====== 4 Mito e sociedade ====== //CASSIRER, Ernst. The Myth of the State. New Haven: Yale University Press, 1946.// **A função do mito na vida social do homem** 1. A aparente incoerência do mito, que reúne manifestações tão divergentes quanto os ritos orgiásticos, as práticas xamânicas, a poesia homérica e a especulação religiosa dos Upanishads, torna problemática a identificação de um fundamento comum que justifique sua inclusão em um mesmo conceito. 2. A diversidade ilimitada dos conteúdos míticos e dos atos rituais encontra sua unidade na constância de seus motivos fundamentais, pois, assim como a arte proporciona uma unidade da intuição e a ciência uma unidade do pensamento, o mito e a religião proporcionam uma unidade do sentimento fundada na universalidade e na identidade essencial da vida. 3. A unidade da vida dispensa uma concepção pessoal do divino e, enquanto nas religiões especulativas pode assumir a forma de uma identidade metafísica entre o eu e o universo, nas crenças primitivas realiza-se pelo desejo de identificação com a comunidade e a natureza, expresso em ritos, prescrições e tabus cuja eficácia decorre da intensidade dos vínculos afetivos de participação, e não de relações empíricas de causalidade. 4. O parentesco e a continuidade entre as gerações são compreendidos miticamente como identidade efetiva com os antepassados humanos ou animais, cuja presença se renova nos ritos e assegura a fecundidade do mundo, integrando seres humanos, animais, fenômenos naturais e objetos fabricados em uma única comunidade de vida. 5. A conservação da vida exige uma renovação que ultrapassa a reprodução biológica e encontra nos ritos de iniciação sua expressão decisiva, pois o ingresso na comunidade pressupõe a morte simbólica do ser meramente natural, submetido a isolamento e provações, para que renasça como participante de uma forma superior de existência social. 6. A alternância das estações e a renovação da vegetação participam do mesmo drama de morte e ressurreição que estrutura a existência humana, de modo que os cultos de Átis, Adônis e Osíris exprimem a convicção de que também a natureza precisa morrer para voltar a viver. 7. A serenidade dos deuses homéricos encobre um estrato religioso de temor, purificação e expiação que jamais desapareceu e cuja força reapareceu na crise provocada pelo culto de Dioniso, instaurando um conflito entre a ordem olímpica e a violência do entusiasmo religioso que encontra nas Bacantes de Eurípides sua expressão clássica. 8. O culto dionisíaco manifesta o desejo humano de romper os limites da individualidade e mergulhar na vida universal, experiência compartilhada por ritos primitivos e religiões místicas na qual a dança e o êxtase fazem desaparecer o eu finito para permitir o nascimento do divino. 9. A exigência grega de explicação e justificação teórica conduziu o orfismo a sistematizar os ritos dionisíacos mediante o mito de Dioniso Zagreu, cujo esquartejamento e devoração pelos Titãs, posteriormente fulminados por Zeus, explicam a origem dos seres humanos a partir das cinzas titânicas e a coexistência, em sua natureza, de um elemento divino e de um elemento maligno. 10. A realidade que fundamenta o mito de Dioniso Zagreu é ritual, pois a narrativa confere sentido às práticas do culto dionisíaco, sobretudo à teofania em que o deus, invocado no auge do êxtase das mênades, manifesta-se entre os participantes e compartilha seu frenesi e a devoração da carne crua da vítima sacrificial. 11. A interpretação órfica transforma o êxtase orgiástico em loucura sagrada pela qual a alma abandona o corpo e se une ao deus, fazendo da renúncia à individualidade a condição para restaurar a unidade divina dispersa na multiplicidade dos seres pela violência titânica. 12. O mito nasce de emoções humanas profundas, mas sua especificidade consiste em convertê-las em imagens determinadas, transformação pela qual o sentimento obscuro deixa de ser um estado meramente passivo e se torna um processo ativo de expressão. 13. A distinção entre expressão física e expressão simbólica exige reconhecer que a manifestação das emoções possui uma base biológica comum ao mundo animal, no qual a sensibilidade orgânica, os instintos e as qualidades afetivas de atração ou repulsão orientam a sobrevivência sem depender necessariamente de reflexão, aprendizagem individual ou representação conceitual de objetos específicos. 14. O desenvolvimento humano introduz uma especificação crescente das emoções e, sobretudo, uma modalidade simbólica de expressão que, embora coexista com reações semelhantes às dos animais, constitui o fundamento comum do mito, da poesia, da linguagem, da arte, da religião e da ciência. 15. As atividades culturais cumprem uma função comum de objetivação, claramente reconhecível na linguagem, pela qual as percepções deixam de ser dados isolados e passam a integrar conceitos gerais, tornando a nomeação uma condição da própria constituição dos objetos e da realidade empírica objetiva. 16. O simbolismo mítico objetiva os sentimentos e, ao transformar em narrativas os ritos inicialmente realizados sob a pressão inconsciente de desejos individuais e impulsos sociais, suscita perguntas sobre o significado, a origem e a finalidade das ações, inaugurando um distanciamento decisivo em relação à vida puramente instintiva. 17. A expressão simbólica ultrapassa o alívio passageiro proporcionado pela descarga física das emoções, pois simultaneamente as exterioriza e concentra, convertendo sua energia em obras duradouras nas quais os sentimentos adquirem uma forma persistente em vez de simplesmente se dissiparem. 18. A poesia e a arte tornam particularmente evidente o poder de objetivação das emoções, como ocorre em Goethe, para quem a transformação das alegrias, inquietações e experiências em imagens e poemas possibilita esclarecer a relação com o mundo, apaziguar a vida interior e conferir à obra o caráter de uma vasta confissão. 19. O mito objetiva a experiência social por meio de imagens acolhidas como realidades incontestáveis, diferentemente das construções míticas deliberadas de Platão, mas, mesmo sem reconhecer a natureza simbólica dessas imagens, já transforma as emoções em formas intuitivas capazes de tornar compreensíveis a natureza e a vida interior. 20. A função essencial do mito e da religião consiste na metamorfose do medo, pois, embora esse instinto biológico não possa ser inteiramente eliminado, sua expressão em imagens permite organizar os temores, as esperanças e os impulsos mais profundamente enraizados na existência humana. 21. O poder mítico de organização das emoções manifesta-se com máxima intensidade diante da morte, cuja origem constitui uma das primeiras e mais urgentes interrogações humanas e suscita narrativas presentes nas mais diversas formas de civilização. 22. Apesar das divergências entre as definições mínimas da religião baseadas no animismo ou na relação entre tabu e mana, a questão da vida e da morte permanece fundamental, pois as crenças na sobrevivência da alma, na imortalidade e na comunicação com os mortos respondem à perturbação provocada pela finitude e restituem sentido à existência. 23. Antes de a filosofia vincular a liberdade à superação do medo de morrer, o mito já tornava a morte compreensível e suportável ao convertê-la em imagem e interpretá-la como passagem entre formas de existência, dissolvendo a separação absoluta entre vida e morte e recusando a extinção definitiva da pessoa. {{tag>Cassirer mito sociedade}}