====== “Filosofia prática” de Descartes (Béhar) ====== //BÉHAR, Pierre. Les langues occultes de la Renaissance: essai sur la crise intellectuelle de l’Europe au XVIe siècle. Paris: Desjonquères, 1996.// * A filosofia prática de Descartes aparece como cumprimento efetivo das aspirações fundamentais da Renascença. * Ela retoma o ideal renascentista de domínio da natureza. * Substitui, porém, os meios mágicos e simbólicos por um método racional. * Realiza tecnicamente aquilo que a magia prometia simbolicamente. * A sexta parte do Discours de la Méthode formula explicitamente esse programa. * O conhecimento das forças e ações do fogo, da água, do ar, dos astros e dos corpos terrestres permite utilizá-los em benefício humano. * A ciência tem por finalidade tornar o homem senhor e possuidor da natureza. * A filosofia deixa de ser contemplativa e torna-se instrumental. * A nova filosofia rompe com a escolástica. * Ela rejeita a filosofia puramente especulativa ensinada nas escolas. * Recusa a busca da beatitude da alma como finalidade última. * Substitui-a pela conservação da saúde e pela melhoria das condições de vida. * O ideal cartesiano permanece profundamente humanista. * O progresso técnico é concebido como progresso humano. * A ciência promete uma condição quase paradisíaca. * A longevidade e o bem-estar tornam-se objetivos legítimos do saber. * A filosofia prática realiza o antigo sonho da magia. * A Renascença buscava agir sobre a natureza por meio de palavras, signos e ritos. * Descartes conserva o objetivo, mas muda radicalmente os meios. * A eficácia passa do simbólico ao mecânico. * O domínio do mundo físico torna-se autônomo em relação à metafísica. * A ação sobre a natureza não exige mais intervenção sobre espíritos ou essências ocultas. * As causas metafísicas são afastadas do campo operativo. * O mundo físico é regido por leis claras e distintas. * A simplificação dos meios é decisiva. * A magia renascentista multiplicava correspondências e mediações. * O método cartesiano reduz a complexidade. * Poucas leis gerais substituem uma infinidade de analogias. * A matematização da natureza cumpre a função antes atribuída à linguagem sagrada. * O mundo é descrito em termos de extensão, figura e movimento. * A linguagem matemática torna-se o novo idioma universal. * O que a Cabala atribuía aos nomes divinos, Descartes atribui às equações. * A filosofia prática encerra a ambição hermética de unificação do saber. * Física, técnica e utilidade convergem. * A ciência deixa de ser separada da ação. * Conhecer é poder operar eficazmente. * O homem cartesiano herda o lugar central do homem renascentista. * Ele não é mais mediador simbólico entre céu e terra. * Torna-se sujeito racional que organiza o mundo. * A natureza é exterior e disponível à intervenção. * A ruptura é tão profunda quanto a continuidade. * O projeto renascentista de domínio do mundo é conservado. * O imaginário mágico é abandonado. * A razão técnica substitui definitivamente a magia. * A filosofia prática representa, assim, a realização secularizada dos sonhos da Renascença. * O poder prometido pela magia é efetivamente alcançado. * O preço é a perda da dimensão simbólica e espiritual do cosmos. * O mundo torna-se inteligível, dominável e silencioso. {{tag>Descartes Renascença}}