====== 2.1.1 Interrogar por ordem ====== **Interrogar-se sobre a existência** O ser se diz de muitos modos. **A. Interrogar-se segundo a ordem** 1. Ao confiar a Mersenne o manuscrito recém-concluído de sua metafísica, Descartes ainda hesitava quanto ao título e considerava chamá-lo Meditações sobre a filosofia primeira pela amplitude dos primeiros conhecimentos que pretendia investigar. 2. A filosofia primeira abrange, além de Deus e da alma, tudo o que se pode conhecer primeiro quando se filosofa segundo a ordem. 3. Ao buscar a proteção de um membro da Sorbonne, Descartes apresenta o caminho das Meditações como o único capaz de esclarecer a natureza da alma humana e demonstrar a existência de Deus. 4. A defesa da causa de Deus constitui um compromisso assumido nas Meditações. 5. A filosofia escolástica pode ser refutada pela derrubada dos fundamentos comuns às suas diferentes correntes, pois, uma vez abalados esses fundamentos, as controvérsias particulares perdem a razão de ser. 6. A resistência de Voetius à filosofia cartesiana se exacerba com o fato de um professor de medicina em Utrecht ensiná-la publicamente e levar seus discípulos a ridicularizar a filosofia antiga. 7. Ao finalmente enviar a obra a Mersenne, Descartes lhe confia a escolha do título e reitera sua preferência por Meditações sobre a filosofia primeira. 8. A denominação antiga de filosofia primeira e a forma meditativa convêm à investigação da existência, pois a sabedoria vivifica o saber e favorece suas aplicações, embora a fenomenologia exija um percurso radicalmente distinto daquele que a tradição cartesiana legou e que parte da filosofia contemporânea retoma. 9. A importância decisiva da ordem para o método cartesiano suscita a questão de qual ordem a investigação filosófica exige. 10. A filosofia cartesiana pretende inaugurar uma exposição ordenada do conjunto da filosofia a partir dos princípios que orientam sua investigação. 11. O desmentido dirigido a Regius mostra o rigor da ordem cartesiana, pois modificar a sequência da exposição e negar verdades metafísicas compromete os fundamentos em que deve apoiar-se toda a física. 12. A ordem exige que as primeiras coisas sejam conhecidas independentemente das seguintes e que cada proposição posterior possa ser demonstrada apenas pelas que a precedem. 13. A divergência começa com a distinção cartesiana entre a ordem das razões e a ordem das matérias, pela qual o encadeamento das demonstrações passa a orientar a exposição. 14. O método dedutivo avança das razões mais simples às mais difíceis e alterna entre matérias conforme a disponibilidade das premissas necessárias para demonstrar cada proposição. 15. A busca cartesiana de ideias claras e distintas disciplina a investigação, mas, ao separar o encadeamento das razões das conexões entre as coisas, transfere para outra série de razões o problema da correspondência com o real e assume a forma de um idealismo matematizante. 16. A evidência interior do sujeito como pensamento torna a inteligência a primeira certeza e o fundamento das verdades posteriores, de modo que a passagem do conhecer ao ser segue uma lógica análoga à das demonstrações geométricas. 17. A aplicação do mesmo procedimento dedutivo a todos os domínios da consciência apaga as diferenças entre os níveis da realidade e reduz a existência a um valor numérico, em consonância com a identificação da substância do mundo físico com a extensão. 18. A subordinação das matérias à dedução matemática culmina na distinção entre o pensamento como princípio do conhecimento e Deus como princípio do ser do próprio pensamento, cuja ciência encontra na veracidade divina sua garantia última. 19. Ao culminar em um realismo das essências garantido por Deus, a ordem cartesiana das razões acentua o dualismo inicial entre a ordem do conhecimento e a ordem do ser. 20. A confiança em juízos alheios sobre questões difíceis só pode ser racional quando a própria percepção permite reconhecer tanto a ignorância de quem os segue quanto a possível competência de quem os formula. 21. A ignorância reconhecida no limiar da metafísica exige que a investigação comece pela realidade de quem duvida e respeite, também na ordem das matérias, a independência do que se conhece primeiro em relação ao que se descobre depois. 22. A prioridade conferida à teoria do conhecimento desde Kant instaura um dualismo ao tratar o pensamento como instrumento de classificação e uso das coisas, separando-o do ser humano de que é uma expressão. 23. A fenomenologia começa pela dúvida efetiva e pela interrogação em que ela se exprime, seguindo a ordem em que as coisas se apresentam ao espírito antes de estabelecer certezas acerca da alma ou de Deus. 24. A investigação fenomenológica começa aproximadamente onde termina a cartesiana, pois o exame das coisas materiais ocupa a última meditação, quando o espírito já foi estabelecido como princípio do conhecimento e Deus como princípio do ser e garantia da veracidade das percepções. 25. Como as primeiras coisas conhecidas condicionam todo o percurso posterior, cabe à própria filosofia examiná-las desde o início e estabelecer uma ordem que acompanhe tanto as vias do pensamento quanto as do ser. 26. A dúvida cartesiana sobre as coisas materiais conduz primeiro à certeza do cogito e à identificação do ser humano com o espírito, de modo que a certeza relativa ao mundo físico passa a depender da garantia divina estabelecida em seguida. 27. A dúvida despertada pelos erros dos sentidos deixa em suspenso a relação com o ser e, por si só, é insuficiente para identificar a natureza humana com o espírito ou instituí-la como princípio do conhecimento. 28. Investigar a dúvida em sua própria existência permite reconhecer que duvidar de qualquer coisa é mantê-la em suspenso em relação ao ser, antes de afirmar ou negar que ela exista. 29. A dúvida incide sobre as aparências e suas manifestações, submetendo-as à exigência de uma razão pela qual possam ser julgadas ilusórias ou reconhecidas como existentes em certa medida. 30. A coincidência entre a ordem das razões e a ordem das matérias decorre de que o próprio ser sustenta a dúvida sobre os fenômenos e oferece o critério pelo qual o juízo pode ser formulado ou reaberto. 31. A capacidade de interrogar-se sobre as próprias condições de possibilidade e os limites da própria eficácia distingue a vocação humana e pertence à esfera do mistério que Gabriel Marcel denomina metatécnica. 32. No limiar da metafísica, o exame das condições que tornam possível a dúvida real permite acompanhar o movimento da ignorância interrogativa e delimitar o alcance da inteligência sem fabricar uma dúvida metódica. 33. A existência suscita por si mesma as perguntas que até a dúvida imaginária toma de empréstimo à dúvida efetiva. 34. As incertezas suscitadas pelo aparecimento do mundo percebido devem ser acolhidas como se apresentam e examinadas em relação à existência, da qual depende o reconhecimento de sua razão de ser. 35. A busca de conhecimento já se dá no interior da coexistência, onde as aparências constituem simultaneamente o obstáculo, o objeto e a mediação pelos quais se procura superar a ignorância acerca do mundo fenomênico. 36. A filosofia primeira compartilha com as ciências o ponto de partida na dúvida e na interrogação, embora se costume exigir do filósofo que comece de posse de certos conhecimentos. 37. A investigação filosófica exige uma abstração que isole o que está em questão, pois a reunião dos resultados mais recentes das ciências conserva a natureza dos elementos reunidos e deixa por determinar o objeto próprio da filosofia. 38. A unidade que a vida confere à curiosidade humana abrange as questões da existência e permite à filosofia partir do mesmo impulso interrogativo que funda as ciências, cujas disciplinas respondem em seus respectivos domínios. 39. O fato inicial de que o ser humano duvida, investiga e procura verificar o que se manifesta pode ser descrito antes de qualquer definição de sua natureza, pois a própria ignorância reconhecida já revela sua dependência em relação ao ser. 40. A filosofia nasce das perguntas da vida cotidiana e da ciência e se constitui como interrogação de segundo grau ao tomar por objeto o próprio fato de perguntar, independentemente de suas circunstâncias e de seus objetos particulares. 41. A investigação filosófica é ao mesmo tempo positiva e especulativa, pois parte da realidade constatável das perguntas e examina as condições que lhes dão sentido. 42. Enquanto as investigações particulares procuram respostas determinadas, a filosofia examina em que medida e por que razão os fenômenos e as determinações pressupostas nas perguntas, como o lugar, o tempo e a modalidade, se vinculam efetivamente ao ser. 43. A matéria da investigação filosófica é constituída pelas formas gerais da interrogação humana, e seu aspecto formal consiste em perguntar pelas condições de existência e de inteligibilidade da dúvida que cada uma delas exprime. 44. As perguntas se agrupam espontaneamente em nove tipos gerais relativos aos fenômenos e em um décimo que indaga o que cada coisa é, podendo outras categorias ser examinadas conforme o vínculo que suas aparências estabeleçam com o ser real. 45. A investigação tem por matéria a existência daquilo que aparece e por fio condutor as condições de existência pelas quais cada fenômeno, em sua maneira própria de manifestar-se, suscita uma pergunta. 46. O ponto de partida da metafísica coincide com seu objeto, pois o ser em relação ao qual a dúvida se constitui é o mesmo em função do qual ela se dissolve à medida que a investigação chega a uma resposta. 47. A presença do objeto na interrogação inicial é condição para que o raciocínio efetivamente o alcance, de modo que a demonstração de Deus, da alma ou da existência das coisas materiais se torna um objetivo ilusório quando esses objetos são fixados de antemão e à margem do ponto de partida. 48. A dúvida universal e efetiva põe em questão tudo o que se apresenta como existente, submetendo as manifestações do mundo a uma investigação conduzida conjuntamente pela ordem das matérias e pela ordem das razões. 49. A coincidência entre ponto de partida e objeto assegura a unidade do percurso metafísico, pois o próprio ser orienta a investigação desde a dúvida em que a reflexão se encontra em suspenso entre o pensamento que duvida e o ser do qual se duvida. {{tag>Gaboriau questão fenômeno fenomenologia}}