====== David Appelbaum ====== //APPELBAUM, David. The Vision of Kant. London: Element, 1995// **Introdução geral** **Kant e o espírito do mundo moderno** 1. O Iluminismo europeu dos séculos XVII e XVIII constituiu um movimento espiritual revolucionário e democrático que reconheceu a capacidade humana de alcançar um conhecimento superior e fundamentou a liberdade individual no poder da razão, entendida como plena vivificação da consciência e autoconhecimento necessário à realização de uma visão universal da humanidade. 2. A confiança na perfectibilidade da mente humana sustentou o ideal de uma libertação da sujeição espiritual ao passado, aos ritos e às devoções vazias mediante uma transformação interior capaz de superar a própria história, configurando uma compreensão profundamente a-histórica da natureza e da vocação humanas cuja herança permanece presente na época contemporânea. 3. O ambiente religioso alemão do final do século XVII foi marcado tanto pelo pietismo, que exigia a experiência direta da justificação e do renascimento espiritual ensinados por Cristo, quanto pelo deísmo, que atribuía ao intelecto a capacidade de demonstrar racionalmente a existência de Deus e conhecer realidades suprassensíveis, subordinando a revelação à superioridade da razão. 4. Nascido em Königsberg em 1724 e formado sob a influência do pietismo e do deísmo, Kant encontrou no ambiente familiar, economicamente modesto e moralmente rigoroso, as disposições que posteriormente ocupariam o centro de sua filosofia moral, sobretudo o amor ao dever por si mesmo e a rejeição da hipocrisia em questões mundanas e religiosas. 5. Após a formação escolar pietista e o ingresso na Universidade de Königsberg aos dezesseis anos, Kant recusou oportunidades prestigiosas no ministério religioso em razão de sua orientação racionalista, trabalhou como preceptor na Prússia Oriental e desenvolveu uma investigação científica que, na História geral da natureza e teoria do céu, de 1755, procurou tornar o pensamento newtoniano inteiramente coerente mediante a substituição de sua cosmologia deísta por uma explicação mecanicista. 6. A nomeação de Kant como professor em Königsberg, em 1770, foi precedida por uma transformação intelectual marcada pelo aprofundamento do compromisso com o conhecimento científico e pela influência de Rousseau, cuja reflexão sobre a liberdade e a precedência do homem interior fortaleceu a confiança na legalidade da experiência interna, embora essas mudanças de pensamento coexistissem com uma extraordinária regularidade dos hábitos cotidianos. 7. A dissertação inaugural de Kant antecipou o núcleo de sua filosofia posterior ao distinguir o mundo inteligível do mundo sensível e vincular a objetividade do conhecimento ao exame do processo cognitivo pelo qual o objeto se constitui, mas suas insuficiências deram origem a onze anos de reflexão sobre a participação da mente na construção da realidade. 8. A publicação da Crítica da razão pura, em 1781, inaugurou uma década de produtividade filosófica excepcional e conferiu dimensão de revolução copernicana à inversão da relação entre conhecimento e objeto anteriormente esboçada na dissertação inaugural. 9. A possibilidade de um conhecimento a priori capaz de ampliar o saber exige experimentar a hipótese de que os objetos se conformam às condições do conhecimento, invertendo a suposição tradicional de que o conhecimento deve ajustar-se aos objetos, de maneira análoga à mudança de perspectiva pela qual Copérnico explicou os movimentos celestes atribuindo movimento ao observador. 10. A investigação dos limites cognitivos da razão pura, considerada independentemente dos fatos da experiência, distingue seu emprego legítimo na matemática de seu emprego ilegítimo na metafísica, delimitando os respectivos domínios e esclarecendo as possibilidades de conhecimento em relação a essa fronteira. 11. A sequência de publicações que vai dos Prolegômenos a toda metafísica futura que possa apresentar-se como ciência, de 1783, aos ensaios históricos de 1784, à Fundamentação da metafísica dos costumes, de 1785, e à Crítica da razão prática, de 1788, evidencia que a filosofia moral constitui um complemento original e indissociável da teoria do conhecimento, pois uma mesma razão se manifesta tanto no conhecimento objetivo quanto no discernimento ético, desvelando a realidade e submetendo a consciência às exigências da ação moral. 12. A razão fundamenta a primazia da consciência individual diante do despotismo e das demais formas de opressão ao reconhecer uma liberdade originária de ação, denominada autonomia, pela qual a escolha moral aperfeiçoa e integra as potencialidades humanas, enquanto a observação objetiva e a compreensão dos mundos social e natural permitem assumir mais plenamente o lugar humano na ordem cósmica. 13. A produção tardia de Kant estendeu a investigação crítica à finalidade, ao juízo estético e à teleologia na Crítica da faculdade de julgar, de 1790, abordou a religião em A religião nos limites da simples razão, de 1793, cuja publicação provocou censura e proibição de novos escritos religiosos, e desenvolveu reflexões políticas e morais em À paz perpétua, de 1795, e na Metafísica dos costumes, de 1797, dedicada ao direito e à virtude, antes de sua morte em Königsberg, em 1804. {{tag>Kant Appelbaum}}