====== Bernard Hesbois ====== //KOJÈVE, Alexandre. Le concept, le temps et le discours: Introduction au Système du Savoir. Paris: Gallimard, 1990 (redigido na década de 1950).// **Apresentação de Bernard Hesbois** 1. O conceito, o tempo e o discurso constitui o empreendimento inacabado de uma vida inteira, cuja própria natureza o tornava interminável. 2. A obra deveria compreender uma Introdução tríplice, concebida como preparação pedagógica para o Sistema do Saber, e uma Exposição desse sistema, mas apenas as introduções psicológica e lógica foram concluídas, enquanto a introdução histórica permaneceu parcialmente realizada no Ensaio de uma história racional da filosofia pagã e em Kant, e a Exposição se limitou a esboços. 3. Os fragmentos dispersos do Livro conduzem ironicamente à sua ausência e deixam ao leitor a tarefa de completar sua circularidade, restando inicialmente reconstruir o plano de seu conteúdo. **O discurso filosófico** 1. A existência humana desenvolve-se em um universo discursivo no qual viver implica narrar, inventar histórias, representar o mundo, interpelar, ordenar, rezar, prometer, questionar, responder e contradizer. 2. O discurso filosófico toma como fato primordial a própria existência do discurso e procura compreender simultaneamente a essência das coisas e o sentido do que se diz sobre elas, mediante o Conceito como unidade que pode manifestar-se tanto como essência quanto como sentido. 3. A unidade de essência e sentido no Conceito constitui o problema da verdade, cuja validade universal e necessária precisa ser conciliada com seu aparecimento em determinado momento do mundo, tornando inevitável investigar a relação entre o tempo e o intemporal. 4. A solução heraclitiana dissolve a verdade em uma conversação interminável e sem sentido determinado, enquanto a solução parmenidiana ou espinosista, ao separar absolutamente o Conceito do tempo, reduz o pensamento ao silêncio por não conseguir explicar como a verdade eterna pode manifestar-se no discurso de um ser temporal. 5. A história da filosofia culmina na identificação hegeliana do Conceito com o tempo histórico orientado pelo futuro, reconhecendo na transformação dos objetos em discurso um processo humano finito que dispensa qualquer Verbo transcendente e cuja conclusão no Livro produz uma separação impessoal entre a obra e seu realizador, análoga à separação entre o morto e seu corpo. 6. A abertura do Livro permite passar à consideração do Sistema do Saber. **O “Sistema do Saber”** 1. O discurso filosófico apresenta uma estrutura tríplice, explicitada inicialmente por Platão, na qual a fenomenologia descreve o mundo e seus discursos, a ontologia esclarece o ser comum a tudo o que aparece e a energologia determina a realidade objetiva que permite às coisas serem e aparecerem conforme o que delas se diz. 2. A experiência da contradição e do erro, produzida pelos discursos que isolam os fenômenos e ignoram o próprio ato de falar, suscita a exigência de uma fenomenologia capaz de compreender em um discurso único a diversidade dos fenômenos, suas interpretações e a distinção entre seres que falam e seres que não falam. 3. A existência empírica compõe-se de mônadas internamente estruturadas, situadas em meios e épocas determinados, cuja duração e extensão próprias unificam tanto a multiplicidade de posições espaciais quanto a sucessão de momentos temporais. 4. A existência empírica diferencia qualitativamente presente, passado e futuro, articulando um cosmos marcado pelo primado do presente, um mundo vivo orientado pelo primado do passado e um universo humano de ação e discurso constituído pelo primado do futuro. 5. A percepção transforma a mônada em fenômeno distinto de outros fenômenos e de seu meio, enquanto o discurso converte esse fenômeno no sentido de uma noção que permanece vinculada à existência empírica e se relaciona discursivamente com outras noções. 6. A coerência e a completude da fenomenologia exigem um discurso complementar sobre aquilo que todos os fenômenos têm em comum, isto é, o fato de serem e de compartilharem uma identidade pela qual se distinguem conjuntamente do nada. 7. O objeto da ontologia é o ser dado ao discurso, pois somente nessa condição ele se distingue do nada, embora essa vinculação não implique identificar idealisticamente o ser com o próprio discurso. 8. O ser dado é homogêneo e idêntico a si mesmo, mas sua diferença em relação ao nada exige uma diferenciação interna que preserve essa identidade, constituindo-o como espacialidade e temporalidade. 9. A espacialidade do ser dado consiste em uma multiplicidade de pontos idênticos e sem estrutura própria, diferenciados apenas por suas posições, mas essa diferenciação do idêntico só pode ser compreendida mediante o movimento e, portanto, mediante a temporalidade. 10. A temporalidade permite identificar o que se diferencia espacialmente, embora permaneça homogênea no ser dado, onde presente, passado e futuro não possuem determinações próprias nem constituem épocas distintas. 11. A temporalidade torna o ser concebível ao subtrair sua existência presente e conservá-lo como essência passada, possibilitando que o discurso humano dê a essa essência uma existência separada como sentido, sem que o próprio ser dado se confunda com o discurso. 12. O sentimento de bem-estar ou mal-estar revela o ser dado como potência de durar e estender-se, pois sentir-se bem significa experimentar essa capacidade, enquanto sentir-se mal significa experimentar sua restrição e a ameaça de aniquilamento. 13. A energologia ocupa a posição central e mais difícil do Sistema do Saber porque medeia ontologia e fenomenologia, esclarecendo discursivamente a realidade objetiva investigada pelos físicos e articulando suas relações com o ser dado e com a existência empírica por intermédio das diferentes ciências. 14. A distinção epistemológica entre matemática, física e ciências dos seres empiricamente estruturados depende das relações entre observador e observado, pois os objetos matemáticos não possuem estrutura interna nem qualidades próprias, os objetos físicos se definem pela interação perturbadora e por qualidades relacionais, e os objetos biológicos apresentam também diversidade interna e qualidades próprias. 15. A presença da realidade objetiva revela-se pela variação do tônus que acompanha as sensações, pois a experiência dinâmica de resistência manifesta uma oposição irredutível que pode ocorrer tanto no tato quanto na visão ou na audição. 16. A oposição constitutiva da realidade objetiva conserva-se através das variações quantitativas de seus elementos, exigindo uma constante absoluta, como a energia, que exprima a permanência dessa realidade nas transformações. 17. A dualidade constitutiva da realidade objetiva admite diferentes formas de expressão. 18. A realidade objetiva não comporta graus e distingue-se absolutamente da irrealidade do sentido discursivo, cuja vinculação a um suporte material não permite reduzir o discurso e a história humana à fisiologia, à química ou às equações físicas. 19. A realidade objetiva determina o presente instantâneo ao opor um momento qualquer à totalidade do passado e do futuro, distinguindo-se tanto da homogeneidade temporal do ser dado quanto da diferenciação qualitativa dos momentos da existência empírica. 20. A estrutura da realidade objetiva apresenta a oposição irredutível entre matéria e vazio e, no interior da matéria, entre elementos sem estrutura própria que se diferenciam por relações de oposição e neutralização, razão pela qual essa realidade não é diretamente perceptível nem pode ser representada fenomenalmente senão por metáfora. 21. A linguagem ordinária e a filosofia encontram seu campo próprio no mundo dos fenômenos, de modo que o ser dado e a realidade objetiva só podem ser discursivamente compreendidos como suas bases, enquanto o isolamento científico da realidade física exige algoritmos e impede descrevê-la coerentemente como um mundo fenomenal em miniatura. 22. O sentido propriamente discursivo resulta da ligação não necessária entre sentido e morfema em uma noção desenvolvível coerentemente, mas essa ligação degenera em símbolo e “metria” quando desaparece, ou em signo e “grafia” quando se torna indissolúvel. 23. O isolamento e a transposição dos três domínios do Saber originam diferentes formas discursivas ou paradiscursivas, como a lógica formal, a física matemática, as ciências descritivas, a matemática pura, a teologia, a mecânica e as ciências de medição, enquanto a consideração do discurso efetivo distingue a axiologia prática, a epistemologia teórica e a metodologia filosófica. 24. A articulação entre a tríplice estrutura do discurso e seus reflexos formais, gráficos e métricos permite compreender a organização prevista para a Exposição do Sistema do Saber. **Sumário** 1. A Exposição deveria compreender uma Metafísica dedicada à ontologia, à energologia e à fenomenologia geral, uma Fenomenologia específica voltada à cosmologia, à biologia e à antropologia e uma Análise do Discurso que explicitasse suas modalidades prática, teórica e filosófica, seguidas de um apêndice sobre o Silêncio e de um posfácio destinado a favorecer a aceitação filosófica do Fim da História. 2. A morte de Kojève deixou, além da Introdução redigida em 1953, um esboço da Ontologia e fragmentos da Energologia, da Análise do Discurso e do Posfácio. 3. O Sistema do Saber talvez não tenha utilidade alguma porque constitui um jogo, mas sua gratuidade conserva a seriedade própria das brincadeiras infantis. {{tag>Kojève Hegel conceito tempo discurso sistema saber}}