====== 2.2 Iniciativa e criatividade ====== //Para uma leitura filosófica do Yi King, Le Livre de Poche, 1993 (trad. em português publicada pela Editora 34)// 1. Assim as quatro palavras com que começa o texto do Clássico da mudança a propósito do primeiro hexagrama, Qian, composto dos seis traços yang, devem todas ser entendidas do ponto de vista da capacidade: denotam, formando série, os diversos aspectos da aptidão de constante iniciativa que é própria do Céu e permite a este progredir sempre, em seu curso, sem nunca desviar nem se cansar. * Resulta dessa atividade que as estações não cessam de se encadear e a existência de advir, dizendo-nos portanto essa fórmula de base o que serve para promover a realidade. * Sua originalidade, e por conseguinte seu interesse numa perspectiva comparatista, deve-se primeiro, parece-me, ao ponto de vista que ela consegue adotar em relação à existência, ao mesmo tempo transindividual e portanto impessoal e não transcendente, pois de outro modo voltaríamos ao esquema clássico da criação. * Isso lhe permite esclarecer assim por dentro, e no modo de um processo, o acesso à vida e seu desdobramento, sendo a existência enfim considerada como fenómeno. * Desde essas primeiras palavras se dissolvem também a oposição do subjetivo e do objetivo, assim como todo corte entre realidade natural e virtude moral, conduzindo-nos portanto a compreender como a capacidade de advir do real é o que define igualmente o bem humano. * O primeiro dos quatro termos, yuan, evoca, em relação com o simbolismo da cabeça, a faculdade de começar, pois tudo, no mundo, diz-nos WFZ, encontra sua origem e seu começo nessa energia incitadora e expansiva que não cessa de se desdobrar. * De fato, não há nada de grande que essa energia yang não possa atingir, nada de pequeno que não possa penetrar, e, operando de modo harmonioso e suave, ela triunfa sempre sem encontrar obstáculo, sendo por isso sua amplitude incomparável. * Na natureza, tanto as forças cósmicas quanto as menores individuações nela encontram seu capital de partida e seu fundamento, e, no que concerne ao homem, essa faculdade de começo está na origem não apenas de sua existência biológica, mas também de sua natureza moral. * Ela representa nele o capital de humanidade, no sentido do ren confuciano, que permite à nossa consciência não se recolher egoisticamente sobre si mesma, mas estar aberta aos outros e se sentir solidária do mundo inteiro, desdobrando-se e comunicando intuitivamente, de consciência a consciência, notadamente quando reage imediatamente à infelicidade de outrem, como em Mêncio. * A mesma universalidade é também exigida de parte a parte: assim como a faculdade de começo própria do Céu nunca se interrompe e comanda a todas as situações como a todos os existentes, assim também esse sentimento moral deve estar na partida de todos os nossos comportamentos e inspirar continuamente nossa conduta, sem nunca se esgotar. 2. Há algo de particularmente profundo, parece-me, nessa assimilação de nosso sentimento moral à faculdade de começar. * Ao risco primeiro de nos surpreender, essa identificação esclarece o que pode ser, no homem, a fonte da moralidade, como fonte viva que dele jorra. * Pois a moralidade não poderia proceder, aos olhos dos chineses, de um mandamento transcendente, emanado de Deus ou da Torá, nem poderia relevar, em seu princípio, das coações e exigências de função puramente utilitária que decorrem da vida em sociedade. * Longe de ser imposta ao homem, ou de remeter a uma justificação que lhe seja exterior, e de consistir em obrigações, a moralidade corresponde simplesmente à aptidão de iniciativa e de criatividade de nossa consciência, à aptidão desta a continuar a progredir em seu curso, não cessando de se espalhar e dar vida. * Que assim a consciência se valorize por sua iniciativa, ou ainda que sua virtude seja ser constantemente iniciadora, não significa que ela procure impor seu querer ao real, pois veremos que a sabedoria, ao contrário, é saber desposar o curso deste e nele se conformar. * Significa antes que, abrindo-se à virtude incitadora do real e permanecendo em vigília, ela consegue se situar sempre a montante em relação ao desenvolvimento do curso das coisas, e que, desde então, coincidindo com a emergência dos fenómenos, evolui livremente em relação a eles em vez de sofrer passivamente, a jusante, seu peso. * Sua criatividade se deve, pois, a que suas disposições interiores, e depois sob sua influência as de outrem, não cessam, como os fenómenos do mundo, de se transformar e se renovar, em vez de se fixarem. * Assim o mal não está inscrito na partida de nossa natureza, mas corresponde apenas à privação dessa faculdade de impulso, desse arranco: quando nossa consciência, em vez de se desdobrar, se fecha, se deixa arrastar pelas realidades de fora e se subordina a elas, sob a pressão dos desejos, ou se deixa condicionar pelo hábito e se esclerosar, renunciando a seu livre e generoso surto. * Em vez de animar o mundo, ela se torna inerte, não mais em expansão, e renuncia a sua criatividade. 3. O segundo termo dessa enumeração, heng, deve ser compreendido no prolongamento direto do precedente e significa o surto e o desdobramento. * Ele evoca, à imagem da energia que se espalha no interior dos alimentos e os faz cozer, o poder que possui uma tal capacidade de iniciativa de se propagar de ponta a ponta através do real e de fazer este aceder a seu pleno florescimento. * Da dimensão transindividual desse processo, de que resulta o caráter de continuum da existência, o comentário canónico dá conta a partir dos motivos das nuvens e da chuva, e no modo de um fluxo ininterrupto: as nuvens passam, a chuva se espalha, e o fluxo dos diversos existentes não cessa de se atualizar. * Essa gestação contínua de que decorre a evolução em curso, diz-nos WFZ, nada a manifesta melhor que as nuvens, e essa difusão benéfica que se espalha sobre a terra e faz prosperar todos os seres, nada a ilustra melhor que a chuva. * Passemos agora desses fenómenos físicos, que dela são a expressão sensível, ao que constitui essa capacidade em seu princípio invisível: ela é essa corrente ou esse fluxo que não cessa de atravessar as individuações e as renova segundo seu género próprio. * Graças a ela, a existência não cessa de se atualizar e se encontra constantemente promovida. 4. Os dois últimos termos dessa formulação de base corroboram-se um ao outro ao mesmo tempo que explicitam o alcance dos dois primeiros, pois essas quatro noções, diz-nos WFZ, remetem todas a uma mesma lógica. * A noção de proveito evoca a eficácia que resulta dessa capacidade de iniciativa e de surto, e conclui sobre a vantagem que dela decorre para todos os existentes, bem longe portanto de significar um benefício particular e egoísta, correspondente ao só interesse individual, pondo em valor a positividade de conjunto desse processo em que o desdobramento da energia yang se cumpre para todos e sem se economizar. * A última dessas noções, enfim, a de integridade, jogando com os dois sentidos desse termo, denota a retidão ao mesmo tempo que a constância e a solidez, pois, no mundo, diz-nos WFZ, só o que não é reto, correto, não está em medida de se conservar, e é porque o Céu nunca desvia da retidão de seu curso, e primeiro do dos astros e das estações, que ele está em medida de prossegui-lo sempre. 5. O principal esforço de demonstração que a partir daí fornece WFZ é o de provar que proveito e integridade vão a par e que essas duas noções se implicam mutuamente. * Pois o proveito que resulta do exercício dessa capacidade de iniciativa corresponde sempre ao lote próprio de cada um e, porque respeita assim o interesse comum, um tal proveito é sempre correto. * Reciprocamente, a retidão que assim se manifesta em relação a todas as situações e a todos os existentes não pode senão ser proveitosa a todos. * Virtude e felicidade, conclui WFZ, procedem portanto da mesma origem e nunca se contradizem. * O que significa de modo inequívoco, se reexprimirmos essa posição nos termos que nos são mais correntes, que o laço que une a felicidade e a virtude, de tipo sintético, diria Kant, e não analítico, pois de outro modo significaria a simples confusão das duas, se afirma plenamente desde este mundo, o único que existe aos olhos dos chineses, e não necessita de nenhuma reconciliação ulterior a esperar no além de um paraíso. * Segundo a ótica transindividual e global que é a desse processo de advir da realidade, diferente nesse sentido do ponto de vista pessoal da alma ocidental, notadamente a dos postulados kantianos, a conjunção da felicidade e da virtude não implica, pois, nenhuma ultrapassagem da experiência ou do sensível, realizando-se totalmente no interior mesmo desse processo e sponte sua. 6. Assim o comentário canónico dá conta das duas noções de proveito e de integridade de modo conjunto, por essa evocação de conjunto: vasta clareza, do fim ao início, as seis posições advêm cada uma em seu tempo, e em todo tempo cavalgar os seis dragões para dirigir o céu. * A via de Qian, a capacidade de constante iniciativa, modifica e transforma, e cada um recebe a natureza que lhe cabe em próprio e constitui sua retidão, conservando-se e unindo-se todos numa completa harmonia, e tais são o proveito e a integridade. * Antes de ser a do Sábio, como o compreendem demasiado estreitamente Legge ou Wilhelm, a vasta clareza sobre a qual se abre esse desenvolvimento é, segundo WFZ, a do Processo mesmo, o Céu. * Isso conduz a expressão a significar que esse processo de advir da realidade não se desenrola ao acaso, de modo cego, e também que esse processo não cessa de se encadear por si mesmo e que seu desenrolar é ininterrupto, contendo o fim já o início, assim como se encontra contido nele, não havendo portanto início primeiro. * As seis posições são bem as dos seis traços do hexagrama que retraçam as etapas sucessivas do desenvolvimento dos seres e das coisas. * Se cada uma das posições advém em seu tempo, essa diversidade das ocasiões não deve fazer esquecer que todas concorrem para o mesmo efeito, tais os cavalos de uma única atrelagem, a do curso dirigido dos fenómenos e da boa marcha do mundo. * Assim, embora a mudança a que está sujeito o real seja incessante, cada individuação que resulta desse grande processo de engendramento recebe dele sua norma própria, que constitui sua natureza e lhe cabe como destino. * E desde que cada uma respeite essa exigência interna a sua natureza, essas existências individuais se preservam uma à outra, esses destinos se unem e se conciliam, não podendo o resultado, nessas condições, ser senão a harmonia. * O mesmo desenvolvimento pode ser lido a propósito do Sábio, pois graças à clareza de que goza constantemente, porque sabe desposar de ponta a ponta, em seu foro interior, a lógica iniciadora e reguladora do curso das coisas, ele pode tomar igualmente parte em todos os estádios do desenvolvimento da realidade, conformar-se ao que exige cada ocasião particular e nunca desviar em sua conduta. * Proveito e integridade tomam desde então um sentido político: graças à influência que espalha seu sentimento moral em constante surto, o Sábio é benéfico aos outros sem mesmo que estes disso se deem conta, penetrando sua virtude insensivelmente e elevando-os do mesmo modo que a vida, desdobrando-se continuamente em nós, opera a nosso insciente. * Ele os conserva, portanto, mantendo-os unidos na retidão, e, como conclui a fórmula canónica que faz sequência a esse desenvolvimento, a tradução social dessa harmonia natural é a paz em todos os países. 7. Assim a moralidade não é senão o reflexo, no plano humano, do que constitui a lógica de advir da realidade. * Pois, como se viu, é a mesma capacidade de iniciativa e de desdobramento que se encontra na origem de todos os fenómenos e deve animar constantemente nossa consciência, dirigir nossa conduta. * E tal é bem a intuição que encontramos constantemente no centro da visão dos chineses, em torno da qual não cessaremos de girar e à qual voltaremos de um modo ou de outro, pois ela permanece difícil de apreender justamente por ser tão simples, dando lugar ao mínimo de construção teórica e não apresentando nenhuma consistência dogmática. * Tão simples também que faz vacilar algumas das oposições mais profundamente ancoradas em nossa cultura, as que erguem face a face o real e o bem, a natureza e a graça. * Ora, na China, compreendamo-lo, o real é também o ideal, e é por isso que, como testemunha o surto do dragão que dá a ler esse primeiro hexagrama, o real se encontra justificado em cada uma das etapas de seu desenvolvimento. {{tag>Jullien I-Ching transformação mutação Yin Yang trigramas hexagramas}}