====== 0 Introdução ====== //GABRIEL, Markus. Die Erkenntnis der Welt - eine Einführung in die Erkenntnistheorie. Originalausgabe ed. Freiburg: Verlag Karl Alber, 2012.// 1. Enquanto disciplinas como a física, a zoologia e a sociologia parecem possuir campos de investigação relativamente delimitados, as áreas da filosofia também se apresentam inicialmente como estudos de objetos determinados, como a natureza, a ciência, a mente, o bem e o conhecimento. 2. A filosofia distingue-se pela ausência de um entendimento previamente estabilizado de seus objetos, pois pensadores que aparentemente investigam o conhecimento ou a natureza podem atribuir sentidos profundamente diferentes a esses termos. 3. A introdução a uma disciplina filosófica exige esclarecer seus conceitos fundamentais, já que investigar o conhecimento implica perguntar simultaneamente o que ele é, o que a palavra significa e se existe algo a que ela se refere. 4. A apresentação dos problemas epistemológicos deve realizar-se pelo próprio exercício do pensamento filosófico, pois não há uma exposição neutra e definitiva que reduza a filosofia a uma classificação de posições e argumentos comparável a um manual de física ou matemática. 5. A epistemologia é uma atividade reflexiva porque procura conhecer o próprio conhecimento, investigando os conceitos e processos envolvidos quando se conhece um objeto ou se pretende saber algo a seu respeito. 6. A investigação das condições do conhecimento pressupõe que elas possam ser satisfeitas ou não, pois condições necessariamente cumpridas em todos os casos pouco contribuiriam para explicar o que torna possível conhecer. 7. A reflexão epistemológica toma o conhecimento e suas condições como objetos e esclarece a objetividade pela contingência intencional, isto é, pela possibilidade de dirigir o pensamento a diferentes objetos e reconhecer que aquilo a que ele se refere não depende dessa referência. 8. A epistemologia deve reconhecer-se como produto da reflexão para evitar a impressão de que examina imediatamente objetos já definidos, sem perguntar pelas regras que permitem considerar sua investigação bem-sucedida ou malsucedida. 9. Embora a filosofia continue marcada por desacordos acerca de seus métodos, a ampliação dos meios de comunicação e dos espaços internacionais de debate favoreceu seu desenvolvimento e obrigou os filósofos a esclarecer e defender suas ideias diante de novas objeções. 10. A atividade filosófica, voltada essencialmente à verdade, à liberdade e às questões fundamentais da existência, não deve deixar-se encobrir pelas modas e pelos dogmas da vida acadêmica, pois, assim como alguém que desperta numa festa sem saber onde está, precisa perguntar pelo sentido e pela realidade do conjunto que as ciências particulares investigam. 11. A introdução à epistemologia exige constituir filosoficamente seu próprio campo de investigação, sem pressupor definições consensuais para as posições e os conceitos herdados, pois a pergunta pelo conhecimento não se deixa resolver por um catálogo de informações ou por um procedimento análogo ao de um manual matemático. 12. Uma introdução à epistemologia representa apenas uma entre várias abordagens possíveis e distingue-se por elaborar filosoficamente seu domínio de investigação, em vez de apresentar como indiscutíveis conhecimentos supostamente estabelecidos. 13. A existência de qualquer coisa exige um domínio em que ela ocorra, como florestas, sonhos, narrativas ou cenários imaginários, enquanto o mundo é tradicionalmente concebido como o domínio abrangente ao qual pertenceria tudo o que existe. 14. Se o conhecimento pertence ao mundo, conhecer objetos mundanos é também reconhecer um acontecimento que ocorre no próprio mundo, em oposição ao mito de uma inteligência que contemplaria a realidade de fora e à concepção segundo a qual recebemos apenas estímulos posteriormente transformados em um ambiente aparente. 15. Tanto a separação cartesiana entre mente e corpo quanto a redução atribuída a Quine, segundo a qual os corpos e seus órgãos se resolveriam em partículas físicas, produzem dificuldades ao afastar a mente ou o corpo da realidade concreta em que se desenvolve o conhecimento. 16. A reflexão filosófica deve conservar uma atitude crítica diante de soluções extremas sobre a mente e o corpo, examinando como surgem concepções que transformam a mente em um fantasma na máquina ou a reduzem a uma máquina material. 17. O conhecimento do mundo precisa ser compreendido como um acontecimento situado nele, pois conhecer nunca significa apreender o mundo em sua totalidade, mas sempre determinados objetos pertencentes a algum de seus domínios. 18. A epistemologia vincula-se à metafísica e à ontologia porque o conhecimento ocorre no mundo, embora o mundo como totalidade não exista como um objeto entre outros, não sendo possível aplicar-lhe o conceito de existência do mesmo modo que aos entes que nele ocorrem. 19. O ceticismo põe em questão pretensões de conhecimento e certezas aparentemente evidentes, tornando necessário explicar como se distingue o êxito do fracasso cognitivo e como se poderia verificar, sem regressão, que as próprias condições dessa verificação foram satisfeitas. 20. A dúvida sobre a possibilidade de que toda a experiência seja sonho ou ilusão é reforçada por perspectivas religiosas e científicas que admitem uma realidade muito diferente daquela que imediatamente nos aparece. 21. O confronto com o ceticismo não exige sua simples refutação, pois a possibilidade do engano estimula a reflexão, a vigilância contra falsas pretensões de saber e o autoconhecimento, conduzindo à compreensão de que o conhecimento do mundo se situa no próprio mundo. 22. A elaboração filosófica depende do diálogo, do apoio institucional e da interação com outras pessoas, o que evidencia sua inserção e sua responsabilidade sociais. 23. O apoio de instituições, colaboradores e interlocutores contribuiu para o desenvolvimento da investigação, especialmente para a compreensão dos limites do conhecimento como problema ontológico relacionado à sua inserção numa totalidade mundial constitutivamente incompleta. 24. A investigação introdutória prolonga o projeto iniciado em **Nos limites da epistemologia**, cujo desenvolvimento posterior foi favorecido pelo apoio editorial e pela oportunidade de aprofundar as questões anteriormente formuladas. {{tag>MGabriel conhecimento mundo}}