====== Sexto Empírico ====== //KOLAKOWSKI, Leszek. Why is there something rather than nothing?: 23 questions from great philosophers. Translated by Agnieszka Kołakowska. London: Penguin Books, 2007.// * O sentido popular em que hoje usamos "cético" e "ceticismo" é frouxo, referindo-se apenas a dúvidas sobre a verdade de uma opinião ou o êxito de um projeto, mas na Antiguidade um cético era seguidor de doutrina bem definida sobre cognição, conhecimento e modo de vida, alguém que examinava as coisas cuidadosamente. * É questionável se o próprio Sexto Empírico foi grande filósofo, tendo a escola cética já existido por séculos antes dele, com filósofos como Pirro de Élis que nada escreveram; Sexto, porém, deixou obra extensa e detalhada, sendo o único codificador antigo da doutrina cética, merecendo por isso lugar entre os grandes. * Os escritos de Sexto contêm centenas de argumentos destinados a mostrar que tudo que julgamos saber é incerto, que os motivos para aceitar afirmações opostas têm igual força, e que diferentes escolas filosóficas proclamam opiniões mutuamente contraditórias, incluindo argumentos sobre a falibilidade da percepção sensorial: animais percebem de modo diferente dos homens, e mesmo entre pessoas as percepções variam conforme circunstâncias, saúde ou idade, não havendo fundamento para dizer que nossos sentidos alcançam as coisas como realmente são, conhecendo apenas aparências; o cético não nega as aparências, apenas nota que são o que são, sendo o mel doce para nós sem que isso funde a afirmação de que é doce em si mesmo, do mesmo modo que uma torre parece redonda de longe e poligonal de perto, sem que nenhuma dessas aparências mereça mais crédito que a outra. * Argumentos para diversas afirmações metafísicas ou teológicas são igualmente indecidíveis: uns afirmam a existência dos deuses, outros a negam; uns creem na Providência, outros apontam as desgraças do mundo como prova de sua inexistência; nem o consenso geral pode servir de critério de verdade, pois não é possível conhecer a opinião de todos, e mesmo que houvesse tal consenso não seria critério confiável; a distinção entre sonho e vigília também revela a relatividade de nossas opiniões sobre o que é real. * Há objeções ainda mais fundamentais: para confiar na verdade de uma opinião precisamos de um critério de verdade, mas para avaliar a confiabilidade desse critério precisaríamos de outro critério, e assim ao infinito, não existindo, portanto, critério de verdade nem sinais que distingam o verdadeiro do falso; do mesmo modo, para confiar numa prova precisaríamos de prova de que essa prova é confiável, e assim sucessivamente. * Assim, as opiniões dos filósofos sobre elementos, alma ou deuses carecem de fundamento, sendo afirmações dogmáticas injustificadas, o mesmo valendo para nossas opiniões sobre bem e mal, invocando Sexto a ampla variedade de costumes e crenças entre diferentes povos sobre o que é permitido ou proibido na vida sexual, no vestuário ou na alimentação. * Estaria o cético, então, obrigado a declarar que não existe verdade e que o conhecimento é impossível? De modo algum: quando Carnéades declarou impossível o conhecimento, demonstrou com isso não ser cético, pois tal afirmação é tão dogmática quanto as opiniões de Platão ou Aristóteles, além de autocontraditória, já que afirmar a impossibilidade do conhecimento pressupõe conhecer que o conhecimento é impossível; a escola cirenaica afirmava que tudo participa de matéria oculta incognoscível, mas o cético não faz tais afirmações dogmáticas, apenas suspende o juízo, seu principal ato intelectual, resumido no lema "nem mais": nenhum argumento a favor de uma opinião tem mais peso que o argumento contrário. * O ceticismo não é, a rigor, teoria ou doutrina, mas método de eliminar todas as teorias, como um remédio que expurga humores nocivos do organismo e a si mesmo junto com eles, sendo saúde mental o estado em que já não se necessita de remédio algum, nem mesmo do remédio cético. * Mas pode-se viver bem após essa cura, em suspensão permanente da crença? Certamente, responde o cético, sendo aliás o melhor tipo de vida possível, não sendo o objetivo o prazer, mas a quietude ou serenidade alcançada pela terapia cética; o cético obedece às leis, costumes e tradições de seu país, sujeita-se às emoções naturais e vive "segundo as aparências", não precisando de opiniões sobre a existência ou não das coisas ao redor para levar vida normal, usando-as ou evitando-as como qualquer pessoa sem pressupor seu status ontológico, não se preocupando, por exemplo, com a existência de Deus ou Seus atributos. * Devemos também esquecer o que ensinam os lógicos, não havendo modo confiável de estabelecer definições ou divisões em categorias; Sexto talvez tenha sido o primeiro a notar, como depois observou Mill, que mesmo o silogismo mais simples envolve círculo vicioso, pois para saber que todos os homens são mortais precisamos já saber que Sócrates é mortal, não escapando nem a matemática nem as noções de tempo, espaço e causalidade a essa crítica. * Nem todos os argumentos de Sexto sobreviveram até hoje na forma original, mas muitos permaneceram vitais, alimentando o pensamento filosófico por séculos, cabendo perguntar que questões suas suscitam. * Primeiro, seria sólido e convincente o argumento de que não existe critério de verdade porque estabelecê-lo exigiria outro critério ao infinito? E se o argumento procede, o que dele se segue? Não se segue, segundo Sexto, que o conhecimento confiável seja impossível, pois tal afirmação seria dogmática e autocontraditória; seria esse último argumento refutável? * É importante lembrar que o cético não faz afirmações gerais de espécie alguma, visando curar a alma e livrá-la de preocupações desnecessárias e insolúveis, não convencê-la da verdade de alguma doutrina; o próprio Sexto admite, sem desenvolver o ponto, que o homem é animal que ama a verdade por natureza, parecendo correto que desejamos conhecer o que é real não apenas por necessidade prática, mas pela própria verdade; seria possível, porém, a um amante da verdade ser indiferente à verdade, como Sexto pretende? Seria possível alcançar estado de indiferença mental quanto a Deus, o tempo, a alma, a causalidade e tantas outras questões? Se quero comer uma maçã não preciso conhecer sua natureza em si, bastando suas propriedades sensíveis; mas seria essa imperturbabilidade, se alcançável, realmente o melhor e mais perfeito tipo de vida? Poder-se-ia dizer que, nada sabendo, não vale a pena construir teorias infundadas, mas mesmo aqui espreita o enigma, pois o cético não pode afirmar que nada sabemos, apenas sugeri-lo; e se filósofos e sábios tivessem seriamente buscado tal serenidade autossatisfeita, teriam conseguido construir nossa civilização? Teria a física moderna, com todas as suas aplicações técnicas, sido inventada sem a física especulativa que Sexto acusava de estéril e infundada? * A terceira e última questão é a seguinte: contradiz-se o cético ao expor a própria doutrina cética? Não deveria, para ser coerente, permanecer em silêncio? {{tag>Kolakowski Sexto}}