====== 5 Humanismo e Heidegger ====== //GRASSI, Ernesto. Vico and Humanism: Essays on Vico, Heidegger, and Rhetoric. Nova Iorque: Peter Lang, 1990.// **5. O humanismo italiano e a tese de Heidegger sobre o fim da filosofia** **I. O fim da metafísica** 1. O humanismo italiano, entendido como o movimento filosófico que se estende da segunda metade do século XIV ao último terço do século XV, sofre uma ruptura com a retomada do platonismo por Ficino, reaparece em pensadores como Nizólio, Vives e Gracián e alcança em Vico sua expressão mais desenvolvida, cuja relevância filosófica pode ser examinada no presente. 2. Na formulação que encontra sua expressão mais acabada no Tractatus de Wittgenstein, a filosofia chega ao fim como metafísica porque a demonstração científica opera apenas entre os termos de um sistema e, por isso, jamais pode estabelecer os próprios pressupostos, dos quais dependem todas as suas afirmações e refutações. 3. A lógica simbólica procura dispensar a metafísica mediante a construção de sistemas puramente formais, nos quais o valor de verdade das proposições compostas depende do valor de verdade de suas proposições elementares, independentemente do significado destas. 4. A filosofia analítica anglo-saxônica desenvolve essa orientação ao estudar as relações de derivação entre os elementos de uma teoria sem determinar a natureza das coisas ou das relações investigadas, procedimento que também serve de fundamento à semiótica formal, ao estruturalismo e a correntes da teoria literária. 5. A rejeição da metafísica leva a reconhecer no discurso racional a única linguagem válida para a ciência e se estende à recusa do humanismo, presente também em pensadores franceses como Foucault. **II. A dupla tese de Heidegger: o fim da filosofia e a primazia da linguagem poética** 1. O fim da filosofia designa, para Heidegger, a consumação de uma época do pensamento, na qual a história da filosofia ocidental se reúne em sua possibilidade-limite. 2. A tradição filosófica inaugurada por Platão toma o existente como dado e aborda o ser pela inferência racional e pela verdade lógica, deixando de interrogar a clareira (Lichtung), abertura prévia em que tanto a presença quanto a ausência podem manifestar-se e que a própria luz já pressupõe. 3. A luz natural da razão (lumen naturale) só pode esclarecer o que já se encontra na abertura originária, pois é nessa clareira que se distinguem luz e escuridão e que podem aparecer as coisas, os seres humanos, os deuses e as artes em sua historicidade. 4. A questão presocrática do desocultamento (Unverborgenheit), retomada a partir de Heráclito e Parmênides, investiga como e onde o ser do que existe chega a manifestar-se, interrogando a abertura em que o Dasein (ser-aí) se torna possível. 5. A palavra poética e metafórica possui a primazia porque abre o caminho em que as coisas podem aparecer, fazendo da linguagem a morada do ser e o lugar em que o Dasein (ser-aí) humano reside. 6. Na leitura de A palavra, de Stefan George, a palavra poética constitui a própria relação que sustenta cada coisa em seu ser, de modo que, sem ela, tanto o mundo quanto o eu permaneceriam na obscuridade. 7. A tese de que o poeta funda o tempo e o lugar do Dasein (ser-aí) nasce da leitura heideggeriana dos presocráticos, de Sófocles, de Hölderlin e de Trakl, mas permanece em aberto a questão de seu fundamento além dessas interpretações, como indica a reserva de Marcuse diante da tese sobre a função da linguagem poética. **III. O modelo tradicional do pensamento científico** 1. A tradição humanista se opõe ao modelo metafísico que, desde Aristóteles, toma como objeto do conhecimento o ser enquanto ser, eterno e imóvel, e procura deduzir racionalmente a realidade a partir de um princípio originário. 2. Nesse modelo, a linguagem lógica é a única admitida como científica porque fixa a essência dos fenômenos em conceitos e definições que abstraem suas variações no tempo e no espaço, relegando a poesia à literatura e a retórica à arte da persuasão. 3. Do cogito cartesiano às formas a priori de Kant e à dedução dialética de Hegel, o modelo racional e dedutivo prolonga-se até a filosofia analítica contemporânea, tendo no idealismo alemão sua culminação metafísica e na exclusão da linguagem figurada um traço persistente. **IV. Um problema fundamental do humanismo italiano** 1. A interpretação do humanismo como redescoberta do ser humano e de seus valores imanentes, difundida nos estudos de Voigt e Burckhardt a Cassirer e Gentile, ajuda a explicar por que Heidegger o combateu como forma de antropomorfismo ingênuo. 2. Uma questão central do humanismo italiano é a abertura originária em que o ser humano e seu mundo aparecem, investigada por meio da interpretação da linguagem, sobretudo da linguagem poética. 3. A relação entre palavras e coisas (verba e res) é decisiva porque o sentido das coisas se revela historicamente na palavra e nela se abre, a cada vez, um mundo distinto, problema que escapa às leituras que procuram no Renascimento apenas as questões teóricas da metafísica platônica ou aristotélica. **V. O poeta como fundador da comunidade** 1. Com Dante, a relação entre a palavra poética e a constituição histórica da realidade recebe sua primeira formulação na tradição humanista. 2. A tese humanista de que o poeta funda a comunidade e abre o caminho da historicidade emerge nos escritos de Dante sobre a linguagem, De vulgari eloquentia e Convívio, enquanto De monarchia permanece no quadro dedutivo da metafísica tradicional. 3. Diante do caráter artificial e invariável do latim erudito, Dante investiga os dialetos italianos em busca de uma língua histórica comum, comparando essa procura à caça de uma pantera escondida na floresta dos falares locais. 4. A palavra figurada adquire força política quando faz emergir o bem latente na língua do povo e abre, pela poesia, o lugar de uma comunidade capaz de inaugurar uma nova época. 5. A linguagem poética abre o espaço em que podem aparecer instituições, autoridades e possibilidades futuras de uma comunidade, como mostra a imagem dantesca de uma corte italiana cujos membros dispersos se unem pela luz da razão. 6. A experiência da palavra poética constitui, para Dante, a origem da historicidade humana. **VI. A filologia como estudo da palavra histórica** 1. A tradução latina de textos gregos aprofunda a questão humanista da relação entre palavras e coisas, pois o sentido de cada termo se modifica conforme o contexto e a formação de si consiste em acompanhar essa transformação durante a interpretação. 2. A prática filológica de Leonardo Bruni recusa uma interpretação apriorística e a-histórica da linguagem, pois cada palavra transmite conteúdos variáveis conforme sua posição no conjunto singular do texto, à maneira de uma peça em um mosaico. 3. A filologia torna-se um exercício dialético em sentido aristotélico ao partir da situação concreta de quem fala e das circunstâncias que envolvem cada palavra para determinar seu significado. 4. O engenho (ingenium) é a capacidade de mobilizar a flexibilidade, a agudeza e a prontidão das palavras para fazer aparecer as coisas em seu sentido, tarefa que excede o alcance da inferência racional. 5. A hipótese escolástica de um discurso interior a priori (sermo internus) impede que se compreenda como a linguagem revela a riqueza variável das coisas singulares e, com ela, as possibilidades históricas do ser humano que a filologia investiga. 6. A primazia das letras sobre a ciência das coisas em Guarino Veronese encontra expressão afim nas escolhas de Angelo Poliziano pela gramática e de Lorenzo Valla pela retórica, ambas marcadas pelo afastamento da filosofia escolástica. 7. A tese de que a palavra poética revela a historicidade do real suscita o problema desenvolvido na Genealogia dos deuses de Boccaccio, pois a metáfora parece simultaneamente revelar a coisa e recobri-la com um véu. **VII. A questão do véu da palavra poética** 1. Em Boccaccio, a questão do véu poético nasce da tentativa de preservar o sentido da mitologia romana diante da fé cristã, tornando possível interpretar os deuses antigos sem relegá-los ao passado como simples erros humanos. 2. A pergunta sobre como um imperador romano podia aceitar honras divinas está na origem da Genealogia dos deuses e leva Boccaccio a recorrer a uma teoria da poesia de matriz medieval. 3. A fábula é um discurso exemplar que reveste a realidade com uma ficção, de modo que o afastamento desse véu permite reconhecer tanto a intenção de quem a compôs quanto o sentido daquilo que ela faz aparecer. 4. A demonstração própria da fábula consiste em tornar visível um sentido que reúne uma pluralidade e abre imediatamente o espaço e o tempo em que coisas, pessoas e instituições aparecem, conferindo à narrativa uma função originária de orientação do mundo. 5. A composição de fábulas é um dom raro, pois a palavra poética irrompe como força originária que impele o poeta a falar e, por sua capacidade inventiva, torna algo patente ao olhar. 6. A teoria poética criada para recuperar o sentido dos deuses latinos encontra um limite na fé cristã de Boccaccio, que passa a vincular a poesia à revelação de uma realidade divina situada fora da história. 7. A imagem da chama divina vista por Moisés, as figuras animais de Cristo e as alegorias dos Evangelhos mostram que a própria teologia judaico-cristã se exprime poeticamente. 8. O caráter sagrado da poesia independe do lugar em que ela surgiu, pois a faculdade poética pertence aos piedosos e tem sua origem na esfera divina. **VIII. O «desocultamento» nos deuses e nos seres humanos** 1. Coluccio Salutati desenvolve a tese de que a palavra poética faz surgir o mundo histórico com seus deuses, instituições e ritos, tomando Hércules como figura da condição humana que se afirma diante das forças da natureza por meio da ação e das técnicas. 2. Contra os filósofos que depreciam a poesia, Salutati atribui à escolha das palavras, ao som e ao ritmo a força de suscitar o reconhecimento das primeiras formas da ordem jurídica, em que se manifesta a sabedoria que funda a vida coletiva. 3. A poesia afasta os seres humanos do testemunho imediato dos sentidos e os leva a admitir possibilidades que podem contrariar o que veem com os próprios olhos. 4. A aparente ilusão poética retira o ser humano de sua condição selvagem (ferinitas) ao conferir feições míticas à terra e ao céu, fundando assim o espaço e o tempo de um mundo humano e histórico. 5. A suspeita de que a fantasia poética engana encontra resposta em seus efeitos concretos, entre os quais se destaca a própria constituição da sociedade humana em sua historicidade. 6. A verdade oculta sob a superfície da poesia consiste na autorrevelação do mundo humano, pois os poetas videntes (vates) dão testemunho de Deus, do mundo e dos seres animados ao nomeá-los com seu engenho. 7. Na diversidade de nomes e figuras divinas que a palavra poética faz aparecer, revela-se, para Salutati, um Deus único e invisível, nomeado de maneiras diferentes conforme suas funções e as circunstâncias de tempo e lugar. **IX. A clareira da floresta primordial** 1. A importância atual do humanismo pode ser examinada em relação à tese heideggeriana do fim da filosofia, pois ambos os percursos suscitam a questão das condições originárias em que um mundo histórico se manifesta. 2. O fim da metafísica tradicional desloca a investigação do fundamento racional do existente para a clareira em que ele se desoculta, abrindo ao pensamento a tarefa de compreender a primazia da palavra poética. 3. A ruptura de Giambattista Vico com a metafísica racional retoma os problemas da tradição humanista e lhes dá sua expressão filosófica mais desenvolvida. 4. Na Ciência nova, a clareira aberta pelo fogo nas florestas primordiais (luci) figura o desocultamento originário em que o ser humano, movido pelo temor diante da natureza, inaugura pela fantasia e pelo engenho um mundo histórico de cultivo, povoamento e instituições. 5. Os mitos de Hércules, Cadmo e Dafne exprimem a passagem da natureza selvagem a um mundo humano e social, figurando a abertura da história pela conquista das florestas, pela transformação do meio e pela constituição das linhagens familiares. 6. A palavra fantástica inaugura o mundo histórico ao dar sentido à potência terrível do ser que irrompe no existente, como mostram os primeiros povos gentios, que exprimiam por caracteres poéticos sentimentos tomados por grandes paixões. 7. A investigação filosófica e filológica das origens deve partir da sabedoria poética, primeira verdade dos povos gentios, para compreender a experiência antiga em seus próprios termos. **X. A teoria de Heidegger sobre a brutalidade do ser** 1. Na interpretação heideggeriana do coro da Antígona, a poesia permite compreender o ser humano como a mais inquietante das criaturas, exposta à força do inóspito que a arranca do lar, do familiar e do seguro. 2. A condição humana de habitar e ser continuamente desalojada torna-se acessível ao pensamento poético, no qual a irrupção do poder terrível abre o lugar em que podem surgir deuses, templos, festas, poetas e instituições políticas. 3. Ao perturbar a ordem da terra e submeter as coisas ao seu trabalho, o ser humano exerce uma violência que, no dizer poético, no pensamento, na edificação e na fundação de Estados, ordena as forças pelas quais os entes se abrem à existência histórica. 4. Ao agir e criar no domínio do ainda não dito, o ser humano se expõe ao perigo de confrontar uma potência que o excede e cuja manifestação histórica exige lugares abertos em que ela possa exercer-se. 5. A obra de arte torna os entes acessíveis e interpretáveis, enquanto o ser humano revela quem é ao confrontá-los, conduzi-los a um limite e a uma forma e projetar poeticamente possibilidades ainda ausentes. **XI. Conclusão** 1. A primazia do desocultamento na tradição humanista impede que se identifique todo o pensamento ocidental com a metafísica racional e dedutiva, pois o humanismo já investigava a abertura em que aparece o Dasein (ser-aí) histórico. 2. O reconhecimento dessa investigação exige rever tanto a compreensão do início do pensamento moderno quanto o juízo sobre o humanismo que levou Heidegger a interpretá-lo como descoberta do ser humano e de suas faculdades antropológicas. 3. A compreensão do real exige categorias nascidas de situações históricas concretas e uma linguagem capaz de abrir a clareira em que aparecem épocas, costumes e instituições, deslocando a investigação da verdade como correspondência (adaequatio) para o aparecer (phainestai) e da inferência racional para o engenho estudado por Vives, Gracián, Tesauro, Pellegrini e Vico. 4. O paralelo entre Heidegger e a tradição humanista permite reconhecer a atualidade filosófica de seus problemas sem apagar a diferença histórica entre os dois percursos, cuja compreensão ficou comprometida pelas leituras exclusivamente teóricas, literárias ou eruditas. {{tag>Grassi Vico Heidegger retórica humanismo}}