====== 0.1 Prefácio ====== //BOUVERESSE, Jacques. La parole malheureuse: De l'alchimie linguistique à la grammaire philosophique. Paris: Éditions de Minuit, 1971.// **Prefácio** 1. A gramática confere à linguagem a liberdade necessária para representar o mundo, mas a concordância entre linguagem e realidade não pode ser representada pela própria linguagem, pois somente se pode dizer aquilo que também poderia ser concebido de outra maneira, e não existe uma forma alternativa do mundo que permita confrontá-la com a nossa. 2. A linguagem não pode expressar a essência do mundo nem delimitá-lo sobre um fundo exterior, porque sua própria capacidade de significar procede do mundo e não permite representar algo inteiramente alheio a ele. 3. A insatisfação filosófica com as possibilidades da linguagem comum conduz à tentativa de ampliar artificialmente a liberdade das palavras, produzindo um discurso que, afastado de suas funções efetivas, substitui o funcionamento significativo por uma agitação verbal sem finalidade. 4. A pretensão neopositivista de eliminar as ilusões verbais mediante uma regulamentação rigorosa da linguagem confunde o funcionamento de um instrumento real com o esquema de uma máquina ideal, cuja perfeição decorre justamente de não precisar funcionar em condições efetivas. 5. A fala filosófica é infeliz tanto pela insegurança que a obriga a justificar continuamente seu direito de existir quanto pela possibilidade de ser constitutivamente inadequada, expressando a desorientação de quem se tornou estrangeiro na própria linguagem sem perceber essa condição. 6. A crítica de Wittgenstein ao mito de outra linguagem reconhece que a linguagem existente governa o ser humano tanto quanto lhe serve de instrumento, de modo que transformá-la exige modificar também a história natural e as formas de vida que nela se exprimem, enquanto a liberdade filosófica de falar fora dos usos efetivos permanece meramente formal e vazia. 7. Os problemas filosóficos de Deus, da significação, dos objetos matemáticos, do infinito e da alma revelam infortúnios da linguagem que exigem consideração rigorosa, pois a transformação inadvertida do uso normal das palavras em jogos verbais pode produzir equívocos mais importantes que os enunciados habitualmente considerados sérios. 8. Os estudos redigidos entre 1967 e 1970, alguns anteriormente publicados e posteriormente revistos, apresentam uma unidade temática e metodológica sem constituir um discurso sistemático, preservando mudanças de perspectiva e interpretações iniciais de Wittgenstein cuja insuficiência decorre mais de avaliações parciais e pouco nuançadas que de erros propriamente ditos. 9. A investigação filosófica orienta-se pela clarificação e pela compreensão antes da crítica e do julgamento, sem pretender constituir uma doutrina nem aceitar como obrigatória a oposição entre a análise de Russell e Carnap e a filosofia da linguagem comum, cuja prática concreta revela compatibilidades e exige um exame mais cuidadoso do que os diagnósticos sumários frequentemente dirigidos a essas tradições. 10. A finalidade principal consiste em tornar mais conhecidos no meio filosófico francês autores e problemas já familiares em outros contextos, facilitando o acesso a obras simultaneamente desprezadas e temidas e contribuindo para um campo negligenciado da história da filosofia contemporânea. {{tag>Bouveresse Wittgenstein}}