====== 3.1 Zaratustra ====== //LACOUE-LABARTHE, Philippe; LACOUE-LABARTHE, Philippe. Le Sujet de la philosophie. Paris: Aubier : Flammarion, 1979.// **O que é o Zaratustra de Nietzsche?** * A última observação deixa claro que já se começou a usar a linguagem da desconstrução, considerando como, textualmente, o comentário de Heidegger contorna ou atravessa a questão do texto filosófico em geral, no caso em pauta o de Platão, mas ao mesmo tempo, e por uma razão, também o de Nietzsche. * O exemplo de Platão é notável porque sugere o lugar, a localização em que se decide a configuração geral de todo o aparato conceitual da poética, das formas e gêneros, e, qualquer que seja o ceticismo, não se pode evitar mobilizar esse aparato quando se aborda a questão do texto. * Quando se tenta aplicar uma leitura textual a Nietzsche, para seguir no texto o próprio traço da questão do texto, quando se busca o nascimento da textualidade no texto de Nietzsche, não se tem certeza de evitar a arte, o poético e, ao mesmo tempo, a Dichtung, pois para obter tal garantia o texto teria de ser redutível nem à arte nem à Dichtung, teria de exceder cada uma delas. * Seria preciso simultaneamente sustentar que Dichtung ainda é um conceito metafísico e mostrar que, no conceito de arte, algo sempre esteve em obra para desintegrar sua própria conceitualidade e enfraquecer seu impacto filosófico, e sabe-se que, diferentemente da destruição, a desconstrução não trabalha exclusivamente sobre palavras ou conceitos, mas sobre uma combinação e um sistema, sobre uma sintaxe. * Quanto a Nietzsche, e do próprio ponto de vista da sintaxe, é ainda surpreendente que, apesar de uma abordagem inteiramente diferente dos textos, apesar do privilégio concedido em oposição a Heidegger a O Nascimento da Tragédia e aos fragmentos iniciais, apesar da ênfase dada à problemática da linguagem, sejamos necessariamente levados, numa leitura textual como na heideggeriana, a tratar Zaratustra como uma espécie de centro, por mais excêntrico que seja, em torno do qual gravita o resto desequilibrado da obra. * Para esquematizar ao extremo, quase se poderia dizer que a diferença entre Dichtung e texto se estabelece ou se joga apenas em Zaratustra, considerado num caso como o pivô de um sistema abortado e no outro como a culminação, ou ao menos o componente maior, de um sistema de escrita, e como um único texto pode servir tanto para manter Nietzsche no reino da filosofia quanto para retirá-lo dele. * As três possibilidades são: Heidegger tem razão, e Zaratustra é um livro filosófico, e ao não querer inteiramente considerá-lo como tal corre-se o risco paradoxal de se deixar governar pelas pressuposições filosóficas já denunciadas por Heidegger. * Ou então Heidegger não vê, ou mesmo não deseja ver, como Zaratustra se aparta do filosófico, e como o faz de modo mais radical, isto é, mais deliberado, do que qualquer outro texto filosófico, o que talvez seja um sinal de que, para o próprio Heidegger, algo permanece impensado em seu uso da palavra ou conceito de Dichtung, como ficção, ou, como diz Derrida mais rigorosamente, ficcionamento, ou mesmo escrita. * Ou então, por fim, Zaratustra não é, ao menos por si só, o sítio privilegiado da escrita nietzschiana, e poder-se-ia portanto dizer que o texto nietzschiano em geral, como tal, não é mais privilegiado que qualquer outro texto filosófico. * Isso é um pouco caricatural, mas talvez permita ver que o feixe de questões se aperta e que tudo converge claramente para esta questão final e pretensiosa: não quem é o Zaratustra de Nietzsche, mas o que é o Zaratustra de Nietzsche. **Nietzsche em Jena** * Para proporcionar um novo ponto de partida, começa-se seguindo um caminho de interesse aparentemente menor, mas que pode levar rapidamente aonde se quer chegar, continuando a seguir um pouco mais a leitura de Heidegger, e isso simplesmente para levantar dois pontos. * Quando aborda a questão da descoberta da luta entre o apolínio e o dionisíaco, Heidegger, mesmo notando que Nietzsche pode efetivamente reivindicá-la quanto à sua elaboração pública, remete-a imediatamente a Burckhardt, por um lado, e, mais distantemente, a Hölderlin, que teria visto e concebido a oposição de modo ainda mais profundo e elevado. * Não fosse essa referência a Burckhardt, uma das pouquíssimas em todo o comentário a recordar a história erudita das fontes, poder-se-ia pensar que Heidegger tratou adequadamente dessa conexão surpreendente estabelecida, no modo de um diálogo pensante, entre Hölderlin e Nietzsche, mas mesmo reiterando as declarações finais de Nietzsche em Crepúsculo dos Ídolos, a referência a Burckhardt cria a impressão de um sintoma porque soa deslocada. * Ninguém ignora que entre Hölderlin e Burckhardt, de Schelling a Ritschl, ou de F. Schlegel a Bachofen, toda uma tradição de filologia acadêmica, à qual Nietzsche por iniciativa própria se filiou, girava precisamente em torno dessa oposição, e mesmo Andler sabia disso, de modo que esse silêncio só pode ter por função ocultar o romantismo de Jena, que é a fonte dessa tradição e um dos principais lugares de origem de seu pensamento. * Na genealogia da filosofia de Nietzsche que ele repetidamente retraça, Heidegger sempre enfatiza a relação de filiação direta que, por Schopenhauer, une a doutrina da Vontade de Poder à determinação do Ser como vontade comum a todo o pós-kantismo e em particular a Hegel e Schelling, e por isso, desconsiderando a profunda diferença que separa Hegel de Schelling, fala sempre, usando a expressão consagrada, de idealismo alemão. * Do ponto de vista da completude da ontoteologia, não há dúvida de que não há diferença essencial entre essas variantes da filosofia especulativa, mas dizer isso só é possível sob a condição de hegelianizar Schelling, isto é, compreendê-lo na perspectiva da completude sistemático-dialética da filosofia. * Essa operação só pode ser realizada se, primeiro, se subestimar a hostilidade de Schelling em relação à ontológica hegeliana, segundo, se aceitar simplesmente a crítica hegeliana de Schelling e do romantismo em geral, e terceiro, se não levar em consideração seus respectivos textos, a saber, no caso de Hegel, o dionisismo oculto que informa o sistema, e no caso de Schelling, a incompletude, a ruptura, a quebra do próprio projeto sistemático. * Como essas observações podem parecer um pouco simplistas ou historicizantes, objetar-se-á que a ocultação do romantismo é menor em relação ao histórico, o que é sem dúvida verdade, mas não significa que o que está em jogo seja indiferente, pois é nada menos que a questão, ela mesma filosófica, da forma da completude da filosofia. * Embora seja verdade que o debate entre Hegel e Schelling não se reduz a essa única questão, não é menos verdade que a determinação do sistema se decide nessa questão e que o objetivo romântico de uma completude literária, poética, mítica, romanesca, da filosofia, mesmo supondo que esse objetivo também seja englobado por uma lógica de Aufhebung, recoloca inevitavelmente a questão da relação entre literatura e filosofia, arte e filosofia. * É a questão à qual Hegel responde dizendo que a arte é uma coisa do passado, e é a questão que Heidegger repete deslocando os conceitos de arte e verdade nela em jogo, ou, mais exatamente, tentando ir além da parúsia hegeliana levando em conta aletheia e Differenz als Differenz. * Para que isso aconteça, nada em última análise precisa ser feito exceto endossar a determinação platônico-hegeliana da arte como determinação intra-filosófica, condenação ou subordinação, de modo que a arte que sempre sobreviveu à sublação filosófica é precisamente não a arte pura e simples, mas essencialmente Dichtung. * Através de seu projeto de uma completude literária da filosofia, os românticos também mobilizam o conceito de Dichtung, e há, sempre houve talvez, assombrando ou confirmando a segurança do discurso filosófico, essa proximidade quase imediata da poesia, esse risco ou oportunidade de uma possível mistura do poético e do filosófico. * Isso também vale para Hegel, que deve recorrer a todos os recursos da dialeticidade para cortar a afinidade do pensamento especulativo com a imaginação poética, e assim, na medida em que Heidegger não considera por um só momento a Dichtung romântica e não diz uma palavra sobre o debate que ela suscita entre Hegel e o romantismo, deve-se perguntar o que impediria de pensar que seu uso de Dichtung é informado, como pelo efeito preciso de um retorno do recalcado, pela inteira conceitualidade romântica. * A questão é ingênua, mas não sem interesse, pois indica a falta de uma leitura efetiva da relação de Hegel com os românticos, e como é ainda necessário dar ao menos uma ideia desse projeto de uma completude dichterisch da filosofia, pede-se crédito por análises que não se podem produzir, enfatizando apenas alguns pontos. * O cumprimento da filosofia na Dichtung assume a forma geral de um retorno ao mito, e basta recordar o famoso texto conhecido como O Mais Antigo Programa Sistemático do Idealismo Alemão, de 1794, onde a filosofia do espírito, definida como filosofia estética, deve ceder à Dichtkunst para engendrar uma nova mitologia, ela mesma concebida como mitologia da razão. * Essa exigência de uma nova mitologia força a considerar a Dichtung como uma espécie de narrativa ou história, e é por isso que, por exemplo, na introdução ao primeiro rascunho nunca terminado do grande mito filosófico que sonhava escrever, Schelling podia afirmar que, após a ciência ter alcançado objetividade em relação ao objeto, parece consequência natural que busque objetividade também em relação à forma. * Sabe-se que para Schelling esse grande relato filosófico foi concebido como uma epopeia especulativa e deveria ser modelado sobre a Divina Comédia de Dante, privilegiada entre outras razões por sua tripartição especulativa, mas deve-se notar também que esse modelo épico compete com um modelo romanesco, a ideia de um romance filosófico, cujos contornos são fornecidos por um diálogo intitulado Clara, do qual Schlegel tentou produzir a teoria e o texto sob o nome de romance absoluto. * Tudo isso é coerente, sem incompatibilidade propriamente dita, com a ideia de uma exposição fragmentária e aforística da filosofia, baseada ao menos para Schlegel numa teoria do Witz, como com o projeto de uma confusão carnavalesca dos gêneros tais como definidos pela poética platônica da República. * Tal descrição é obviamente muito esquemática e sobretudo não leva em conta a rede textual na qual esse programa está ao mesmo tempo inscrito e engolfado, mas como programa deve-se ainda insistir que é de fato um programa absolutamente filosófico e baseado inteiramente na ideia de uma reversão e de uma superação, de uma completude da ciência e portanto do platonismo. * A referência a Platão, implícita ou explícita, é constante, não só porque tudo isso repousa sobre a distinção entre forma e conteúdo, e não só porque a teoria dos gêneros está implicada, mas também e especialmente porque a própria prática literária de Platão está em jogo, e assim se pode compreender por que Heidegger nunca sente necessidade de falar disso. * Tudo isso ainda não deveria impedir de sentir alguma surpresa pelo fato de Heidegger não aproveitar a ocasião para confirmar seu próprio desdém pelas pretensões literárias de Nietzsche e sua recusa em considerar o caráter poético de Zaratustra. * Se se enfatiza aqui o programa filosófico-literário do romantismo alemão, é porque não é difícil ler nele, particularmente no motivo de uma nova mitologia e no sonho de uma epopeia filosófica, a indicação, quase ponto por ponto, do que será realizado por Zaratustra, talvez sem o rigor especulativo, mas incluindo ainda a rivalidade com Dante. * Não se deve esquecer que Nietzsche também o considerava um dos componentes do mito a ser escrito do futuro, e é o que Bataille suspeitava durante o período de Acéphale, quando a tarefa era libertar Nietzsche da interpretação fascista e nazista do romantismo, e que Nietzsche não soubesse que esse projeto implicava a completude absoluta da ciência, que se inspirasse em textos mais marginais, muda nada. **O Zaratustra de Aristóteles** * Permanece uma dificuldade insuperável: nada permite supor que o modelo do diálogo platônico assombrou, como assombrou os românticos, a obra literária de Nietzsche. * Sabe-se como O Nascimento da Tragédia descreve o papel desempenhado por Sócrates tanto na dissolução do trágico provocada por Eurípides quanto na perversão de Platão, ou ao menos na renúncia de Platão à poesia, e pode-se recordar que é por isso que Platão inventou, através de um método suspeito de mistura de gêneros, um gênero híbrido, mais próximo da nova comédia que da tragédia, e que Nietzsche caracterizou pejorativamente como romance. * Nietzsche lançou toda essa acusação, na época de O Nascimento da Tragédia, do ponto de vista do que Pautrat chama de melocentrismo, isto é, no que concerne à Dichtung, do ponto de vista da Sprachliteratur em oposição à Leseliteratur, à literatura propriamente dita, escrita e destinada a ser lida. * Daí a nota bem conhecida de 1870, segundo a qual o drama filosófico de Platão não pertence nem à tragédia nem à comédia, falta-lhe o coro, o elemento musical e o tema religioso, deriva do gênero épico e da escola homérica, é o romance da Antiguidade, e sobretudo não se destina a ser representado, mas lido, sendo uma rapsódia. * Mas se se chama atenção para o que convencionalmente se chama de período wagneriano de Nietzsche, não é para sugerir que as coisas subsequentemente mudariam, pois de um certo ponto de vista, isto é, em um certo estrato do texto nietzschiano, as coisas de fato nunca mudaram. * Em Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche ainda dirá praticamente a mesma coisa, Platão ainda será retratado como o primeiro decadente do estilo, o diálogo platônico será comparado às Saturae Menippeae, mas isso não significa que Nietzsche nunca escreveu o oposto, em outro estrato do texto e no entanto no mesmo texto, e essas contradições insubláveis terão de ser levadas em conta. * No texto, Platão ou Platão, o sistema de proposições, figuras, usos estratégicos que aparecem sob o nome Platão, nunca é simples, nem mesmo simplesmente duplo, e mesmo que se falasse aqui de ambivalência, e mais ainda se se imaginasse que é psicológica, é evidente que nada se teria dito. * Por exemplo, no curso que Nietzsche deu em Basileia entre 1874 e 1876 sobre a história da literatura grega, quanto a Platão, o artista e o escritor e o texto transmitido sob esse nome, nada é avançado que possa ser interpretado como condenação, muito pelo contrário. * Em conformidade com a lógica profunda, isto é, com a lógica textual de O Nascimento da Tragédia, a oposição entre literatura oral e escrita, entre prosa e poesia, sobre a qual oficialmente os primeiros textos ainda viviam, começa gradual mas sistematicamente a se turvar. * O sinal mais claro disso é fornecido por uma certa reavaliação da escrita, à qual um dito de Heracleides Ponticus sobre a existência de Hinos a Dioniso consignados e conservados no Monte Haemons na Trácia permite atribuir, através da figura intermediária de Orfeu, a imagem terrestre de Dioniso de Hades, de Zagreus, uma origem dionisíaca. * A mesma tradição dionisíaco-órfica e o mesmo dito de Heracleides são usados na primeira parte do mesmo curso para explicar a origem da própria filosofia, o que não significa que a oposição entre escrita e fala cesse pura e simplesmente de funcionar, nem que a escrita, a literatura como tal, seja brutalmente elevada contra a fala. * Ao contrário, o aparecimento da Leseliteratur permanece um sinal de degenerescência, mas o que acontece é que, entre literatura escrita e oral, surge um terceiro termo, o de Kunstprosa, prosa artística, que participa da escrita mas cujo papel é também paradoxalmente ter contribuído para o alargamento da tradição oral, da sprachliches Kunstwerk. * Isso porque a Kunstprosa é fundamentalmente rítmica, não segundo as exigências métricas da poesia, que são alcançadas por convenção, como a moeda, mas segundo a medida de um metro em si, de um metron in sich, do qual o discurso oracular, por exemplo, fornece um bom modelo. * É precisamente para esse tipo híbrido mas fundamental de Kunstprosa que a filosofia não dispõe de termo nem conceito, e a prova disso é a famosa passagem do início da Poética, 1447b, onde a classificação aristotélica dos gêneros se confunde a respeito desse não-gênero anônimo no qual a mimesis se realiza pela linguagem sozinha, em prosa ou em verso. * Nesse texto talvez já esteja gravado, precisamente onde o sistema da poética não funciona mais, o lugar em que o conceito moderno de literatura virá repousar e imediatamente naufragar, e Nietzsche o parafraseia aproximadamente dizendo que, segundo a opinião popular, é o metro que distingue poesia de prosa, mas contra esse critério Aristóteles, que só confere o nome de poeta com base na imitação, denuncia conceder esse nome a quem meramente expõe em metro uma doutrina médica ou musical. * A Kunstprosa como tal escapa às categorias da poética filosófica, e vê-se claramente como o retorno da questão da retórica e dos ritmos vem informar e deslocar toda a concepção anterior de escrita de Nietzsche, o que é tanto mais impressionante quanto é muito precisamente nessa Kunstprosa que não só a grande história e a grande eloquência, mas também a filosofia em seu auge, entre Platão e Aristóteles, encontra uma morada. * Para estabelecer isso, é ainda necessário destacar radicalmente Platão de Sócrates, hipotetizar que Platão não escreveu antes do fim de sua segunda viagem à Sicília, reclassificar todos os diálogos e provar que o diálogo platônico de modo algum se modela sobre o diálogo socrático, do qual se tem uma ideia pelos pequenos diálogos falsamente atribuídos a Platão. * A prova é que no Fedro, o primeiro dos textos propriamente platônicos, Platão discute a questão cardinal de por que se deve escrever, e, por outro lado, ainda se tem de mostrar que na filosofia que se segue, no estoicismo e no epicurismo, começa o declínio desse grande estilo em filosofia. * Daí derivam as principais características da escrita platônica: a mistura de gêneros, a tendência à comédia, a indiferença quanto à demonstração filosófica e a liberdade tomada em relação à verdade histórica, comparável à liberdade tomada pelos poetas em relação ao mito. * Daí também vem, por paradoxal que pareça, a elaboração caótica da obra, através da assembleia arbitrária e tardia de rascunhos antigos, que representa o auge do refinamento artístico e da qual só Goethe poderia fornecer um equivalente, sendo mesmo incerto se Platão mesmo realizou essa assembleia, tão verdadeiro é que, muito frequentemente para Nietzsche, o grande escritor não era o mesmo que o autor. * Mas o mais notável é que, em última análise, Platão escreveu contra si mesmo, praticando o estilo que Aristóteles, segundo Diógenes Laércio, diz ser intermediário entre prosa e poesia, violando assim o severo anátema que ele mesmo havia proclamado sobre os gêneros. * Longe de ter precipitado o declínio da Dichtung, Platão portanto a levou ao seu ponto mais alto, ao menos no registro já inevitável da escrita, e isso ao mesmo tempo contra e entre as distinções fundadoras da poética que ele mesmo havia desenvolvido. * E não é só isso: uma curta mas decisiva tradição de escrita filosófica também evolui a partir dele, tradição que envolve Aristóteles mas mal sobrevive a ele, e que compreende seis modelos consagrados ou tipos de diálogo: o banquete, o magikos, o diálogo sobre os últimos momentos da vida, o protréptico, o peri poieton e, finalmente, o erotikos. * O estilo borgiano dessa nota não diminui a qualidade vertiginosa dessa revelação: modelado sobre um diálogo platônico, havia portanto um Zaratustra aristotélico, e se a isso se acrescenta o de Kant e mesmo o de Heracleides, que Nietzsche menciona, isso perfaz nada menos que quatro Zaratustras na tradição filosófica aberta pelo platonismo, quando se considerava o nosso Zaratustra único em seu gênero. * É sem dúvida apropriado desconfiar desse tipo de coincidência miraculosa, e de fato Zaratustra não é um diálogo, pois em Ecce Homo Nietzsche o retratará antes como um ditirambo e em qualquer caso traçará sua derivação à música e à grande poesia. * Poder-se-iam multiplicar os contraexemplos, mas no caso em pauta a desconfiança pode ser inteiramente deslocada, pois tudo isso permaneceria no nível de uma analogia nominal se o critério distintivo ou traço relevante do modelo platônico não consistisse, em conformidade com a infidelidade de Platão à sua própria doutrina, na dissimulação do autor, do sujeito da escrita, como personagem. * No diálogo platônico, Platão mesmo não fala nem intervém em seu próprio nome, e usa-se a palavra dissimulação de propósito, para apelar àquela condenação do autor apócrifo que Platão apresenta no Livro III da República, 393a-e, onde se trata de definir, entre narrativa simples e imitação pura, entre ditirambo e tragédia, a epopeia como narrativa misturada com imitação. * É em nome da conformidade, da homoiosis entre o sujeito da enunciação e o sujeito do enunciado, e portanto em nome da verdade já pensada a partir da questão da linguagem e da retidão do discurso como adequação, que Platão pela primeira vez na República menospreza a arte e a mimesis. * Inversamente, embora por fidelidade ao modo específico da escrita platônica, Nietzsche mesmo não usa outro critério para medir o declínio do grande estilo filosófico: em Platão, a necessidade pedagógica já enfraquece a intenção estilística, mas quando certo afrouxamento da escrita trabalha com o sucesso e a adoção do modelo aristotélico do curso, quando os filósofos escrevem como falam em seu próprio nome, será o fim da grande arte, do estilo e da beleza formal, e o nascimento do puro gênero filosófico, o gênero científico. * Se esse critério é decisivo, compreende-se por que a dissimulação nietzschiana na figura, personagem e discurso de Zaratustra não coincide simplesmente por acaso com a vontade literária do platonismo. **Dissimulação-Dissimulação** * Que Zaratustra seja platônico, e é claramente muito mais do que se fosse simplesmente romântico ou maçônico, é o que Heidegger ao mesmo tempo diz e não diz, ou mais precisamente, é basicamente o que ele pensa, mas por razões outras que as que se tentou evidenciar. * Mas se se quisesse levar essa leitura até o fim, suspeita-se que se teria de enfatizar a questão da verdade, pois se o que constitui a Darstellung platônica é antes de tudo a dissimulação do autor, uma certa hipocrisia, e se consequentemente a problemática da Darstellung em geral assume o horizonte da verdade já determinado como homoiosis, adequação, então enquanto Heidegger pensa ou tenta pensar algo como uma ruptura acompanhando a interpretação platônica de aletheia, ele terá, em última análise, de reduzir qualquer questão feita sobre a Darstellung a uma questão estética. * O fato de que Heidegger mesmo, ou antes o texto heideggeriano, trabalhou para remendar essa ruptura, o que é evidente em toda parte ao menos desde Holzwege, nada faz senão complicar a questão. * Não se pode, portanto, vislumbrar resolver, contra Heidegger e de modo simples, a questão da escrita nietzschiana, e no caso em pauta, limitando-se ao caso de Zaratustra, é menos a escrita nietzschiana que a escrita platônica que exige exame. * Mesmo que, para medir a magnitude do abalo que Platão causa no edifício da filosofia, isto é, de sua filosofia, se pudesse contentar com o único critério nietzschiano da contradição assim introduzida, no texto platônico, entre conteúdo e forma, contradição que seria fácil mostrar que se estabelece precisamente nesse conteúdo, ir-se-ia ao ponto de ratificar a reversão nietzschiana, que é apenas, como diz Heidegger, uma reversão, da relação entre conteúdo e forma. * É claro que, de fato, essas questões devem permanecer sem resposta, pois não se pode responder pela escrita. * Ainda assim, como nunca é verdade que se possa resignar a deixar uma questão suspensa, conclui-se com uma última tentativa sobre essa dissimulação, onde ao menos em parte se joga a relação infinitamente ambígua entre Nietzsche e Platão, para corrigir o efeito que essa análise embrionária arrisca provocar, ou seja, para reverter, ou antes deteriorar, seu resultado mais óbvio. * Se tanto o retraimento quanto o dissimular estão em jogo na dissimulação, na dissimulação textual e não no conceito do qual Nietzsche aliás faz uso extensivo, se verdade e verdade, aletheia e homoiosis, se entrelaçam, se a própria verdade começa a se desfazer, o que aconteceu quando, no último ano, como que revertendo brutalmente toda a estratégia platônica de Zaratustra, ou a estratégia aristotélica de A Vontade de Poder, Nietzsche de repente falou, escreveu, em seu próprio nome, para dizer a verdade. * Mas lê-se: tenho um terrível medo de que um dia me declarem santo, e adivinha-se por que publico este livro antes, para impedir que as pessoas façam travessuras comigo, não quero ser um santo, antes mesmo um bufão. * Um bufão, isto é, um bufão real, não Sócrates, aquele bufão que queria ser levado a sério e que não escrevia, mas um bufão como o das Saturae Menippeae, ou o bufão dos cínicos, que são também, no desastre pós-platônico do grande estilo filosófico, os únicos que, através da dissimulação, ofereceram alguma resistência. * Mas por quê, para escrever algumas cartas bufonescas, repisar uma última vez algumas velhas ideias, perder-se em todos os nomes, assinar todos os nomes, escrever em todos os estilos, reescrever seus próprios livros, nunca terminar de esgotar o conteúdo inesgotável, a inesgotável falta de conteúdo do que ainda se chama, tão ingenuamente, o sujeito da escrita. * Uma vez engajada, embora quem possa dizer quando isso acontece, a dissimulação nunca termina, e é isso que se chama loucura, mesmo quando se suspeita, como Gast ou Overbeck, que é simulada. * Mas talvez seja urgente dizer aqui que nenhum escritor, nenhum filósofo por exemplo, jamais ignorou isso. {{tag>Lacou-Labarthe filosofia Nietzsche Zaratustra}}