====== 5 Curso 1937-1938 ====== //KOJÈVE, Alexandre. Introduction à la lecture de Hegel: Leçons sur la Phénoménologie de l'Esprit professées de 1933 à 1939 à l'École des Hautes Études. Reunidas e publicadas por Raymond Queneau. Paris: Gallimard, 1947.// **CURSO DO ANO ACADÊMICO 1937-1938** **RESUMO DOS SEIS PRIMEIROS CAPÍTULOS DA FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO** **(Texto completo das três primeiras conferências do curso do ano acadêmico 1937-1938)** 1. Os dois últimos capítulos da PhG tratam da Religião e do Saber absoluto, sendo este não o desenvolvimento do conteúdo do Sistema, mas a determinação do que devem ser esse Saber e o Homem que o possui, sobretudo em contraste com o saber que também se pretende absoluto da revelação cristã e de sua teologia. 2. O caráter essencial da filosofia hegeliana e da religião cristã, bem como de suas relações mútuas, só pode ser compreendido mediante a consideração de sua gênese. 3. A gênese do Cristianismo é descrita no capítulo VII, enquanto toda a PhG descreve a gênese da filosofia hegeliana, sendo religião e filosofia superestruturas ideológicas apoiadas na infraestrutura real das Ações humanas da história universal, razão pela qual o Saber absoluto só pode realizar-se no fim da História, no último Mundo criado pelo Homem. 4. Compreender o que é o Saber absoluto e como ele se tornou possível exige compreender o conjunto da história universal, tarefa realizada no capítulo VI. 5. Compreender a História exige saber o que é o Homem que a realiza, ao mesmo tempo material, pedreiro e arquiteto do edifício histórico e transformado no curso de sua construção, cujas condições necessárias e suficientes para o início da História são estudadas nos quatro primeiros capítulos da PhG. 6. O Homem é também aquele para quem se constrói o edifício histórico, havendo uma categoria de Intelectuais que, sem participar ativamente da construção, apenas falam dela e produzem ideologias criticadas no capítulo V, enquanto o conjunto da PhG deve responder ao que devem ser o Homem e sua evolução para que um indivíduo chamado Hegel possua um Saber que revela o Ser em sua totalidade. 7. Em seu aspecto cartesiano, o problema da PhG equivale à pergunta do filósofo que se crê capaz de alcançar a verdade absoluta: "Penso, logo existo; mas o que sou eu?". 8. A resposta cartesiana, segundo a qual o filósofo é um ser pensante, não satisfaz Hegel. 9. Embora todos os homens sejam seres pensantes, apenas o filósofo dotado de Saber absoluto possui a verdade definitiva, de modo que responder "um ser pensante" pouco ou nada esclarece sobre quem ele é. 10. Como o Saber absoluto está encarnado em Hegel, a pergunta "o que sou eu?" converte-se na pergunta sobre o que é esse homem chamado Hegel. 11. Hegel é um homem de carne e osso que escreve sobre uma mesa produzida pelo trabalho humano, num Mundo humano inserido na Natureza, e que reconhece nos ruídos distantes os canhões de Napoleão na batalha de Jena, sabendo assim viver num Mundo em que Napoleão atua. 12. Esse saber, inacessível a Descartes, Platão e outros filósofos, talvez seja precisamente o que permite a Hegel alcançar o Saber absoluto buscado em vão por seus predecessores. 13. Resta saber por que apenas Hegel, e não qualquer de seus contemporâneos que conhecem a existência de Napoleão, chega a esse Saber, o que depende de saber se estes realmente compreendem quem é Napoleão. 14. Compreender Napoleão significa compreendê-lo como aquele que realiza o ideal da Revolução Francesa e do Iluminismo e, portanto, em função do conjunto da história universal, tarefa que somente Hegel cumpriu ao deduzir e justificar sua existência a partir dos princípios de sua filosofia, enquanto os demais condenaram a realidade histórica e foram por ela condenados. 15. Cabe supor que Hegel seja o pensador dotado de Saber absoluto por viver na época de Napoleão e por ser o único a compreendê-lo. 16. É precisamente essa a tese sustentada na PhG. 17. O Saber absoluto tornou-se objetivamente possível porque a evolução histórica chegou a seu termo em Napoleão, e subjetivamente possível porque Hegel compreendeu esse Mundo e compreendeu-se como quem nele vive e o compreende, de modo que sua consciência particular, penetrada pela totalidade do processo histórico, tornou-se tão universal quanto ele, constituindo o Saber absoluto desenvolvido na Enciclopedia. 18. A filosofia de Descartes é insuficiente não apenas porque, vivendo antes do fim da História, só poderia conceber uma parte da realidade humana, mas também porque sua resposta "sou um ser pensante" é falsa por ser unilateral. 19. Ao partir do "Eu penso", Descartes atentou apenas para o "penso" e negligenciou o "Eu", embora o Homem seja antes de tudo Consciência-de-si, isto é, um ser que revela pelo Discurso não só o Ser, mas também o próprio ser revelador que se denomina Eu. 20. Embora não haja existência humana sem Consciência do mundo exterior, uma existência humana capaz de tornar-se filosófica exige também Consciência-de-si e, portanto, a existência desse Selbst especificamente humano revelado quando o homem diz "Eu". 21. Antes de analisar o "Eu penso" e a teoria kantiana do conhecimento, é preciso perguntar o que é o sujeito revelado pelo Eu e quando, como e por que o homem é levado a dizer "Eu". 22. A Consciência-de-si pressupõe a Consciência, isto é, a revelação pela Palavra de um Ser ainda neutro, pois antes da Consciência-de-si não há oposição entre sujeito e objeto, Eu e não-Eu, humano e natural. 23. A forma mais elementar da Consciência, estudada como Certeza sensível, não permite de modo algum chegar à Consciência-de-si, que exige partir de algo distinto do conhecimento contemplativo e passivo do Ser. 24. O homem que contempla atentamente uma coisa fica absorto nela e esquece-se de si, sendo tanto menos consciente de si quanto mais consciente é da coisa, de modo que a palavra "Eu" não aparece em seu discurso. 25. Para que a palavra "Eu" apareça, é necessário algo além da contemplação passiva, a saber, o Desejo. 26. Quando o homem sente um desejo, como a fome, toma necessariamente consciência de si, pois o desejo se revela sempre como desejo seu, fazendo-o voltar a si e aparecer-lhe a coisa como objeto exterior, como não-Eu. 27. O fundamento da Consciência-de-si e, portanto, da existência humana e filosófica não é a contemplação cognitiva, mas o Desejo, razão pela qual a existência humana só é possível onde há vida biológica. 28. O Desejo é desejo de transformar pela ação a coisa contemplada, negando sua independência e assimilando-a ao Eu, de modo que a Consciência-de-si exige no Homem, além da contemplação, um Desejo negador e uma Ação transformadora que cria um novo ser ao destruir o ser dado. 29. O Eu do Desejo é um vazio ávido de conteúdo que se preenche esvaziando o que está cheio, e por isso o Homem não é um Ser idêntico a si, mas uma nada que se realiza aniquilando o Ser, Ação negadora cujo verdadeiro ser é Devir, Tempo e História, realizados pela Luta e pelo Trabalho que produziram a mesa de Hegel e a batalha de Jena. 30. A revelação do Ser dado pela Palavra e a Ação negadora que surge do Desejo são dois dados irredutíveis pressupostos pela PhG como premissas, embora não bastem. 31. O Desejo animal é condição necessária, mas não suficiente, da existência humana, pois, ao negar e assimilar o dado natural, o animal permanece dependente dele, preenchendo-se apenas com conteúdo biológico e recaindo na Natureza, de modo que alcança somente o Sentimento-de-si e não a Consciência-de-si. 32. A Consciência-de-si exige a transcendência de si enquanto dado, o que só é possível se o Desejo se voltar para um não-ser, isto é, para outro Desejo, de modo que o homem age humanamente não para apoderar-se da coisa, mas para fazer o outro reconhecer seu direito sobre ela e sua superioridade, sendo apenas o Desejo de Reconhecimento capaz de criar um Eu humano. 33. A PhG deve admitir como terceira premissa irredutível a existência de vários Desejos que se desejam mutuamente, cada um querendo negar, assimilar e submeter o outro enquanto Desejo, a partir da qual se pode compreender em que consistirá a existência humana. 34. Se o Homem é o Desejo que busca ser reconhecido em seu direito exclusivo à satisfação, ele só se satisfaz plenamente pelo reconhecimento universal, e a pluralidade desses Desejos torna inevitável uma Luta de vida ou morte, na qual o Homem arrisca sua vida biológica por um fim não biológico, não sendo verdadeiramente humano o ser incapaz de arriscá-la numa luta por puro prestígio. {{tag>Kojève Hegel eu desejo autoconsciência}}