====== Efeitos maravilhosos da música ====== //GODWIN, Joscelyn (ORG.). The harmony of the spheres: a sourcebook of the Pythagorean tradition in music. Rochester, Vt: Inner Traditions Internat, 1993.// * O mito de Anfíon apresenta-se como figura paradigmática do poder da música sobre a matéria, ao narrar a construção das muralhas de Tebas não pelo esforço físico, mas pela ação direta do som. * A oposição entre Anfíon e Zeto não é apenas narrativa, mas conceitual, pois contrapõe dois modos de relação com a natureza. * Zeto representa a submissão às leis evidentes da causalidade material, enquanto Anfíon encarna o conhecimento de princípios superiores que suspendem ou transcendem essas leis. * A música aparece, desde o início, não como ornamento estético, mas como força ordenadora. * A recorrência do mito de Anfíon na tradição, ao lado de Orfeu e Árion, indica a persistência de uma intuição fundamental acerca do som. * Esses mitos foram inicialmente transmitidos sem interpretação, como relatos evidentes de um poder real. * Posteriormente, tentativas racionalizantes buscaram reduzir seu alcance a explicações psicológicas, simbólicas ou folclóricas. * A insistência milenar desses relatos sugere a presença de um núcleo de verdade que resiste à redução a mera ficção. * A interpretação racionalista do mito procura reenquadrá-lo como memória técnica arcaica. * Anfíon poderia representar um engenheiro pré-histórico dotado de conhecimentos matemáticos avançados. * A música seria, nesse caso, ritmo de trabalho, canto coletivo ou coordenação técnica. * Essa leitura preserva a inteligibilidade histórica, mas esvazia o alcance metafísico do mito. * A interpretação sobrenaturalista, por sua vez, aceita o mito como testemunho literal de técnicas hoje perdidas. * Relatos árabes medievais descrevem a movimentação de blocos por meio de caracteres escritos e golpes sonoros. * Tradições teosóficas modernas afirmam a neutralização da gravidade por som e canto ritual. * Esses testemunhos convergem na ideia de que o som atuaria diretamente sobre a estrutura da matéria. * O relato de Henry Kjellson fornece um exemplo moderno que desafia a explicação mecanicista. * A levitação de pedras por meio de canto, tambores e trombetas é descrita com precisão empírica. * A energia sonora empregada parece desproporcional ao efeito obtido. * A ausência de explicação satisfatória reforça a hipótese de leis desconhecidas. * A comparação com analogias físicas modernas revela a insuficiência do modelo mecânico. * Fenômenos como ressonância, vibração simpática ou acúmulo de energia não explicam a desproporção energética observada. * Nos exemplos modernos, o efeito resulta de acumulação progressiva. * Nos mitos e relatos arcaicos, a ação é imediata e qualitativamente distinta. * O mito de Anfíon aponta para uma concepção não mecanicista da natureza. * A matéria não é absolutamente autônoma nem regida apenas por leis locais. * Ela permanece subordinada a princípios transcendentais mais elevados. * O conhecimento desses princípios permite contornar as resistências da natureza material. * A distinção simbólica entre Anfíon e Zeto adquire significado filosófico. * Zeto representa o homem que aceita o mundo tal como se apresenta à percepção comum. * Anfíon representa aquele que compreende o caráter ilusório da autonomia da matéria. * A música funciona como linguagem desses princípios superiores. * A referência à física moderna reforça essa leitura. * A matéria é concebida como estado de energia ou mesmo de consciência. * Intervenções em níveis imateriais produzem efeitos macroscópicos. * A analogia com a energia nuclear sugere que forças outrora dominadas podem hoje manifestar-se de modo destrutivo. * A hipótese de uma alquimia do som oferece uma mediação conceitual. * Assim como a alquimia reduz a matéria à sua prima materia, o som atuaria sobre níveis pré-formais do ser. * Essa redução permitiria a reorganização da matéria segundo uma ordem superior. * A música seria, assim, operador de transmutação. * A filosofia Sāṁkhya fornece uma elaboração metafísica rigorosa dessa intuição. * O som não é apenas um sentido, mas a origem de todos os sentidos. * Ele corresponde ao éter, elemento primordial do qual os demais se condensam. * A matéria sólida só existe enquanto estágio extremo de densificação desse princípio. * Na hierarquia do ser descrita pela Sāṁkhya, o som ocupa posição fundacional. * Antes da percepção sensível, emerge o princípio de individuação. * Deste procedem as essências sutis, começando pelo som. * Os elementos grosseiros são derivações sucessivas dessas essências. * A distinção entre som comum e som primordial é decisiva. * O som comum é vibração do ar. * O som primordial é princípio formativo direto da realidade. * Ele é acessível não aos sentidos ordinários, mas à mente receptiva. * A constatação de que toda matéria vibra reforça essa visão. * A percepção auditiva humana capta apenas uma faixa mínima do espectro vibratório. * A maior parte das vibrações permanece inaudível. * O mundo sonoro é incomparavelmente mais vasto do que o ouvido humano sugere. * Pesquisas contemporâneas sobre monumentos megalíticos oferecem indícios empíricos. * Pedras em círculos antigos emitem vibrações ultrassônicas regulares. * Essas vibrações variam conforme ciclos naturais. * A disposição geométrica das pedras parece amplificar energias ambientais. * A aplicação moderna de ultrassom na medicina sugere uma continuidade funcional. * Vibrações sonoras são capazes de dissolver ou isolar estruturas materiais. * O que hoje é tecnologia pode ter sido outrora conhecimento integrado à cultura. * A diferença reside menos no princípio do que no contexto espiritual. * A reflexão de Novalis sintetiza poeticamente essa visão. * A natureza antiga seria mais sensível e menos rigidificada. * O som teria poder direto sobre plantas, animais, homens e pedras. * O poeta-sacerdote reuniria funções científicas, éticas e religiosas. * A hipótese final rejeita a absolutização do estado atual do mundo físico. * A materialidade pode assumir diferentes graus de densidade. * Quanto mais sutil, mais permeável às forças formativas do som. * A música surge, assim, como chave de acesso a uma ordem mais profunda da realidade. * A pesquisa de Hans Jenny fornece uma confirmação experimental dessa intuição. * O som organiza matéria em formas geométricas ordenadas. * Essas formas reproduzem padrões naturais universais. * A cimática revela o som como princípio criador formal. * O conjunto do argumento conduz a uma reavaliação radical do mito. * Anfíon não simboliza fantasia poética. * Ele expressa uma metafísica da forma e do som. * A música aparece como linguagem estrutural do cosmos. {{tag>Godwin música}}