====== 0 Introdução ====== //FERRARIS, Maurizio. Dove sei? Ontologia del telefonino. Milão: Bompiani, 2005.// **Introdução — Onde estás?** 1. O trocadilho entre a expressão italiana per e-mail e o título de um tratado aristotélico imaginário, Perì Mail, dá origem a uma investigação que passa da correspondência eletrônica e da escrita em papel à imagem platônica da escrita na mente e culmina na compreensão do celular como máquina de escrever. 2. A conversa com Jacques Derrida em Siracusa põe em questão a suposta superioridade do computador sobre o celular, pois este poderia reunir as mesmas funções e acrescentar a possibilidade de acompanhar continuamente quem o utiliza. 3. A pergunta «Onde estás?», habitual nas chamadas de celular e deslocada na telefonia fixa, torna-se uma questão filosófica fundamental sobre a presença móvel e orienta o diálogo projetado com Derrida, cuja morte deixa escritos, gravações e uma reflexão sobre a escrita capaz de esclarecer essa transformação. 4. A pergunta «Onde estás?» condensa a transformação da presença operada pelo celular, aparelho que reúne chamadas, mensagens e pagamentos e cuja adoção da escrita, inclusive de ideogramas que figuram coisas e pensamentos, põe em evidência o papel da inscrição na constituição da realidade social. 5. As conversas cotidianas, a marcação de encontros e a possibilidade de enviar textos cada vez mais extensos pelo celular exemplificam usos comunicativos do aparelho e deixam em aberto o problema de como a escrita constitui a realidade social. 6. Bilhetes, recibos, contas e cartas permitem reconstituir a vida pública e privada, enquanto instituições como correios, ministérios, bancos e bibliotecas evidenciam, ao conservar essas inscrições, o papel da escrita na construção da realidade social. 7. A transferência crescente de inscrições do papel para computadores e cartões com memória prepara sua concentração no celular, que pode reunir as funções de carteira, documento de identidade e bilhete de transporte. 8. A passagem de trem recebida no celular, que permite ao fiscal identificar tanto o passageiro quanto seu assento, exemplifica como o armazenamento de inscrições torna o aparelho um instrumento de construção da realidade social. 9. O encontro com John Searle em Kirchberg reaviva a controvérsia com Derrida sobre o papel constitutivo da escrita e recoloca o problema de uma «ontologia invisível», formada pela trama de normas, regras e instituições que se ergue sobre a realidade física. 10. O suporte físico é uma condição da realidade social, mas é a inscrição, como a assinatura que valida uma cédula ou o ato de nomeação que confere um cargo, que atribui a uma coisa ou pessoa o estatuto social cuja origem a teoria de Searle procura explicar. 11. O problema da ontologia social exige considerar as inscrições que constituem obrigações, promessas, casamentos, prêmios e condenações, entidades situadas entre o domínio dos objetos físicos, como as cadeiras, e o dos objetos ideais, como os teoremas. 12. O celular concentra o problema filosófico que motivou o tratado imaginário sobre o correio eletrônico, pois, entre a troca de mensagens com Ferrarin e a conferência de Searle, tornou-se um poderoso dispositivo de escrita. 13. O celular prolonga a capacidade da escrita de deslocar a presença e evidencia sua função de constituir uma rede de inscrições e registros que sustenta a realidade social, seja no papel, na memória eletrônica ou na lembrança de uma promessa descumprida. 14. A primeira parte vincula as mudanças da presença ao uso do celular como máquina de escrever e sustenta que a função de registro da escrita explica como inscrições em papel, em memórias magnéticas ou na mente constituem objetos sociais. 15. A segunda parte examina o que se constitui pelo registro diante de duas posições extremas, uma que reduz a inscrição de uma lei a um suporte sem força normativa e outra que estende a construção social a números, teoremas e objetos físicos por confundir as formulações científicas com a realidade que elas investigam. 16. A distinção entre registrar e constituir limita o alcance do construtivismo e do anticonstrutivismo absolutos, pois dispositivos de escrita permitem fotografar montanhas, arquivar informações ou efetuar cálculos sem que dessas operações dependa a existência de objetos físicos ou ideais. 17. A morte civil de Mattia Pascal, produzida por uma certidão apesar de sua existência física e consciente, mostra que as inscrições são constitutivas dos objetos sociais e delimita ao mundo social o alcance da fórmula derridiana sobre o que existe fora do texto. 18. A ontologia social repousa sobre sistemas de inscrição que remontam a sumérios e egípcios e encontram no celular uma realização contemporânea capaz de reunir comunicação, arquivos, transações e mensagens que dão notícia de mudanças na vida pública e privada. {{tag>Ferraris realismo-especulativo celular ontologia}}