====== 1 Misticismo e lógica ====== //BOUVERESSE, Jacques. Wittgenstein, la rime et la raison: science, éthique et esthétique. Paris: Éditions de Minuit, 1985.// 1. A atração que o pensamento de Wittgenstein deverá exercer nasce da conjunção excepcional entre um racionalismo radical e devastador e um sentimento profundo dos limites do pensamento, ambos exercidos sobre o universo da linguagem, o que o expõe a ser rejeitado ora como positivista, ora como místico, ora por ambos os motivos, já que nele se encontram o lógico e o místico, como mostra o aforismo 6.53 do Tractatus, que formula o princípio fundamental da filosofia neopositivista ao prescrever não dizer senão o que pode ser dito, isto é, as proposições das ciências naturais, e mostrar a quem quiser dizer algo metafísico que não deu significado a certos signos. 2. Ao falar no condicional, Wittgenstein trata a questão como definitivamente resolvida sem que nada esteja de fato resolvido, pois julgava ter dado a solução dos problemas e mostrado ao mesmo tempo quão pouco se ganha ao resolvê-los, de modo que sua solução negativa tem um conteúdo positivo, já que o dizível aponta para algo fora de seus limites que não pode integrar nem negar, e enquanto ele se propõe uma tarefa tópica de delimitação, os neopositivistas parecem propor uma tarefa polêmica de eliminação, transformando uma assimetria numa diferença de dignidade, ainda que seja difícil dizer em que suas posições diferem quanto ao destino da filosofia. 3. A profissão de fé racionalista que encerra o Aufbau de Carnap está muito próxima do Tractatus ao contestar que a ciência possa resolver os enigmas da vida, mas Wittgenstein sustenta que esses enigmas podem ser resolvidos a qualquer momento por não exigirem solução a ser inventada e, sobretudo, assume diante da explicação científica uma posição bem mais desencantada, denunciando como ilusão moderna a crença de que as leis da natureza explicam os fenômenos, à qual os antigos, que reconheciam em Deus e no Destino um ponto de parada claro, eram mais lúcidos. 4. A ciência fornece apenas um modo adequado de descrever os fenômenos e nenhum meio de explicá-los em sentido forte, e embora a exigência de uma conexão necessária possa revelar um preconceito racionalista a favor da lógica e da matemática, Wittgenstein parecia considerar com indiferença e até desdém tanto as ciências naturais quanto a própria matemática, indignando-se ao mesmo tempo com o interesse de Carnap pela parapsicologia, inclinado como estava a pensar que, se só se sabe o que a ciência diz e só se resolvem questões científicas, sabe-se muito pouco e nada se resolve. 5. A desconfiança diante das teorias e explicações científicas é uma das constantes mais características de sua filosofia, manifestando-se a propósito da psicanálise, cujo extraordinário feito científico pode servir à destruição dos corpos, das almas e da inteligência, e do darwinismo, aceito por milhares de livros como solução evidente sobre bases extremamente frágeis, quando teria sido possível tratá-lo como uma hipótese interessante ainda por confirmar. 6. O tom dessas observações parece positivista, mas o que está em causa não é o problema epistemológico da admissão legítima de uma teoria, e sim o curioso mecanismo que impede, na prática, de considerar uma teoria apenas como teoria, produzindo tanto repugnâncias quanto entusiasmos epistemológicos, entre os quais o filósofo quase sempre se coloca, fora de seu papel de tentar ver claro, exibindo dúvidas pouco sérias sobre o mundo exterior ou os outros, dúvidas injustificadas sobre teorias científicas sólidas e incapacidade de duvidar onde haveria boas razões para isso. 7. O fenômeno que mais atraiu a atenção de Wittgenstein foi a transmutação de uma hipótese interessante em certeza a priori, de um ponto de vista esclarecedor em modo obsessivo de representação e de uma teoria em mito, sendo a fascinação pela novidade científica, em espíritos estranhos ao espírito da ciência, um risco de perdição intelectual característico da época, contra o qual ele exigiu a vigilância do filósofo ao denunciar a curiosidade superficial pelas últimas descobertas. 8. Isso não significa proteger a ciência de toda ingerência do não especialista, pois os próprios cientistas podem estar longe de compreender o que fazem, como revela a idolatria da ciência e do cientista contida no título de Jeans, O Universo Misterioso, havendo um maravilhoso científico que envolve até as teorias mais sérias, como a teoria cantoriana dos conjuntos transfinitos, a propósito da qual Wittgenstein procurou mostrar que o infinito não é tão misterioso quanto parece, combatendo com agressividade toda uma mitologia da ciência. 9. Contra tudo o que a palavra misticismo evoca, como desprezo pelo conhecimento discursivo e primado da intuição, o mais característico em Wittgenstein é considerar que onde subsiste uma impressão de maravilhoso, mistério ou profundidade insondável há provavelmente um problema filosófico não resolvido, e se ele combateu a inclinação às explicações redutivas, foi sobretudo a respeito dessas explicações que quis fazer admitir que elas são apenas isso, voltando sua desconfiança contra a ilusão de ter feito muito mais do que se fez ao explicar. 10. O problema nietzschiano não de aniquilar, mas de dominar a ciência encontra em Wittgenstein um caso exemplar, igualmente distante da ignorância desdenhosa e da veneração supersticiosa, sensível aos efeitos barbarizantes das ciências mas consciente do perigo das agressões obtusas contra elas, convicto de que a época da ciência popular não era uma época para a filosofia e de que a tarefa mais útil de um filósofo seria uma exposição clara e sem concessões de uma ciência qualquer, convicção ligada a seu pessimismo quanto à sobrevivência de sua obra. 11. A ciência que mais reteve sua atenção foi a matemática, à qual consagrou centenas de páginas, o que leva a perguntar se ele não seria um metafísico racionalista frustrado, pois o poder de fascinação e sedução da matemática é uma fonte maior do que ele chama a doença dos problemas filosóficos. 12. O itinerário do jovem Wittgenstein levou-o da engenharia à matemática, desta aos fundamentos da matemática e à lógica e daí à filosofia, guiado pela busca de clareza, simplicidade e necessidade que se manifesta também em suas preferências por formas artísticas rigorosas e geométricas, aparentadas à teoria musical de Schönberg, ao passo que o Tractatus permanece tributário de uma concepção tradicional da lógica e da matemática como reveladoras das leis imutáveis e necessárias de uma espécie de superfactualidade. 13. Se, como pretende Shwayder, a filosofia de Wittgenstein foi kantiana do começo ao fim e preferiu o outro mundo transcendental da lógica às contingências da ciência e do senso comum, a segunda filosofia, reabilitação apaixonada do provisório, do diverso, do indeterminado, das transições graduais e das realidades civis contra os ideais transcendentes, mostra que o paciente visado pela terapêutica das Investigações e das Observações sobre os Fundamentos da Matemática é antes de tudo o próprio autor, cujas inclinações se exprimem nas duas vozes, da tentação e da correção, que dialogam nesses livros. 14. As Investigações exibem uma tendência à dessublimação tão acentuada que poderia parecer um recalque, insistindo em que a linguagem, a proposição, o sentido e o pensamento são as coisas mais ordinárias e oferecendo apenas observações sobre a história natural do homem, em contraste com o Tractatus, obra de metafísica dogmática que o autor considerava a obra de sua vida e na qual julgava ter resolvido todos os problemas, enquanto as Investigações são intrinsecamente inacabadas e acompanhadas de ceticismo quanto a seu alcance. 15. Se no Tractatus Wittgenstein julga ter resolvido todos os problemas filosóficos, é porque resolveu o problema filosófico, a delimitação rigorosa entre o que pode ser dito e o que só pode ser mostrado, cuja introdução do elemento místico liquida todas as questões ao estabelecer que o que a filosofia consegue dizer não é filosofia no sentido tradicional e o que aspira a dizer não pode ser dito, por razões essenciais que não deveriam deixar nenhuma veleidade de reincidência. 16. Nas Investigações Wittgenstein avança menos e vai mais longe, tratando individualmente e com consideração as afirmações dos filósofos sem uma dicotomia fixa entre o dizível e o indizível, abandonando os limites da linguagem e o espaço lógico, de modo que, se a solução do Tractatus ainda é recebida como filosófica, é por fundar-se nas propriedades intrínsecas de uma entidade metafísica inexistente, a linguagem, enquanto a das Investigações parece decorrer apenas das propriedades contingentes de uma entidade empírica, a linguagem tal como efetivamente usada. 17. Saber se há uma ou várias filosofias de Wittgenstein depende do destino da distinção entre dizível e mostrável nas obras posteriores e de saber se se pode extrair de suas observações uma doutrina mística, cujo uso do termo combina elementos tradicionais e um elemento original, sendo o misticismo definido por Russell por quatro crenças, na revelação ou intuição oposta à razão, na unidade fundamental da realidade, na irrealidade do tempo e na irrealidade do mal, crenças que constituem erro enquanto doutrina, mas sabedoria insubstituível enquanto maneira de sentir. 18. Traços dos quatro elementos de Russell encontram-se facilmente no Tractatus, pois o místico liga-se ao que só pode ser sentido ou mostrado, como os problemas da vida intocados pelas respostas científicas, o sentimento do mundo como todo limitado aproxima-se da crença na unidade da realidade, a sabedoria é definida como visão sub specie aeterni e vida no presente, e o bem e o mal são atributos do sujeito e não do mundo, devendo-se ainda incluir no misticismo do Tractatus o solipsismo. 19. Das observações de Russell decorrem quatro questões, sobre se esses elementos caracterizam o misticismo, se marcam uma orientação única, se estão presentes em Wittgenstein e se nele se organizam numa doutrina, sendo a terceira delicada porque o atomismo lógico de Russell e Wittgenstein pode ser interpretado como reação extremista do entendimento analítico contra o misticismo das filosofias monistas, atomismo que, contra a lógica hegeliana, afirma a existência de muitas coisas separadas e a legitimidade da análise. 20. O postulado de atomicidade nega o axioma das relações internas, princípio lógico das teorias monistas que implica uma única proposição atribuindo um único predicado a um único sujeito, ao passo que a doutrina das relações externas afirma que uma verdade isolada pode ser inteiramente verdadeira e que todo conhecimento repousa em verdades desse gênero. 21. No Tractatus não poderia haver verdade alguma sem verdades elementares resultantes de uma correspondência direta entre linguagem e realidade, nem proposição significante sem signos simples e proposições completamente analisadas, pois a exigência de signos simples é a exigência da determinação do sentido e, se o mundo não tivesse substância, o sentido de uma proposição dependeria da verdade de outra e seria impossível traçar uma figuração do mundo. 22. Ainda que não se possa dar nenhum exemplo concreto de proposição elementar, sua introdução é fundamental para a compreensão de todas as outras, sendo não só necessária mas também suficiente em virtude do postulado de extensionalidade, já que compreender uma proposição é conhecer suas condições de verdade, isto é, saber de quais proposições elementares ela é função de verdade e quais atribuições de valores a verificam. 23. O mundo estaria completamente descrito pela lista de todas as proposições elementares com a indicação das verdadeiras e das falsas, e não há intermediário entre sentido completamente determinado e ausência de sentido, de modo que uma proposição complexa que pretendesse dizer algo irredutível às elementares nada diria, pois, devendo ter sentido independentemente dos fatos, não pode versar irredutivelmente sobre complexos, cuja existência é sempre um fato acidental. 24. Devem existir proposições sobre coisas simples e imutáveis que exprimem apenas suas possibilidades de combinação, cuja verdade e não cujo sentido implica configurações contingentes, e toda proposição sobre complexos deve ser analisável sem resto em proposições elementares, pois do contrário seu sentido dependeria da verdade de outra proposição, cujo sentido dependeria de outra, numa regressão ao infinito. 25. Essas considerações limitam estritamente o dizível, já que toda proposição que quisesse significar mais do que as possibilidades de verdade das elementares não teria sentido determinado, e como Wittgenstein identifica o conhecimento do sentido com o das condições de verdade, a exigência de análise completa e a de extensionalidade coincidem, de modo que as proposições sobre o mundo como totalidade, isto é, as proposições metafísicas, carecem de sentido por não terem condições de verdade, pois uma proposição com sentido sobre o mundo ainda descreveria o que se passa no mundo, que é tudo o que é o caso. 26. Proposições como há ao todo n objetos no mundo carecem de sentido não pela impossibilidade de enumerar os objetos, mas porque objeto é um pseudoconceito que só pode ser expresso por uma variável, de modo que é impossível dizer há tantos objetos pela mesma razão que é impossível dizer há objetos, já que o fato de algo cair sob um conceito formal não pode ser expresso por uma proposição, mostrando-se no próprio signo, e nada se pode dizer sobre o grau de complexidade da substância do mundo. 27. Tampouco se pode dizer algo sobre a natureza das configurações dos objetos, pois as formas lógicas são desprovidas de número, não havendo em lógica números privilegiados nem, portanto, monismo ou dualismo filosóficos, e embora se admita que o mundo poderia ser infinitamente complexo sem invalidar o postulado dos objetos e estados de coisas, a questão de saber se a realidade é no fundo simples ou complexa não é questão alguma, pois exigiria dizer o que os símbolos só podem mostrar. 28. Quando o místico é definido como o sentimento do mundo como totalidade limitada, a palavra decisiva é limitada e não totalidade, consistindo o misticismo na imposição de um limite indizível à realidade, pois as possibilidades da linguagem terminam nos limites do mundo e vice-versa, de modo que apreender o mundo como totalidade limitada é reconhecer que a última palavra não é dita pelo que a linguagem permite dizer embora nada mais se possa dizer, sendo os limites do mundo os limites da factualidade e o que lhes é exterior o sentido ou o valor. 29. Se o mundo é a realidade analisada distributivamente em fatos e a realidade é o mundo organizado coletivamente num todo, a análise é necessariamente real por ser condição de todo discurso significante, enquanto a síntese é totalmente virtual, pois os objetos só podem ser nomeados e não descritos, e nada se pode enunciar sobre o que todo mundo possível tem de comum com o real, a forma estável ou substância, mas apenas descrever as configurações contingentes em que os objetos entram. 30. Apesar do elemento místico, a filosofia do Tractatus é um pluralismo absoluto no sentido de Russell, para quem não há proposições cujo sujeito seja o universo, pois existem propriedades que pertencem a cada coisa separada, mas não propriedades da totalidade das coisas tomadas coletivamente, afirmando-se uma pluralidade de coisas e negando-se um todo composto por elas. 31. Wittgenstein afasta-se de Russell, que identifica a filosofia com a lógica e lhe atribui a tarefa de formular verdades lógicas e enumerar formas lógicas, tarefas que do ponto de vista do Tractatus só podem ser mostradas, mas sua ontologia não deixa de ser factualista e atomista, com pressupostos e limites determinados. 32. Devem existir fatos elementares, os estados de coisas, cuja existência decorre de uma necessidade lógica. 33. Os fatos elementares são independentes entre si, de modo que duas proposições dependentes não podem ser ambas elementares, já que deve haver, sob pena de regressão ao infinito, proposições que sejam funções de verdade de si mesmas, elementos iniciais aos quais se aplica recursivamente a operação única da negação conjunta, sendo equivalente dizer que esses elementos existem e que são independentes. 34. Nada se pode dizer, contudo, sobre a natureza e o número dos fatos elementares, pois que algo seja um fato elementar só se mostra no fato de que o signo da proposição que o descreve é uma concatenação de nomes, o que retira interesse à debatida questão de saber se os objetos são dados sensoriais ou pontos materiais e revela que as condições impostas à linguagem são ao mesmo tempo exorbitantes e puramente formais, tendo Wittgenstein mais tarde considerado inquietante a impossibilidade de dar qualquer exemplo de proposição elementar. 35. O universo do Tractatus é cinematográfico num sentido muito mais radical que o de Russell, para quem o cinema é melhor metafísico que o senso comum, já que cada homem, mesa ou astro é uma série de entidades passageiras ligadas pela continuidade e por leis causais, dividindo-se a realidade em corpúsculos temporais como se divide em corpúsculos espaciais. 36. A teoria da proposição-figuração exige uma decomposição da realidade em partículas elementares tanto no espaço quanto no tempo, pois a proposição é sempre um fato estático cujos nomes só podem ter referência se objetos e arranjos persistirem por um instante indivisível, de modo que a linguagem só pode fotografar configurações transitórias e não representar a passagem de uma a outra, tornando sem sentido as proposições sobre fenômenos cinemáticos e levando à conclusão de que, se os estados de coisas forem físicos, a teoria pictórica não pode ser verdadeira. 37. Embora a temporalidade figure entre as formas dos objetos, o que levou Griffin à noção obscura ou contraditória de objetos temporais, a ontologia do Tractatus implica na prática a eliminação da dimensão temporal, configurando um universo inteiramente atomizado no espaço e no tempo, sem lugar para continuidade e movimento, sem acontecimentos e sem história. 38. Como um estado de coisas existente, para ter interpretação física, deve existir num ponto do espaço e do tempo, a totalidade dos estados existentes num momento determina apenas um estado do mundo, e se cada partição dos estados possíveis em existentes e inexistentes determina um mundo possível, o mundo temporal só pode ser analisado como a substituição de uma configuração contingente da substância por outra, isto é, como as sucessivas ocupações do espaço lógico pela realidade, sem que nada aconteça propriamente no espaço lógico. 39. As possibilidades de ocorrência dos objetos em estados de coisas são determinadas apenas por sua forma lógica e não por necessidade física, não havendo nexo causal entre fenômenos nem estado de coisas inevitável ou excluído por outro, de modo que tudo o que é logicamente possível é possível, fora da lógica tudo é acidente, o mundo histórico é uma sucessão de acasos e cada estado momentâneo do mundo é em si mesmo um mundo autônomo. 40. Ser no tempo é uma propriedade formal da coisa temporal, como ter cor para a mancha no campo visual, sendo espaço, tempo, cor e som sistemas de relações possíveis inerentes às possibilidades de combinação dos objetos, que em si carecem de propriedades espaciais, temporais ou cromáticas, e como no Tractatus não há lugar para leis causais nem fenômenos dinâmicos, é lícito supor uma teoria implícita da idealidade do tempo como elemento do misticismo de Wittgenstein, embora a problemática da temporalidade esteja quase ausente da obra, omissão talvez feliz, pois o atomismo lógico dificilmente resistiria a essa prova. 41. A independência dos fatos elementares é contrabalançada pela interdependência dos objetos, cujo sistema estruturado constitui o espaço lógico e deve dar conta de todas as formas observadas, mas nada se pode enunciar sobre o modo real de estruturação dos fenômenos, pois as formas lógicas elementares só se veriam numa notação analítica ideal que não se pode conjecturar a priori nem buscar, já que a lógica não pode decidir o que deve ser decidido por sua aplicação, restando apenas afirmar que essas formas existem necessariamente, como mostram os obstáculos encontrados nas Observações sobre a Forma Lógica de 1929. 42. O Tractatus não é místico no sentido de responder se a realidade é no fundo una ou múltipla, temporal ou intemporal, pois não pode dar sentido a tais questões, aproximando-se do misticismo de Russell apenas pela necessidade de unidade, simplicidade e uniformidade, a busca da essência, que Wittgenstein condenaria mais tarde, sendo o ponto decisivo de seu misticismo não atribuir a priori uma propriedade à realidade, mas atribuir-lhe um limite, isto é, que ela não seja tudo. 43. O problema fundamental do Tractatus é o da essência do mundo, que se confunde com a questão das condições a priori que o mundo deve satisfazer para que haja proposições com sentido, e a obra impõe ao mundo a ordem requerida sem fazer mais do que postulá-la, sem diretrizes para uma análise que a faça aparecer, sendo no fundo uma obra de metafísica dogmática na mais pura tradição, e o que Wittgenstein lhe censurará será justamente ter tido exigências a priori em relação à realidade. 44. Dizer que a realidade está compreendida em certos limites não diz nada de particular sobre ela nem evoca a oposição entre ser e aparência ou os outros mundos da metafísica e da religião, pois a limitação do mundo não diz respeito ao como do mundo, sendo a mesma coisa dizê-la inexprimável e dizê-la alheia à maneira de ser do mundo, de modo que não há duas realidades, a realidade não é limitada por nada de real e seus limites só podem ser sentidos, mas realmente o podem. 45. Para além dos elementos tradicionais, o elemento original do misticismo do Tractatus é a ideia de que a forma que a linguagem deve ter em comum com o que representa não pode ser representada na linguagem, o que levanta o problema de saber se misticismo e inefabilismo se identificam, caso em que lógica, ética e estética, todas inexprimíveis, estariam em relação direta com a dimensão mística. 46. Contra Favrholdt, que nega qualquer conexão entre ética e místico no Tractatus, a Conferência sobre Ética mostra que essa conexão é estreita, pois liga a atitude ética e estética à experiência da existência mesma do mundo, ao fato de que ele é e não a como ele é, experiência que também está no fundamento da lógica, que não precisa da experiência de que algo é assim, mas de que algo é, o que precisamente não é uma experiência. 47. O pressuposto da existência de um mundo é o da existência dos objetos, que constituem o espaço lógico e determinam ao mesmo tempo a existência e a essência do mundo, mas sobre os quais nada se pode enunciar, nem mesmo que existem, de modo que o místico é também o fato indizível da existência dos objetos, correspondendo à oposição entre o ser-tal e o ser-aí das coisas a oposição entre configuração acidental e substância imutável, sendo os objetos apenas um espaço de possibilidades, a forma do mundo, mas não um mundo, que é a totalidade dos fatos e não das coisas. 48. A visão do mundo sub specie aeternitatis pode ser aproximada de uma visão do mundo sob o aspecto do objeto, e a felicidade, indiferença total ao acidente, seria metaforicamente a vida no eterno presente dos objetos fora da factualidade, havendo assim estreita relação entre ontologia e ética, embora seja difícil dizer em que sentido específico cada elemento inexprimível o é e como se articulam, o que pode dar a impressão de que Wittgenstein povoou uma esfera do inexprimível, estabelecida por dentro, com elementos schopenhauerianos díspares cujo único traço comum é a exclusão do dizível. 49. O elemento místico mantém com a linguagem uma relação incomum, pois enquanto a indizibilidade mística é tradicionalmente atribuída a uma insuficiência da linguagem, em Wittgenstein nenhuma linguagem pode ser linguagem sem possuir plenamente a essência de toda linguagem, e o místico não está fora das possibilidades de expressão da linguagem tal como é, decorrendo imediatamente da existência mesma de possibilidades de expressão, já que a primeira coisa que a linguagem não pode dizer é o fato da linguagem, a aptidão de certos fatos para figurar outros. 50. O misticismo tradicional supõe que falta algo a ser dito quando a linguagem disse tudo o que pode dizer e que se poderia falar da realidade sem passar pela linguagem para afirmar que ela não a esgota, o que Wittgenstein nega ao proibir toda confrontação global entre os recursos da linguagem e os da realidade, pois as propriedades que permitem a uma linguagem dizer tudo o que pode ser dito não podem ser ditas por ela nem por nenhuma outra, de modo que não se pode falar do que pode ser dito, apenas dizê-lo. 51. O misticismo habitual trata linguagem e mundo como entidades definíveis em intensão, capazes de ser sujeitos de proposições atributivas, mas à pergunta sobre o que é o mundo só se pode responder enumerando os estados de coisas existentes, e sobre o que é a linguagem, enumerando as proposições elementares, de modo que se pode pôr a soma mas não formular o resultado, como numa vida comparável a um cálculo de termos sucessivos sem conclusão, sendo mundo e linguagem termos que não designam nada por não admitirem contraste. 52. Se místico for tudo o que, para ser dito, exigiria situar-se fora dos limites da linguagem e do mundo, podem-se ligar a ele elementos tão diversos quanto a impossibilidade de uma metalinguagem, a de dizer algo sobre a essência da linguagem ou do mundo, o solipsismo e a inexprimibilidade da lógica, da ética e da estética, e embora o ético não se identifique com o místico, nem esteja fora do mundo no mesmo sentido que o lógico, relaciona-se com ele antes como espécie a gênero, termo também impróprio, já que o místico é uma pseudodesignação de uma região não vazia exterior à linguagem cuja topografia escapa, sendo pouco coerente censurar a falta de outra propriedade comum além da inexprimibilidade. 53. O Tractatus é inteiramente consagrado à destruição de um erro filosófico fundamental, o ponto de vista angélico, que consiste em pretender exprimir algo sobre o mundo de um ponto de vista exterior a ele, erro de que o solipsismo metafísico é vítima ilustre, pois para dizer que o mundo é meu seria preciso considerá-lo independentemente de ser meu, e de que o discurso metafísico e ético também deriva, devendo as elucidações do Tractatus substituí-lo pela visão correta do mundo, a do homem apaziguado e feliz, livre do palavrório e da recriminação. 54. A ilusão do ponto de vista angélico é a ilusão do filósofo, e Wittgenstein foi um filósofo de tipo novo por combatê-la do começo ao fim, mostrando, contra as filosofias que questionam o ponto de vista da linguagem como grosseiro ou inadequado, que não há ponto de vista da linguagem, que entre o possível, o pensável e o dizível não há defasagem nem comparação possível, e que não se pode ter um pé dentro e outro fora da linguagem para lamentar possibilidades de descrição de que ela estaria privada. 55. As críticas radicais da linguagem pressupõem que ela pode falar de si mesma como fala da realidade, mas a linguagem não pode descrever sua relação com o mundo, assim como não se podem considerar ao mesmo tempo o espelho e o que ele reflete, não havendo linguagem intrinsecamente privilegiada nem desfavorecida, e a dificuldade está em compreender que a impossibilidade de sair da linguagem nada tem de inquietante nem nos torna seus prisioneiros, sendo o abandono de toda suspeita sistemática contra a linguagem parte de ver o mundo corretamente. 56. Os neopositivistas lógicos aceitaram a ideia de uma linha de demarcação definitiva entre o exprimível e o inexprimível, mas julgaram que Wittgenstein a traçou no lugar errado, excluindo demais, e se aceitaram o silêncio quanto à metafísica, à ética e à estética, resolvido por uma teoria emotivista, não se resignaram ao elemento essencial do misticismo de Wittgenstein, a impossibilidade de uma metalinguagem. 57. Carnap julga ter refutado o Tractatus ao mostrar que a sintaxe de qualquer linguagem pode ser formulada com sentido numa metalinguagem adequada, que pode ser a própria linguagem, mas a questão não reside na hierarquia aberta de linguagens cada vez mais ricas, pois para Wittgenstein não há metalinguagem porque a linguagem nunca pode tornar-se objeto para a linguagem, não havendo linguagem-objeto. 58. Isso parece incrível, pois é evidente que se constroem proposições sobre proposições, mas o que se contesta não é uma geometria do simbolismo, e a distinção entre signo e símbolo permite que o signo proposicional, sendo um fato, seja representado por outro fato mediante uma relação projetiva adequada, ao passo que a proposição, que é o signo proposicional em sua relação projetiva com o mundo, não pode ser representada por nenhuma outra, já que um fato pode dizer que as coisas são assim, mas nenhum fato pode dizer que ele o faz. 59. Que uma proposição só possa mostrar seu sentido e nunca dizer o sentido de outra decorre da tese de extensionalidade, pois uma proposição sobre outra exigiria que esta figurasse de outro modo que como argumento de verdade, e da teoria da figuração, pois uma proposição só pode ter o sentido de outra sendo idêntica a ela e não pode representar ao mesmo tempo o signo de p, o fato possível descrito e o fato de que este é descrito por p, de modo que nada mais se pode dizer sobre o sentido de uma proposição do que ela mostra, nem há mais o que dizer, sendo a metalinguagem não apenas impossível, mas supérflua. 60. Embora a comunidade de forma lógica entre proposição e fato seja obscura no Tractatus, é claro que no que permite a um fato representar outro há um elemento irrepresentável, a forma da realidade necessária tanto para representar quanto para ser representado, a forma geral da factualidade, que não pode ser descrita na linguagem mas é exibida de uma vez por todas na forma geral da proposição, forma que toda proposição e todo fato devem possuir. 61. Que haja uma forma geral da proposição decorre da necessidade de que todas as formas proposicionais possam ser previstas a priori, construídas a partir das elementares com um único signo primitivo, a negação conjunta, de modo que a lógica pode pôr em contato com uma forma simples inédita, mas não com uma forma complexa imprevista, pois do contrário haveria novidade na própria lógica e não se teria certeza a priori de que o mundo pode ser descrito completamente pela linguagem, razão pela qual também as constantes lógicas não representam nada. 62. A forma geral da proposição é a essência da proposição e, portanto, a essência de toda descrição e do mundo, que toda proposição indica sem que nenhuma possa descrevê-la, expressão da existência de fatos em geral, as coisas são assim e assim, podendo ser identificada ao Deus do Tractatus e ligada à experiência mística da existência de algo, descritível nas pseudoproposições de que há fatos, há linguagem e há algo a dizer, pois descobrir as condições de toda linguagem, as condições de representabilidade da realidade e as propriedades essenciais da realidade é uma só e mesma coisa. 63. A tese da inexprimibilidade da sintaxe lógica não é invalidada pela hierarquia de linguagens, que é precisamente a possibilidade que ela exclui, e uma consequência central do Tractatus é que pode haver diferentes simbolismos, mas não diferentes linguagens, concepção monista que Wittgenstein abandonará num sentido, denunciando o desejo de impor à linguagem estrutura unitária como superstição filosófica, e manterá em outro, conservando explicitamente, em sentido diferente, a tese da impossibilidade de uma metalinguagem. 64. Cabe à gramática, no sentido particular de Wittgenstein, refletir a essência do mundo, suas propriedades formais, que podem ser expressas em proposições gramaticais desprovidas de conteúdo por não admitirem negação com sentido, de modo que a lógica do mundo se representa na lógica da linguagem e de nenhuma outra maneira, não havendo metalinguagem em que se confrontem as restrições gramaticais com necessidades extralinguísticas ou se denuncie um efeito de linguagem, ponto em que as Investigações permanecem fiéis ao misticismo linguístico do Tractatus. 65. A impossibilidade de uma metalinguagem não implica uma concepção mística, no sentido tradicional e inquietante, do funcionamento da linguagem, como se interviesse uma intuição ou visão particular, pois o Tractatus sugere que a linguagem mostra o que não pode dizer sobre si mesma simplesmente por sua utilização, já que o que não se exprime nos signos sua aplicação mostra, o símbolo se reconhece no uso com sentido e um signo não usado é desprovido de significação. 66. Embora a aplicação e o uso do Tractatus difiram sensivelmente do uso das Investigações, a distância entre a concepção imagista e a concepção instrumental é menor do que se pensou, pois ao dizer que a linguagem só pode mostrar certas coisas Wittgenstein exprimiu uma ideia simples e exata à qual nunca deixou de voltar, a de que a compreensão linguística não pode ser obtida inteiramente por meios linguísticos. 67. A impossibilidade de uma metalinguagem explica a mais curiosa das teses inefabilistas, a da indizibilidade da lógica, que não tem objeto por não haver discurso metalógico, excluindo-se uma teoria da inferência, pois o sentido de uma proposição deve ser reconhecível nela mesma e as relações lógicas ficam inteiramente determinadas com a determinação do sentido, mostrando-se apenas na relação interna entre as formas das proposições, de modo que são as próprias proposições, e não leis de inferência como as de Frege e Russell, que justificam a inferência. 68. A demonstração do lógico é apenas um expediente mecânico para fazer aparecer propriedades internas dissimuladas por uma notação inadequada, equivalendo a uma mudança de notação, e a rejeição da teoria da inferência funda-se no Tractatus numa concepção extremamente realista das propriedades lógicas, que existem a priori e se leem no simbolismo, ao passo que mais tarde Wittgenstein a rejeitará por razões quase inversas, negando que se deduza q de p porque q se segue de p na realidade e vendo apenas uma transição regulamentar no jogo de linguagem da inferência. 69. Toda dedução ocorre a priori, pois se se pudesse descobrir a posteriori que q se deduz de p, descobrir-se-ia depois que o sentido de q está contido no de p, e enquanto a Sintaxe Lógica de Carnap formaliza a teoria da significação na medida em que formaliza a da dedução, definindo o sentido pelo conteúdo lógico, o Tractatus afirma que não há teoria da significação nem da dedução, pois toda proposição deve mostrar inteiramente seu sentido, suas propriedades e suas relações lógicas. 70. Na lógica não se exprime o que se quer pela escolha de uma linguagem ou cálculo, como em Carnap, mas é a natureza do simbolismo naturalmente requerido que exprime algo, pois só o elemento não arbitrário de todo simbolismo tem expressão lógica, ligada ao mundo por pressupor que nomes tenham significado e proposições elementares tenham sentido, isto é, que haja um mundo e a linguagem, de modo que se pode dizer que o místico é a existência da lógica, experiência contraditória da contingência radical do necessário, cujo conteúdo ético consiste em ser também uma interrogação que não é uma interrogação. {{tag>Bouveresse Wittgenstein misticismo lógica Tractatus}}