====== SCHELLING OU A METAFÍSICA DO IMAGINÁRIO ====== [[http://litteratura.free.fr/spip/article.php?id_article=83|Artigo original]] publicado em //Le Romantisme allemand. Albert Béguin (org.). Les Cahiers du Sud, 1949// * O romantismo envolve integralmente a experiência filosófica no domínio do imaginário, fazendo do sonho um de seus fundamentos privilegiados e estabelecendo com a filosofia uma relação estruturalmente ambígua e singular. * Essa relação desvia a filosofia de seu esforço racional ao aproximá-la de experiências extremas, perturbadoras e dificilmente comunicáveis. * O vínculo com objetos enquanto não inteligíveis desloca a filosofia do projeto de elaboração de novos meios de conhecimento para a busca de novos modos de união com o absoluto. * A exigência, formulada por Schelling, de que o filósofo possua tanta força estética quanto o poeta exprime essa transposição do exercício filosófico para o campo da criação imaginária. * A filosofia romântica só pode, nessas condições, constituir-se como filosofia da arte e, de modo mais amplo, como interpretação do real sob a forma de uma aventura imaginária e teatral. * O isolamento do ato criador elevado ao absoluto, designado como Princípio, permite explorar as ilusões de perspectiva próprias da obra de arte e da experiência sensível. * A partir dessas ilusões, constrói-se um sistema da natureza e do espírito que ultrapassa toda verdade positiva, configurando uma pseudo-ciência, uma mitologia moderna e uma metafísica do imaginário. * Esse procedimento implica uma inversão deliberada da tradição filosófica inaugurada por Platão, Descartes e Kant, entendida como uma subversão de seu esforço crítico. * A orientação de Schelling se define inicialmente a partir de Kant, sob o impulso do Sturm und Drang e da influência decisiva de Herder. * Entre as obras críticas, privilegia-se a Crítica do Juízo, na medida em que ela parece restituir à razão bens que as demais críticas haviam recusado. * A distinção fundamental entre Razão e Entendimento, estabelecida por Kant, delimita dois regimes de atividade intelectual. * O exercício puro da Razão, embora desprovido de valor constitutivo de verdade, conserva uma função reguladora indispensável. * As ideias transcendentais da Razão exercem um papel regulador que prolonga as categorias do Entendimento por meio de uma ilusão necessária. * Essa ilusão orienta o Entendimento para um foco ideal no qual convergem suas regras, mesmo que esse foco não seja constitutivo de conhecimento. * O verdadeiro ponto originário da inteligência permanece imanente à consciência, na unidade sintética da apercepção transcendental. * Contudo, um desdobramento inevitável faz com que esse foco pareça exterior à consciência, embora coincida com sua intimidade mais profunda. * A Crítica do Juízo prepara o caminho para Schelling ao introduzir um equilíbrio entre natureza e liberdade por meio do juízo reflexionante. * Os fenômenos são suficientemente determinados pelo Entendimento, fundamento da ciência. * Ao mesmo tempo, a razão prática intervém na organização do sensível, introduzindo a beleza como aparência paradoxal. * A beleza, definida por contradições internas, funciona como sinal da convergência entre os dois mundos que atravessam a experiência humana. * O juízo estético responde a uma consciência da totalidade na qual sensibilidade e entendimento operam sem perder sua originalidade própria. * A beleza marca o momento em que a atividade espiritual parece elevar seu próprio fundamento. * Ela sugere uma arquitetura do mundo e desperta o sentido de uma ordem necessária. * Esse movimento implica a ideia de uma extensão do Entendimento que permitiria dominar a totalidade das determinações e inverter o sentido habitual de sua operação. * A intuição arquitetônica substitui o conceito e ocupa uma posição superior ao entendimento discursivo, convergindo com concepções estéticas modernas. * A subjetividade do juízo estético, mantida por Kant, impõe-lhe a exigência de recriar incessantemente suas próprias condições de existência. * Diferentemente do juízo científico, o juízo estético não repousa sobre um objeto estabilizado, mas sobre sua própria tensão interna. * Ele desaparece com o afrouxamento dessa tensão. * Por ser apenas regulador e não constitutivo, impede o surgimento, em Kant, de uma metafísica da vida ou da arte, substituída pela crítica. * O projeto de Schelling consiste em transgredir esse limite crítico e constituir uma metafísica da arte e da vida. * O conteúdo do juízo reflexionante é extrapolado e dotado de valor constitutivo em relação ao real. * O romantismo rompe o círculo da crítica kantiana e inverte a totalidade de sua construção. * A experiência romântica do absoluto assume uma forma essencialmente dramática. * O convívio de Schelling com o círculo dos Schlegel em Iena e sua relação com o teatro revelam essa dimensão. * O Sistema do Idealismo Transcendental desenvolve a ideia de que o espírito se aliena para conquistar um objeto que excede o conhecimento. * O absoluto é vivido como inquietude do eu e como ambiguidade constitutiva do Princípio. * Em diálogo com Fichte, o sujeito aparece como radicalmente insatisfeito consigo mesmo e orientado para além de si. * A busca do ser fora ou acima do eu gera angústia e exprime o mal-estar romântico. * A referência a Plotino reforça a ideia de um retorno possível ao centro interior, no qual se revelariam simultaneamente Deus, o eu e o todo. * A intuição superior, apoiada na realidade estética, constitui o ponto de encontro entre espontaneidade humana e graça. * Ela articula esforço e dom, inquietude e auxílio, como via de acesso ao absoluto. * No ensaio sobre a liberdade humana, o princípio dramático se transforma em cosmogonia. * O fundamento do mal é situado no interior do próprio absoluto. * A ativação do eu é apresentada como condição da intensidade da vida. * As contradições e o mal são assumidos como realidades primitivas, não meras aparências fenomenais. * A filosofia de Schelling não possui a continuidade dos sistemas dedutivos clássicos. * Ela se apresenta como uma série de reformulações sucessivas de um mesmo esforço de pensamento. * Trata-se de uma metafísica exploratória, comparável à investigação dramática de uma situação. * A natureza é interpretada como um poema cifrado, cuja decifração revelaria a odisseia do espírito. * O absoluto, superior à distinção entre ser e conhecer, degrada-se ao explicitar os termos da contradição. * O eu representa o polo do conhecimento, enquanto o não-eu constitui o polo do ser. * A recusa de privilegiar um desses polos define o idealismo objetivo de Schelling. * O teatro funciona como símbolo da harmonização estética dos contrários. * A tarefa da filosofia não é demonstrar a primazia do sujeito ou do objeto. * Ela consiste em examinar seus vínculos a partir da intuição intelectual do absoluto. * A interpretação hegeliana de Schelling destaca a unidade dos opostos como núcleo do saber absoluto. * A vida eterna consiste em produzir e reconciliar incessantemente a oposição. * Conhecer é apreender a unidade na oposição e a oposição na unidade. * Na explicação da natureza, o método de Schelling procede do superior ao inferior. * As ciências naturais são interpretadas como etapas de uma mitologia objetiva. * Essa abordagem se opõe à ciência mecanicista de inspiração cartesiana. * Contudo, o recurso a explicações simbólicas e intuitivas dispensa a análise positiva e limita o alcance científico do sistema. * A comparação com o Segundo Fausto de Goethe evidencia paralelos entre poesia e filosofia pós-kantiana. * Os problemas da vida e da criação poética são encenados simbolicamente. * A solução poética substitui a solução filosófica e mina a pretensão romântica da filosofia da natureza. * A filosofia romântica define, em última instância, posições essenciais do pensamento puro. * Seus sistemas são reguladores, não constitutivos, e respondem a uma experimentação superior do espírito. * Essa herança se prolonga até o século XIX e além. * Após 1809, as preocupações religiosas tornam-se predominantes no pensamento de Schelling. * A influência da mística alemã e de Jakob Böhme se intensifica. * A história passa a ser concebida como teogonia. * A filosofia da natureza culmina em teosofia e em especulações sobre o destino cultural germânico. * Essas construções especulativas, embora excessivas, exprimem uma tentativa de resistir à separação entre imaginário e real. * A filosofia romântica funciona como compensação instintiva contra a tirania do intelecto. * Ela preserva a dimensão viva da experiência, mas carece de eficácia científica. * A metafísica do imaginário, fundada na estética, inverte e complementa as filosofias da consciência e da ideia. * O imaginário confere valor à realidade ao reconhecer a impossibilidade de reduzi-la a uma ordem única. {{tag>Chastel Schelling Romantismo}}