as que se revestem de rigidez, libré tradicional das hipocrisias, já que é falso, desumano e imoral associar a rigidez à bondade, e uma moral se torna utilitária quando o indivíduo a maneja para tornar a existência mais cômoda. 20. Uma linhagem de espíritos soberanos purificou o ideal ético ao longo dos séculos, tornando-o mais delicado, complexo e íntimo, a ponto de não se confundir o bem com o cumprimento material de normas fixas, mas exigir antes de cada ação o contato renovado com o valor ético, de modo que é imoral toda moral que não imponha o dever primário de estar sempre disposto à reforma e ao enriquecimento do ideal ético, e perversa toda ética que encerre o arbítrio num sistema fechado de valores, pois o bem é uma paisagem imensa em exploração secular e o ideal, segundo Flaubert, é trabalho de amor e não de exclusão. 21. A compreensão não se opõe à moral, mas à moral perversa se opõe a moral integral, para a qual compreender é um dever claro e primário que amplia indefinidamente o raio de cordialidade e as probabilidades de ser justo, concentrando uma atitude religiosa expressa na antiga prece do Rig-Veda que pede ao Senhor despertar com alegria e conceder conhecimento. 22. O imperativo da compreensão não é oneroso, pois compreender algo é o mínimo que se pode fazer a seu serviço, e ninguém leal consigo mesmo pode estar seguro de fazer o máximo sem ter passado pelo mínimo. 23. A filosofia é a ciência geral do amor, o maior ímpeto do mundo intelectual rumo a uma conexão universal, o que revela a diferença entre compreender e mero saber, pois toda sabedoria de fatos é incompreensiva e só se justifica a serviço de uma teoria. 24. A filosofia é idealmente o contrário da notícia e da erudição, modo de ciência que teve sua hora quando, na época de Justo Lipsio, Huet ou Casaubon, a filologia ainda não possuía métodos para descobrir a unidade de sentido dos fatos históricos e só podia reuni-los na memória de um indivíduo, unidade externa de "saco de alfaiate" cuja volta hoje seria uma regressão comparável à da química à alquimia, razão pela qual os meros eruditos se tornam raros e desaparecerão em breve. 25. A erudição ocupa a periferia da ciência porque se limita a acumular fatos independentes e desconexos, ao passo que a filosofia constitui sua aspiração central como pura síntese, na qual os fatos desaparecem como alimento bem assimilado e resta apenas seu vigor essencial. 26. A ambição última da filosofia seria chegar a uma única proposição que dissesse toda a verdade, como as mil e duzentas páginas da Lógica de Hegel preparam a frase "a ideia é o absoluto", cujo sentido literalmente infinito ilumina de uma só vez a perspectiva do mundo, iluminação máxima que se chama compreender, e das ruínas de todas as doutrinas renasce indelével a filosofia como aspiração. 27. Assim como o prazer sexual parece consistir numa descarga súbita de energia nervosa e a fruição estética numa descarga súbita de emoções alusivas, a filosofia é como uma descarga súbita de intelecção. 28. Isentas de erudição e movidas por desejos filosóficos, as Meditações não são filosofia, que é ciência, mas ensaios, e o ensaio é a ciência menos a prova explícita, de modo que, embora seja questão de honra intelectual não afirmar nada demonstrável sem possuir a prova, é lícito deixar as comprovações apenas indicadas em elipse, como já fazem até os livros científicos ao dissolver o aparato rígido da prova numa elocução mais orgânica e pessoal. 29. Nesses ensaios, as doutrinas, embora convicções científicas para quem as escreve, não pretendem ser recebidas como verdades, mas oferecidas como modos de considerar as coisas, novas maneiras de olhar que o leitor deve experimentar por si mesmo para comprovar em sua experiência íntima e leal sua verdade ou seu erro. 30. Essas ideias têm um ofício menos grave que o científico, pois não pretendem impor-se, mas apenas despertar em almas irmãs outros pensamentos irmãos, ainda que inimigos, como pretexto e convite a uma ampla colaboração ideológica sobre os temas nacionais. 31. Ao lado de assuntos gloriosos, as Meditações tratam frequentemente das coisas mais ínfimas, como detalhes da paisagem espanhola, o modo de conversar dos camponeses, danças e cantos populares, cores e estilos de trajes e utensílios e peculiaridades do idioma, manifestações miúdas em que se revela a intimidade de uma raça. 32. Sem confundir o grande e o pequeno e afirmando a necessidade da hierarquia, sem a qual o cosmos volta ao caos, é urgente dirigir a atenção reflexiva também ao que se encontra perto de nós. 33. O homem rende o máximo de sua capacidade quando adquire plena consciência de suas circunstâncias, pelas quais se comunica com o universo. 34. A circunstância, as coisas mudas que nos rodeiam, ergue suas fisionomias humildes e ansiosas pedindo que aceitemos sua oferenda, mas caminhamos cegos para elas, voltados para empresas remotas, como o herói que avança reto para uma meta gloriosa sem perceber a donzela anônima que o ama em segredo a seu lado, e todos, em alguma medida, somos heróis que suscitam em torno amores humildes. 35. Como exclama Goethe ao declarar ter sido um lutador e portanto um homem, todos somos heróis que combatem sempre por algo distante e pisoteiam em seu caminho violetas perfumadas. 36. Uma das mudanças mais profundas do século atual em relação ao XIX consistirá na nova sensibilidade para as circunstâncias, pois o século passado, de caráter essencialmente político, fez as massas aprenderem a política pela democracia e colocou com feroz exclusivismo os problemas sociais em primeiro plano, relegando a vida individual como algo pouco sério, a ponto de a única afirmação do individual, o individualismo, ser uma doutrina política que se limitava a pedir que o indivíduo não fosse aniquilado. 37. Todas as energias de seriedade foram gastas na administração da sociedade, no fortalecimento do Estado, nas lutas sociais e na ciência como técnica, enquanto pareceria frívolo dedicar as melhores forças a organizar a amizade, construir um amor perfeito ou cultivar o gozo das coisas, necessidades privadas às quais se nega cidadania, isto é, sentido cultural. 38. Toda necessidade, se potencializada, pode tornar-se um novo âmbito de cultura, e o homem não está condenado aos valores superiores até agora descobertos, ciência, justiça, arte e religião, pois a seu tempo nascerá um Newton do prazer e um Kant das ambições. 39. A cultura oferece objetos purificados, que um dia foram vida espontânea e imediata e hoje parecem livres do espaço, do tempo e do capricho, formando uma zona de vida ideal sobre as existências pessoais, ao passo que vida individual, imediato e circunstância são nomes de uma mesma coisa, as porções da vida das quais ainda não se extraiu o espírito, o logos. 40. Como espírito e logos não são senão sentido, conexão e unidade, tudo o que é individual, imediato e circunstante parece casual e desprovido de significação. 41. A vida social e as demais formas de cultura são dadas sob a espécie de vida individual, pois tudo o que hoje se reconhece como verdade, beleza ou alto valor nasceu um dia nas entranhas de um indivíduo, misturado a seus caprichos e humores, razão pela qual não se deve hieratizar a cultura adquirida, preocupando-se mais em repeti-la que em aumentá-la. 42. O ato especificamente cultural é o criador, aquele em que se extrai o logos do que ainda era insignificante, e a cultura adquirida só vale como instrumento de novas conquistas, sendo, em comparação com a vida espontânea, abstrata, genérica e esquemática, como o martelo é a abstração de cada uma de suas marteladas. 43. Tudo o que é geral, aprendido e conquistado na cultura é apenas o rodeio tático para voltar ao imediato, pois, assim como quem vive junto a uma catarata não percebe seu estrondo, é preciso pôr distância entre nós e o que nos rodeia para que adquira sentido. 44. A crença egípcia de que o vale do Nilo era o mundo inteiro é uma afirmação monstruosa da circunstância que empobrece seu sentido, assim como revelam fraqueza as almas que só se interessam por algo iludindo-se de que é tudo ou o melhor do mundo, idealismo que deve ser extirpado, já que na realidade só existem partes, o todo é abstração delas e o melhor só ganha sua posição entre outras coisas boas, como um capitão precisa de soldados. 45. O ser definitivo do mundo não é matéria nem alma nem coisa determinada, mas uma perspectiva, e Deus é a perspectiva e a hierarquia, sendo o pecado de Satã um erro de perspectiva. 46. A perspectiva aperfeiçoa-se pela multiplicação de seus termos e pela exatidão com que se reage a cada uma de suas ordens, pois a intuição dos valores superiores fecunda o contato com os mínimos e o amor ao próximo e miúdo dá realidade e eficácia ao sublime, de modo que, para quem o pequeno nada é, o grande não é grande. 47. É preciso buscar para a circunstância, tal como é, em sua limitação e peculiaridade, o lugar certo na imensa perspectiva do mundo, conquistando para a vida individual seu posto entre os valores em vez de permanecer em êxtase diante dos valores hieráticos, pois a reabsorção da circunstância é o destino concreto do homem. 48. A saída natural para o universo abre-se pelos passos do Guadarrama ou pelo campo de Ontígola, setor da realidade circunstante que forma a outra metade da pessoa, assim como a biologia recente estuda o organismo como unidade do corpo e de seu meio, numa adaptação recíproca em que a mão se amolda ao objeto e cada objeto guarda afinidade com uma mão determinada. 49. O eu é ele e sua circunstância, e se não a salva não salva a si mesmo, conforme o preceito bíblico de fazer bem ao lugar em que se nasceu e a tarefa platônica de toda cultura de salvar as aparências, isto é, buscar o sentido do que nos rodeia. 50. Com os olhos preparados no mapa-múndi, convém voltá-los ao Guadarrama, sabendo que, se nada de profundo for encontrado, a esterilidade virá do olhar, pois há também um logos do Manzanares, cuja humilde ribeira leva entre suas poucas gotas alguma gota de espiritualidade. 51. Não há coisa no mundo por onde não passe algum nervo divino, e a dificuldade está em alcançá-lo e fazê-lo contrair-se, como sabiam Heráclito ao proclamar que também na cozinha há deuses, Goethe ao buscar o divino nas ervas e nas pedras, Rousseau ao herborizar na gaiola de seu canário e Fabre ao estudar os bichinhos dos pés de sua mesa. 52. Nada impede tanto o heroísmo, atividade do espírito, quanto considerá-lo restrito a certos conteúdos específicos da vida, sendo preciso que em toda parte subsista a possibilidade do heroísmo e que todo homem, golpeando com vigor a terra que pisa, espere que dela brote uma fonte, como para Moisés toda rocha era manancial. 53. Para Giordano Bruno, o mundo é um animal santo, sagrado e venerável. 54. Pío Baroja e Azorín são duas circunstâncias espanholas, e Azorín oferece ocasião para meditar sobre as miudezas e sobre o valor do passado, pois é hora de resolver a hipocrisia moderna que finge interessar-se apenas por convenções sagradas e reserva sua intimidade para o ínfimo, já que, nos baixios do pessimismo, não são as grandes coisas que nos prendem à vida, mas os pequenos prazeres cotidianos, como o aroma da rosa que impediu um desesperado de enforcar-se. 55. Há aí um segredo das bases da vitalidade que o homem contemporâneo deve meditar e compreender em vez de ocultar, como oculta outros poderes obscuros, como a inquietação sexual, que acabam triunfando em sua conduta, o que levanta a questão do sentido da persistência do infra-humano no homem, expressa no desejo do personagem de Medida por medida de trocar sua gravidade por uma pena levada pelo vento. 56. O passado, tema estético de Azorín, constitui uma das terríveis doenças nacionais, como mostra a profunda observação da Antropologia de Kant que, caracterizando os países por seu vício genuíno, chama a Espanha de terra dos antepassados. 57. Terra dos antepassados significa terra que não pertence aos espanhóis atuais, governados pelos que passaram antes numa oligarquia da morte que oprime, pois, como nas Coéforas, os mortos matam os vivos. 58. A influência do passado sobre a raça espanhola revela a mecânica psicológica do reacionarismo espanhol, não apenas o político, sua manifestação menos profunda, mas a constituição reacionária geral do espírito, que se caracteriza em última instância não pelo desamor à modernidade, mas pelo modo de tratar o passado. 59. A morte do que está morto é a vida, e o único modo de dominar o passado é injetar o próprio sangue nas veias vazias dos mortos, o que o reacionário não pode fazer, pois arranca o passado da esfera da vitalidade e o entroniza morto para reger as almas, não por acaso entre os celtiberos, único povo antigo que adorava a morte. 60. A incapacidade de manter vivo o passado é o traço verdadeiramente reacionário, ao passo que a antipatia pelo novo é comum a outros temperamentos, como o de Rossini, que nunca quis viajar de trem, e o grave é que os âmbitos da alma estão infectados, de modo que o passado cai morto na memória como pássaros que sobrevoam os miasmas de um pântano. 61. Pío Baroja exige meditar sobre política, arte barroca e um pouco de tudo, pois, mais que um homem, é uma encruzilhada. 62. Nos ensaios sobre Baroja, Goethe, Lope de Vega, Larra e até no Quixote, fala-se relativamente pouco do tema concreto, porque a missão importante da crítica não é classificar as obras em boas ou más, e cada vez interessa menos sentenciar e mais ser amante das coisas que seu juiz. 63. A crítica é um esforço fervoroso para potencializar a obra escolhida, o contrário do procedimento de Sainte-Beuve, que vai da obra ao autor e o pulveriza em anedotas, pois a crítica não é biografia e só se justifica se completar a obra, fornecendo ao leitor os instrumentos sentimentais e ideológicos para recebê-la da forma mais intensa e clara e dotando-o de um órgão visual mais perfeito, já que a obra se completa completando sua leitura. 64. Um estudo crítico sobre Pío Baroja consiste no conjunto de pontos de vista sob os quais seus livros adquirem significação potencializada, reunindo o que não está neles mas os completa e lhes proporciona a atmosfera mais favorável. 65. As Meditações do Quixote estudam o quixotismo, mas não o quixotismo do personagem, comumente entendido por esse termo, e sim o quixotismo do livro. 66. A figura de Dom Quixote, plantada no meio da obra como antena que recolhe todas as alusões, monopolizou a atenção em prejuízo do restante e do próprio personagem, paródia triste de um cristo mais divino, cristo gótico e ridículo de nosso bairro, macerado em angústias modernas, que desce entre os espanhóis sensibilizados pela miséria de seu passado e de seu presente e os une num comum sofrimento étnico. 67. Os erros causados pela consideração isolada de Dom Quixote são grotescos, pois uns aconselham não ser quixotes e outros convidam a uma existência absurda e congestionada, como se Cervantes não tivesse existido, quando ele veio justamente para situar o ânimo além desse dualismo. 68. O indivíduo só se compreende por sua espécie, e, se as coisas reais são feitas de matéria ou energia, as artísticas são feitas de estilo, de modo que cada objeto estético é individuação de um protoplasma-estilo e o indivíduo Dom Quixote é um indivíduo da espécie Cervantes. 69. É preciso desviar a vista de Dom Quixote para o restante da obra a fim de obter uma noção mais ampla do estilo cervantino, do qual o fidalgo é apenas uma condensação, pois o verdadeiro quixotismo é o de Cervantes em seu livro, e não em sua vida, razão pela qual se prefere o termo quixotismo a cervantismo, evitando o desvio biográfico e erudito. 70. A tarefa é tão elevada que se entra nela certo da derrota, como quem vai combater com os deuses. 71. Os segredos são arrancados à natureza de maneira violenta pelo cientista, que, como caçador, segundo Platão e São Tomás, se dirige reto ao problema e, possuindo a arma e a vontade, abate a nova verdade como uma ave em pleno voo. 72. O segredo de uma obra de arte genial não se entrega à invasão intelectual, mas apenas ao culto meditativo de uma atenção operosa e não direta, de modo que uma obra como o Quixote deve ser tomada como Jericó, cercada em amplos giros por pensamentos e emoções ao som de trombetas ideais. 73. Cervantes, paciente fidalgo que escreveu um livro, aguarda há três séculos nos Campos Elíseos, com olhares melancólicos, que lhe nasça um neto capaz de entendê-lo. 74. Essas meditações, às quais seguirão outras, renunciam a invadir os segredos últimos do Quixote e são apenas amplos círculos de atenção traçados sem pressa pelo pensamento, fatalmente atraído pela obra imortal. 75. Em todos os recantos desses ensaios pulsa a preocupação patriótica de quem, como seus destinatários, nasceu espiritualmente da negação da Espanha caduca, mas a negação isolada é uma impiedade, e o homem piedoso e honrado contrai, ao negar, a obrigação de tentar edificar uma nova afirmação. 76. Tendo negado uma Espanha, impõe-se a honrosa empresa de encontrar outra, que não deixa viver em paz e leva a fazer, até com os mais humildes raios da alma, experiências de nova Espanha. {{tag>Ortega}}