====== 2 O « iniciador » e o « receptivo» ====== //Para uma leitura filosófica do Yi King, Le Livre de Poche, 1993 (trad. em português publicada pela Editora 34)// **O « iniciador » e o « receptivo» ou as duas capacidades em obra no seio do real** 1. Reabre-se o livro em seu início, e o que nele se encontra no ponto de partida da realidade não é uma, mas duas instâncias, pois esta não deve seu engendramento à ação pessoal, absconsa e invisível de um querer divino transcendente, mas à interação espontânea dos dois polos cuja existência simplesmente constatamos tão logo levantamos ou baixamos os olhos: os do Céu e da Terra, que servem de quadro à realidade inteira. * Não é, por conseguinte, uma mas duas capacidades que veremos por toda parte em obra, não sendo o mundo atravessado pelo raio emanado de uma fonte única, quer se a chame o Bem ou o Amor, mas constantemente promovido pela cooperação de duas aptidões ao mesmo tempo opostas e complementares. * São as que simbolizam as duas primeiras figuras do Clássico da mudança, Qian e Kun, a capacidade de iniciativa e a receptividade. 2. O desvio é flagrante entre essas duas visões do mundo, a que desenvolveu a cultura chinesa e aquela a que nos ligamos por tradição grega ou cristã. * E no entanto a antiga religião chinesa conheceu os cultos de tipo animista que encontramos alhures na aurora das civilizações, informando-nos as inscrições sobre ossos ou carapaças de sacrifícios rendidos aos rios, aos ventos, aos pontos cardeais. * Sobretudo, a representação do mundo dos chineses é cedo dominada pela ideia de um Senhor do alto cujo querer determina em última instância o curso dos acontecimentos, e cujo poder é concebido à imagem do de um rei feudal, dirigindo esse deus pessoal suas ordens ao mundo humano. * Mas assistimos, na China, desde o fim do segundo milênio antes de nossa era, e sobretudo a partir do advento da dinastia dos Zhou, ao apagamento progressivo dessa representação antropomórfica do todo-poderoso, suplantando-a a noção de Céu ao orientar a atenção para a ideia de uma marcha regular e benéfica do curso do mundo, tal como a dão a ver a alternância do dia e da noite e o ciclo das estações. * Paralelamente, as antigas divindades ctonianas chinesas se fundem numa entidade única, a Terra, que serve de parceira a essa eficiência reguladora encarnada pelo Céu. * Estabelece-se assim o princípio de uma interpretação do mundo que repousa não mais sobre a ação divina, mas sobre um funcionamento bipolar, aquele que simbolizarão o yin e o yang, e essa concepção se imporá definitivamente no seio da civilização chinesa, ao ponto mesmo de não mais ser percebida como uma concepção particular e de passar, aos olhos dos chineses, por evidência. 3. É uma tal representação que o Clássico da mudança conforma e sistematiza, devendo ele, que segundo a tradição dá sequência aos manuais de adivinhação das duas dinastias anteriores, sua originalidade precisamente ao fato de instaurar as duas figuras simbólicas do céu e da terra à cabeça de seu dispositivo. * Todo o esforço fornecido pelos autores sucessivos do Clássico é o de chegar, a partir daí, a uma visão coerente da realidade, fundada na reciprocidade e na imanência. * Assim, o interesse do Clássico da mudança não será apenas o de nos permitir medir esse desvio típico, e mesmo maximal, cavado entre duas visões culturais que se desenvolveram independentemente uma da outra e nos propõem duas escolhas tão diferentes na interpretação do real. * Mais importante ainda é ver como essa outra visão do mundo, através do trabalho do livro e de seus comentários, e notadamente daquele que escolhemos seguir, conseguiu se justificar e se constituiu em lógica. * Pois, desde então, o que está em jogo na diferença ultrapassa de muito a curiosidade do antropólogo, vendo-nos remetidos não apenas nossa visão das coisas, mas também a racionalidade que a funda, e tomando esse desvisagement, tornando-se recíproco, uma significação filosófica. {{tag>Jullien I-Ching transformação mutação Yin Yang}}