====== 4 Social-histórico ====== //CASTORIADIS, Cornelius. L'institution imaginaire de la société. Paris: Éditions du Seuil, 1975.// 1. A elucidação da sociedade e da história, entendidas como uma única questão, a do social-histórico, recebe do pensamento herdado uma contribuição apenas fragmentária e sobretudo negativa, que consiste em traçar os limites desse modo de pensar e exibir suas impossibilidades. 2. Apesar da riqueza da reflexão produzida desde Platão, seu essencial dedicou-se a encobrir e reduzir a questão do social-histórico tão logo surgida, pelo mesmo mecanismo e pelas mesmas razões profundas que levaram ao encobrimento da questão da imaginação e do imaginário. 3. A reflexão herdada nunca conseguiu isolar o objeto próprio da questão e considerá-lo por si mesmo, deslocando-o entre uma sociedade referida a uma norma ou telos fundado alhures e uma história concebida como perturbação dessa norma ou desenvolvimento orgânico ou dialético em sua direção. 4. O ser próprio do social-histórico foi constantemente deportado para outra coisa e absorvido por ela, de modo que mesmo as visões mais profundas a seu respeito permaneceram dirigidas por um alhures, seja a economia divina da criação, a vida da razão, a realização do sujeito ético, a natureza ou a forma estável da boa cidade. 5. Da mesma maneira, representação, imaginação e imaginário nunca foram vistos por si mesmos, mas sempre referidos à sensação, à intelecção, à percepção ou à realidade e instrumentalizados como meios julgados por sua contribuição ao acesso à verdade e ao ente verdadeiro. 6. Por obsessão com a pergunta sobre o bem fazer e o mal fazer, deixou-se de pensar o que é o fazer e o que ele faz ser, reduzindo-o a seus momentos ético e técnico, que tampouco foram verdadeiramente pensados, pois suas determinações, produtos do próprio fazer, foram apresentadas como absolutos impostos a partir de um alhures. 7. Situada no terreno da lógica-ontologia herdada, que atribui a ser um sentido único definido como determinidade, a reflexão sobre sociedade e história foi necessariamente levada a reduzir o social-histórico a variantes ou sínteses dos tipos de ente já conhecidos, como coisa, sujeito, ideia ou conceito, submetendo-o a categorias particulares erigidas em universais. 8. Esses dois aspectos são efeitos indissociáveis da imposição da lógica-ontologia herdada ao social-histórico, que o torna homogêneo aos demais entes e só lhe concede ser na medida de sua determinação, resultando no máximo na visão hegelo-marxista de ações de sujeitos regidas por relações necessárias, para a qual tudo o que excede ou falta a esse esquema se torna escória, acaso ou ininteligível. 9. Quando o social-histórico é interrogado a partir de si mesmo, sem ser previamente submetido às determinações do que se julga conhecer, ele faz explodir a lógica e a ontologia herdadas, revelando-se irredutível às categorias tradicionais, deixando entrever uma lógica nova e forçando a alterar radicalmente o sentido de ser. {{tag>Castoriadis sociedade história}}