====== 4.3 Sujeito-objeto na Filosofia do Renascimento ====== //CASSIRER, Ernst. Individu et cosmos dans la philosophie de la Renaissance. Paris: Minuit, 1983.// **O PROBLEMA DO SUJEITO E DO OBJETO NA FILOSOFIA DO RENASCIMENTO** **III** 1. A afirmação de que a primazia lógica e científica conquistada pelo problema do movimento na filosofia renascentista é o germe da cosmologia moderna parece paradoxal, já que a Antiguidade já conferira ao movimento posição dominante, sendo a concepção aristotélica da kínesis o núcleo de toda a sua teoria da natureza, que abrange a locomoção, a alteração qualitativa, o crescimento quantitativo, a geração e a corrupção, mas privilegia a pura locomoção como primeira por natureza, pois nela repousa a diferenciação dos próprios sujeitos, de modo que os quatro elementos, terra, água, ar e fogo, se distinguem especificamente pelo tipo de movimento que lhes corresponde, tendendo cada um a retornar a seu lugar natural, onde alcança sua perfeição, com movimento retilíneo para os elementos terrestres, queda da terra rumo ao centro do mundo por gravidade absoluta e afastamento do fogo por leveza absoluta, enquanto ao éter, substância incorruptível dos corpos celestes, convém apenas a revolução circular perfeita, uniforme e regular, imagem da unidade do motor divino que rege as esferas. 2. O movimento torna-se assim para Aristóteles o fundamento físico e metafísico da divisão e classificação do mundo, mas apenas por ser considerado em seu aspecto puramente qualitativo, como determinação absoluta do ser, e não como relação ideal definida nas ordens universais de tempo e espaço, que o confinaria ao abstrato e matemático, incapaz de caracterizar a essência do objeto natural, razão pela qual a inseparabilidade entre o que e o onde dos corpos é interpretada como significação substancial do lugar, dotado de natureza própria e de relações reais de simpatia ou antipatia com os corpos, que buscam o lugar que lhes convém e fogem do oposto, forças que não são magnitudes físico-matemáticas graduáveis segundo o mais e o menos, mas valores absolutos do ser, como mostra a recusa expressa de Aristóteles de admitir que um corpo pesado tenda ao centro com força maior quanto mais próximo esteja, por ser a distância determinação exterior irrelevante para os efeitos que derivam da essência, sempre inalterável, formulação mais aguda do pensamento fundamental da física das formas substanciais, oposta à física moderna, para a qual a significação objetiva reside em relações invariáveis expressas por leis gerais que definem os próprios corpos e lugares, enquanto para Aristóteles, inversamente, a natureza e o eidos dos lugares e dos elementos determinam a arquitetura do cosmos e a forma do acontecer. 3. A física escolástica manteve essa hipótese fundamental, e, embora no século XIV, como mostrou Duhem, Alberto da Saxônia já formulasse problemas que preparavam a cosmologia de Kepler e Newton, sua solução exigia demolir os fundamentos da física aristotélica e abalar a doutrina do espaço e do tempo, ruptura realizada no campo especulativo pelo De docta ignorantia, cuja importância cosmológica reside menos na renovação das antigas doutrinas pitagóricas do movimento da Terra do que no princípio que a origina, a relatividade do lugar e do movimento, corolário de uma teoria do conhecimento que faz do conhecer caso particular da função universal de medir, correspondendo mens e mensura, de modo que a cosmologia matemática se subordina à relação sujeito-objeto e às condições da medição, entre as quais a admissão de pontos fixos, indispensável a toda descrição do movimento mas entendida pela douta ignorância como posição ideal e hipotética e não como determinação absoluta e ontológica, livremente escolhida pelo espírito, já que nenhum lugar físico tem prioridade natural sobre outro e o que está em repouso de um ponto de vista pode estar em movimento de outro, perdendo sentido o lugar e o movimento absolutos, como mostra o observador no polo terrestre e o observador no polo celeste, cada qual com razão ao tomar seu lugar por centro, cabendo ao intelecto reunir pela complicatio esses aspectos numa unidade que apresenta o mundo como roda dentro de roda e esfera dentro de esfera, sem centro privilegiado. 4. Esse relativismo, que parece desorganizar o mundo aristotélico de medidas e lugares fixos, prepara na verdade um tema inteiramente positivo, pois, se na física peripatética lugares e corpos se sustentam mutuamente e o espaço se divide segundo os mesmos critérios das coisas, com um abismo entre o mundo celeste superior e o sublunar inferior cuja supressão parecia entregar o cosmos ao ápeiron e ao caos, Nicolau de Cusa, ao reduzir a mera imagem esse mundo de centros fixos e esferas concêntricas, torna urgente reconstruir a ordem do ser e do acontecer a partir das forças do intelecto, que deve mover-se em seu próprio meio sem apoio sensível para dominar e elevar a sensibilidade, invertendo a ordem dos problemas, já que, reconhecida a relatividade de toda determinação local, a questão não é mais encontrar pontos fixos, mas fixar as leis que regem a mudança num domínio de relações variáveis, de modo que toda determinação de lugar supõe um sistema de regras universais do movimento, em cuja unidade repousa a do universo contraído, distinto da unidade absoluta de Deus por só admitir identidade relativa à alteridade, unidade na multiplicidade e constância na variação, não distribuídas em esferas distintas do universo, mas unidas indissoluvelmente em cada existência individual, segundo o princípio de que tudo está em tudo, sem acima nem abaixo, sem separação entre eterno e temporal, sendo toda a realidade empírica coincidência de contrários, que não admite graus, e cada parte reflete o todo como o mundo reflete Deus, podendo representar igualmente sua perfeição, base metafísica do conceito cosmológico moderno de uniformidade, conquistado porque a distância infinita entre o mundo empírico e a forma absoluta relativiza e suprime as diferenças internas da realidade condicionada, de modo que cada parte só é o que é em conexão com o todo, o movimento do cosmos procede da relação recíproca de suas partes e não do impulso de um motor divino externo, e a natureza se define como complicação de tudo o que acontece no e pelo movimento. 5. Lançadas assim as bases de uma nova dinâmica, o pensamento especulativo do Cusano, que viu o problema com surpreendente precisão, não podia resolvê-lo com seus próprios meios, sendo preciso criar passo a passo as formas de pensamento adequadas, tarefa em que Kepler, sobretudo por dar fundamento metodológico às leis do movimento planetário, aparece como criador do novo conceito de ciência ao afirmar que o lugar não é algo dado e que toda localização é obra do espírito ou do senso comum, princípio que unifica sua astronomia, sua óptica e sua teoria das sensações e revela o fator ideal presente em toda objetivação espacial, pois, concebido o lugar como pura relação e não como propriedade imediata das coisas, surge o problema de situar essa relação no conjunto do conhecimento da natureza e transforma-se a relação entre lugar particular e espaço, que em Aristóteles é pensada mais física que matematicamente, como continência real dos lugares particulares no espaço único, comparável à de um vaso com o líquido que recebe, sendo o espaço nem matéria nem corpo, mas o continente, definido como limite entre continente e conteúdo e determinado para cada corpo pelos limites internos do corpo mais próximo que o contém, conjunto de determinações geométricas mais agregado que sistema, pois o lugar comum não é condição dos lugares particulares, mas apenas a última casca de uma superposição de envoltórios além da qual não há espaço nem corpos, o que torna o vazio contradição em termos, continente sem conteúdo, e converte a continuidade espacial, fundada não na forma e no princípio do espaço, mas em sua concepção como substrato real, numa determinação das coisas análoga à contiguidade dos corpos. 6. Mérito da filosofia e da matemática renascentistas foi criar, contra essa concepção, as condições de um novo conceito de espaço, substituindo o espaço-agregado e o espaço-substrato pelo espaço-sistema e espaço-função, despojado de sua aderência às coisas e de sua natureza substancial e descoberto como função ordenadora livre e ideal, cujo primeiro passo é a homogeneidade universal do espaço, impossível na física aristotélica, que atribuía ao alto e ao baixo uma natureza específica correlata à dos elementos, e exigida quando o espaço é construído como totalidade sistemática segundo uma lei única, que permita realizar as mesmas construções a partir de qualquer ponto, postulado já compreendido pelo Cusano mas concretamente cumprido apenas na teoria do movimento de Galileu, centro de sua crítica ao peripatetismo por realizar a inversão completa do conceito de natureza, que deixa de ser mundo de formas substanciais e fundamento do movimento ou repouso dos elementos para caracterizar-se pela regularidade universal do movimento, a que nenhum ser individual escapa e pela qual se insere na ordem universal do acontecer, ordem matemático-ideal verificada na experiência sem barreira que impeça a plena aplicação do ideal ao real e do abstrato ao concreto, de modo que a homogeneidade do mundo decorre da homogeneidade do espaço geométrico, o movimento deixa de ser quale particular de corpos diversos para submeter-se a uma mesma lei de medida e sua síntese segue o princípio da soma de números ou de operações geométricas, síntese impossível sob a física aristotélica, que, admitindo movimentos mistos apenas em corpos compostos, atribuía a cada elemento simples um único movimento, sendo tão absurdo um corpo simples com movimentos retilíneo e circular quanto um bastão de ferro de madeira, ao passo que Galileu inverte a regra escolástica de que o agir segue o ser, partindo das leis empíricas do agir para determinar o ser, segundo uma concepção da ciência em que a unidade da natureza decorre da unidade da física, garantida pela unidade da geometria e da matemática, de modo que, havendo uma axiomática geral da medida, o mundo mensurável não contém oposições insuperáveis e o mundo terrestre e o celeste se regem pelas mesmas normas que explicam a queda de uma pedra e a revolução dos astros, o que revela a influência decisiva do problema do método sobre o problema do ser, pois o dualismo metodológico medieval entre teologia e física refletia-se num dualismo da matéria, sem nada de essencial em comum, segundo Tomás de Aquino, entre a celeste e a terrestre, enquanto a concepção moderna, fundada na unidade do intelecto e na mathesis universalis cartesiana, conclui pela unidade da substância corpórea por estarem todo saber empírico e racional sujeitos às mesmas regras. 7. Se as normas ideais da matemática moldam a física e o conceito de movimento, ocorre também o processo inverso, pois a nova unidade entre geometria e física introduz o movimento como ideia matemática na geometria, passo decisivo da geometria sintética grega à geometria analítica e ao cálculo infinitesimal modernos, que permite distinguir a intuição do espaço da intuição das coisas e transformar o espaço das coisas em sistema do espaço puro, já que o espaço aristotélico, aderente aos corpos como limite do continente, não admitia liberdade de movimento e progresso teórico, nem prolongamento infinito da linha, por ser contraditório o infinito atual, nem movimento ilimitado em qualquer direção, barrado pela natureza específica dos móveis, enquanto a dinâmica moderna faz do movimento veículo do conhecimento do espaço e da determinação das formas geométricas, como nas investigações estereométricas de Kepler, que mede figuras complexas considerando as regras de sua formação genética como totalidades de infinitas posições particulares, tratando o círculo como soma de infinitos triângulos isósceles infinitesimais e a esfera como conjunto de infinitos cones e gerando novas formas pela rotação de superfícies esféricas e cônicas cujos volumes determina por métodos gerais, de modo que o infinito, convertido em meio legítimo e necessário da matemática, transforma o conceito de mundo e de objeto, pois toda integral definida une o ápeiron e o péras antes inconciliáveis, pondo o infinito a serviço da determinação quantitativa e convertendo sua transcendência metafísica em imanência lógica, e o espaço, despojado de todo resíduo material, torna-se puro elemento de ordem, como se vê nas coordenadas de Descartes e Fermat, pois Descartes considera as curvas não como dadas na intuição, mas como nascidas de movimentos ordenados decompostos em movimentos elementares ao longo de dois eixos perpendiculares, cuja diferença de velocidade determina inequivocamente a forma e as propriedades da curva, podendo o pensamento escolher livremente o ponto fixo e passar de um sistema de coordenadas a outro sem alteração das leis além do formal, progresso decisivo sobre a matemática grega, que, apesar de alusões claras às coordenadas, se prendia à figura individual dada e não alcançava verdadeira generalização, ao passo que Fermat permite tomar como centro qualquer ponto do plano, deslocar e girar os eixos e usar coordenadas oblíquas, tornando o sistema independente da curva e abrindo, como afirma na Ad locos planos et solidos isagoge, o acesso a um conceito geral de lugar, universalismo que a matemática pura não teria alcançado sem que a cosmologia e a filosofia da natureza tivessem antes afrouxado o conceito aristotélico-escolástico de espaço. 8. Antes de manifestar-se nas ciências exatas, essa transformação anuncia-se num novo sentimento do mundo, de que Giordano Bruno é testemunho típico, pois, embora alheio à ideia do infinito como instrumento do conhecimento exato e contrário a ela em sua doutrina do mínimo, abraça com sentimento apassionado e heroico o cosmos infinito contra o ne plus ultra da fé medieval e da cosmologia aristotélico-escolástica, recusando o espaço como corpo continente e envoltório extremo do mundo e concebendo-o como meio livre de um movimento ilimitado em todas as direções, que constitui a própria natureza e é veículo de uma força infinita, expressão da vida infinita do universo, momentos que, como na física estoica e neoplatônica em que se apoia, não se distinguem nitidamente, coincidindo espaço, éter e alma do mundo, de modo que o que rompe a imobilidade do cosmos aristotélico é um motivo dinâmico, não a forma da nova ciência como em Kepler e Galileu, mas um novo sentimento dinâmico do mundo, que faz de Copérnico menos o astrônomo calculador que o herói que, contra a opinião néscia da maioria, libertou o conhecimento da estreita prisão de onde só via as estrelas por pequenas aberturas e derrubou os muros imaginários das esferas celestes, revelando que o problema do espaço é para Bruno sobretudo ético, já que a infinitude não se afirma pelos sentidos nem pela intuição matemática, mas se concebe pelo mesmo órgão com que se concebe o próprio ser espiritual, o princípio do eu e da autoconsciência, exigindo não contemplação passiva, mas livre ação e voo do espírito, no qual o eu, ao assegurar sua liberdade íntima, gera como polo oposto de sua intuição intelectual de si a intuição do universo infinito, entrelaçando indissoluvelmente conhecimento do sujeito e do objeto, de modo que quem não encontra em si o sentimento heroico de autoafirmação e expansão ilimitada permanece cego para a infinitude do cosmos, como mostra o diálogo Degli eroici furori, em que a intuição do infinito é descrita como ato do eu, e se a especulação medieval já considerara a pluralidade e infinitude dos mundos, rejeitava-as, seguindo o De coelo, por motivos antes éticos e religiosos que intelectuais, por temer perder o valor do homem e o centro unitário do processo religioso, como ainda Petrarca, que no De sui ipsius et multorum ignorantia chama tal opinião cume da loucura e heresia filosófica, enquanto em Bruno é justamente a dignidade intelectual e moral do eu que reclama o novo conceito de mundo, com o acento recaindo mais sobre o eu que gera a visão do universo do que sobre o universo, pois o homem só encontra seu verdadeiro eu ao abarcar o todo infinito e expandir-se nele, confundindo-se os limites de vida e morte, já que só ao abandonar a existência individual se concebe a universalidade da vida, ideia que o poeta em Bruno exprimiu com máxima pureza nos sonetos do diálogo, onde o voo ousado rumo ao céu, ciente da queda mortal como a do filho de Dédalo, é aceito com contentamento porque nenhuma vida se iguala a tal morte. 9. Ao desembocar o problema do espaço no problema fundamental da filosofia renascentista, a relação sujeito-objeto, renasce a dialética com que essa filosofia sempre se debateu, agora em sua forma mais concreta e aguda, a intuição do espaço, pois o eu diante do universo aparece ao mesmo tempo como conteúdo e continente, determinações indispensáveis e reciprocamente compenetradas, já que a infinitude do cosmos ameaça não só limitar mas anular o eu e é, ao mesmo tempo, a fonte de sua elevação, sendo o espírito igual ao mundo que concebe, motivo transformado continuamente sob diversos pontos de vista, como no diálogo entre Deus e a alma composto por Ficino segundo o modelo agostiniano, em que Deus enche, penetra e contém céu e terra sem ser enchido, penetrado ou contido, por ser a própria abundância, a força de penetrar e o poder de conter, predicados atribuíveis igualmente à alma humana, que como sujeito do conhecer contém a realidade objetiva sem ser contida por ela, firmando sua primazia sobre as coisas e igualando-se ao cosmos ao encontrar em si os princípios pelos quais o conhece como infinito, numa certeza não abstrata e discursiva, mas intuitiva, nascida do princípio vital do eu e continuamente renovada, de modo que o homem renascentista, diante de Deus e do universo infinito, é, como o Ganimedes de Goethe, um continente contido, e a filosofia do Renascimento, sem superar a antinomia dialética dessa dupla relação, tem o mérito indiscutível de tê-la apontado e transmitido sob nova concepção aos séculos das ciências exatas e da filosofia sistemática. {{tag>Cassirer Renascença sujeito-objeto}}