====== Besta e soberano ====== //DERRIDA, Jacques. Séminaire: la bête et le souverain. Volume I (2001-2002). Paris: Éditions Galilée, 2008 / Séminaire La bête et le souverain II. Paris: Galilée, 2010// **Nota dos editores** * O seminário "A besta e o soberano" foi o último ministrado por Jacques Derrida na EHESS entre o outono de 2001 e a primavera de 2003, correspondendo este segundo volume ao ano letivo 2002-2003 e dando sequência ao primeiro, publicado em 2008. * Na apresentação feita a seu público americano, Derrida situa esse segundo ano do seminário como continuidade das pesquisas anteriores sobre a soberania do Estado-nação e seu fundamento onto-teológico-político, motivadas originalmente pela questão da pena capital e do direito soberano sobre a vida e a morte dos súditos, deslocando-se agora essa reflexão para as grandes questões da vida animal e do tratamento da "besta" pelo "homem". * Esse deslocamento levaria a investigar a história literária e retórica das formas e gêneros que produzem representações animais do político — do Leviatã de Hobbes às Fábulas de La Fontaine —, atravessadas pela questão do gênero e da diferença sexual, além de analisar, através do conceito de soberania em Bodin, Hobbes, Rousseau e Schmitt, a maneira pela qual a figura do soberano e a da besta se associam e se dissociam por ocuparem ambas, de formas diferentes, uma posição fora da lei. * Referindo-se à situação contemporânea da mundialização e aos chamados "Estados vigaristas" frequentemente comparados a "bestas" na retórica política das grandes potências, o seminário abordaria também os conceitos de guerra, crueldade, terror e terrorismo, nacional e internacional. * A continuidade das pesquisas de 2002 se daria, nesse segundo ano, através da leitura conjunta e por vezes cruzada de Robinson Crusoé, de Defoe, e do seminário de Heidegger de 1929-1930 sobre o animal (Os Conceitos Fundamentais da Metafísica), textos aparentemente tão heterogêneos quanto possível, mas que convergem: o de Heidegger constitui seu tratado mais sistemático e rico sobre a animalidade, sendo ali que se encontram as três célebres teses — a pedra é sem mundo, o animal é pobre em mundo, o homem é configurador de mundo — amplamente questionadas por Derrida. * Essas leituras cruzadas visavam um foco comum: a história política do conceito de soberania e da relação do homem com o animal, tanto na Inglaterra pré-colonial de Defoe, com seu pano de fundo religioso e as inúmeras releituras de Robinson Crusoé ao longo dos séculos (Rousseau, Kant, Marx, Joyce, Virginia Woolf, Lacan, Deleuze), quanto na Alemanha moderna de Heidegger; ambos os livros tratam ainda da solidão, do pretendido "estado de natureza" e da história do conceito de Natureza, notadamente através do vocabulário heideggeriano pouco traduzível de Walten, que designa uma força ou violência arqui-originária de "soberania" além da onto-teologia, ausente tanto em Defoe quanto no contexto que determina sua obra. * A presente edição reproduz o texto integral do seminário tal como redigido por Derrida no computador, compreendendo dez sessões inéditas — à exceção de um fragmento da sétima, já apresentado como conferência sobre Maurice Blanchot —, tomando como referência o datiloscrito reunido nos dossiês de Derrida depositados no IMEC, entre dois exemplares (um incompleto, outro completo e numerado de forma contínua, utilizado para o seminário americano na Universidade da Califórnia em Irvine). * Além das dez sessões, Derrida dedicou ainda duas sessões a discussões com os participantes, que os editores optaram por não transcrever, seguindo o uso corrente nos colóquios dedicados à sua obra; as indicações bibliográficas do datiloscrito foram precisadas e completadas pelos editores, sinalizadas pela menção (NdÉ), assim como as traduções modificadas por Derrida foram sistematicamente indicadas, dada sua particular relevância num seminário que analisa textos em inglês e em alemão. * Os editores mantiveram as marcas de oralidade do seminário — incluindo acréscimos entre colchetes feitos pelo próprio Derrida e notas preparatórias entre parênteses que revelam o ritmo e as entonações das aulas —, tendo inserido entre chaves, a partir das gravações, um desenvolvimento improvisado no início da sétima sessão, e sinalizado em nota os acréscimos orais que precisavam ou matizavam sensivelmente a argumentação escrita. * Variações gráficas menores foram preservadas sem harmonização sistemática, as siglas usadas por Derrida (RC, H, SZ) foram restituídas por extenso, e palavras ausentes do datiloscrito foram acrescentadas entre colchetes angulares; as raras indicações telegráficas deixadas por Derrida ao final de certas sessões sobre os temas seguintes não foram reproduzidas nesta edição, com exceção de duas frases que ele próprio indicara deverem ser reinseridas em pontos precisos da terceira sessão. * Os editores — Michel Lisse, Marie-Louise Mallet e Ginette Michaud — agradecem a diversos colaboradores que auxiliaram na pesquisa bibliográfica, na revisão dos trechos em alemão, na revisão das transliterações do grego segundo o código de Émile Benveniste, e no cuidadoso trabalho editorial dedicado aos dois volumes deste Seminário. {{tag>Derrida besta soberano política}}