====== Invenção do Novo ====== //[[https://artepensamento.ims.com.br/item/a-invencao-do-novo/|Adauto Novaes, Artepensamento 1992]]// 1. A riqueza das experiências e interpretações do tempo ao longo da história, que vai da distinção entre tempo sagrado e profano descrita por Mircea Eliade, passa pela exclusão platônica do tempo da ordem da eternidade, pelas três stasis de Aristóteles, pela distentio animae de santo Agostinho, pela subjetivação kantiana e pelo tempo matemático moderno, e chega ao primado heideggeriano do futuro, torna precária e antecipadamente anacrônica qualquer tentativa de definição exaustiva. 2. A relação entre tempo e história, a última a se impor à consciência filosófica, adquire pela primeira vez densidade ontológica em Hegel, cuja teodiceia funde história, tempo e Deus num processo homogêneo que a crise da metafísica logo revelaria como desfiguração do processo histórico, abrindo espaço próprio ao tempo histórico. 3. O foco recai sobre a categoria do novo em Marx, cuja melhor introdução, depois dos ensinamentos da revolução burguesa, encontra-se na filosofia hegeliana, objeto de três breves observações preliminares. 4. Hegel demonstra singular deferência aos novos tempos, percebendo a transformação de todas as relações e a multiplicação das necessidades, e estende essa sensibilidade a detalhes cotidianos como o jogo de cartas, em que o entendimento e a paixão se entrelaçam, antecipando as interpretações de Brecht sobre o esporte e revelando o fascínio da novidade na vida comum. 5. Hegel critica o próprio princípio do mundo moderno, a liberdade da subjetividade, por julgá-la abstrata e esvaziada, e, movido pela nostalgia da unidade substancial grega entre natureza e espírito, aceita a novidade moderna apenas com reservas que fazem do nascimento de um homem novo uma aparência a ser superada. 6. Residindo o cerne da dialética na aceitação do outro, tema acolhido pelo Platão maduro ao incluir o movimento, o não-ser e o outro entre as categorias supremas e ao misturar o mesmo e o outro na alma do mundo no Timeu, esquecido pela tradição metafísica e retomado por Hegel sem escapar à redução do outro à aparência, a transferência marxiana do peso ontológico da totalidade para a contradição resgata a alteridade em seu estatuto próprio e fundamenta o novo. 7. A ruptura aprofundadora de Marx em relação a Hegel, que só podia pensar a situação nova dentro do idealismo metafísico, reconhece no homem burguês um homem novo, porém não suficientemente novo nem universal, exigindo uma ruptura mais radical e elevando o novo à condição de categoria, isto é, de nome mais geral que organiza a inteligibilidade do discurso. 8. Embora inexista em Marx uma teoria do novo ou qualquer intenção de elaborá-la, essa categoria perpassa todo o seu pensamento, sendo mais decisiva a súbita vigência histórica do novo do que sua tematização explícita, e tal ausência não constitui lacuna, assim como não a constitui o ensaio prometido e jamais escrito sobre a dialética. 9. A importância do novo no pensamento de Marx evidencia-se na intromissão constante do adjetivo em sua linguagem, como na análise do processo de trabalho e da reprodução, na qual os produtores, ao modificarem as condições objetivas, transformam a si próprios e criam novas qualidades, forças, representações, meios de comunicação, necessidades e linguagem. 10. A força do novo manifesta-se mesmo quando o adjetivo não aparece, seja na relação em que o consumo cria a necessidade de nova produção, seja na comparação em que o pior arquiteto se distingue da melhor abelha por construir a célula na cabeça antes de realizá-la na cera. 11. Projetar antes de realizar não constitui ato particular e excepcional, mas distinção constitutiva da condição humana, à qual pertence essencialmente o inovar. 12. Na distinção basilar entre natureza e história, o homem, embora natureza de ponta a ponta, é também e originariamente um ser histórico, de modo que seu advento rompe a ordem repetitiva natural e situa a origem da história não na repetição contínua da origem, mas num aqui-e-agora que reinventa desde a raiz o sentido do todo natural. 13. A primeira característica da realidade humana consiste em deixar-se determinar pelas necessidades, o que aparenta o homem ao animal, mas a ruptura com a mesmidade animal decorre de que, ao satisfazê-las, o homem cria necessariamente novas necessidades, sendo essa produção a primeira ação histórica e estando o homem inteiro na invenção do novo. 14. Ao inventário das necessidades seguem-se a família, a unidade entre modos de produção e modos coletivos de agir e, em último lugar, a consciência, que, contra o idealismo hegeliano, não existe de saída como consciência pura, pois o espírito carrega desde o início a maldição de estar aprisionado à matéria. 15. A consciência, embora essencialmente ligada aos processos sociais, não ocupa de fato o último lugar, já que a passagem da satisfação à criação de novas necessidades é impensável sem ela, e somente com a divisão entre trabalho material e espiritual ela pode imaginar-se autônoma em relação à práxis vigente. 16. A divisão entre o material e o espiritual, instalada no cerne da metafísica ocidental e fundamento do elogio grego da vida teorética, torna inteligível a definição do homem como animal racional, refletindo a separação entre o trabalho da cabeça e o da mão, que de unidos no sistema da natureza chegam a uma contraposição morta. 17. A Revolução Industrial produz a primeira crítica prática dessa separação na figura bicéfala do engenheiro, homem novo que reúne cabeça e mãos ao estudar a teoria em função da prática, mas a síntese permanece a meio caminho, pois tudo continua sob a égide da velha definição, à sombra da qual o próprio Marx desdobra seu pensamento. 18. O homem distingue-se do animal pela aptidão de apreender a relação enquanto relação, e é nessa distância mínima, aderida aos processos, mas abissal por viabilizar a transformação, entre o estar inserido na sociedade e a apreensão da relação em si mesma que medra o novo. 19. Com a revolução burguesa as potencialidades tornam-se ato e acentua-se a distinção entre repetibilidade e criação, que, mesmo sem uma teoria propriamente dita, funciona como exata fundamentação do novo enquanto categoria e mede a ruptura do pensamento marxiano com toda a tradição, cuja novidade reside no próprio modus essendi do novo. 20. A lentidão dos processos pré-modernos fazia predominar a repetição, visível no trabalho artesanal e agrícola e na arte do passado, teológica e repetitiva na forma e no conteúdo, até que o nascimento do homem moderno substituiu a imitação pela cópia, o universal concreto pela diversidade do singular e a regra do plágio pela exigência de originalidade. 21. O pensamento de Marx é o primeiro a acertar o passo com essa transformação ao conceber o homem não mais como repetidor da eternidade, mas como inventor essencialmente criativo, consumando a transferência da criação de Deus para o homem, que, produzindo, produz a si mesmo, em sintonia com o inesperado aliado Nietzsche. 22. Diante da previsível objeção de que a alienação arranca o homem de sua própria natureza criativa, cabem apenas algumas observações, sem entrar na discussão aprofundada do tema. 23. Alienação e novo não se excluem, pois o homem das sociedades alienadas é capaz de inovar e de fascinar-se pelo novo, a alienação mostra-se critério duvidoso para julgar a tragédia grega, a catedral gótica ou a maquinaria, e a atribuição das contradições da máquina apenas à sua aplicação capitalista transfere os antagonismos para a própria explicação, restando incontestável a ascensão tão intensa quanto recente do novo. 24. O surto moderno do novo vincula-se à ideia de ruptura, bandeira não exclusiva do marxismo e compartilhada pelo cientificismo de Comte, pela nova ordem de valores de Nietzsche e pelos movimentos anarquistas, num clima de época em que a categoria do novo comanda o espetáculo. 25. A alienação possui uma história que diversifica seus modos de ser, e hoje se expressa nos processos de robotização, já associados por Marx ao operário que adapta seus movimentos ao autômato e se torna órgão do trabalhador coletivo, o que exige estender à máquina a tese de que o homem, ao modificar a natureza exterior, modifica a sua própria. 26. A robotização universalizou-se a ponto de dissociar-se das estruturas do trabalho e emprestar à alienação densidade ontológica, pois, sob a tirania da dicotomia sujeito-objeto, o homem passa a comprazer-se em reduzir-se a objeto, numa nova experiência de repetição analisada por Sartre primeiro como má-fé e depois como inércia e serialidade. 27. Enquanto a alienação em Marx conserva o caráter de drama humano e preserva negativamente a densidade do homem como semente de novos horizontes, a robotização, pela passividade neutralizadora e pelo consumismo que instala o homem na repetição, faz com que ele caia fora do humano, aproximando-o do homem unidimensional de Marcuse. 28. A doutrina de Marx situa-se entre a repetição pré-industrial, de fundamento onto-teológico, e a repetição contemporânea da serialidade e da robotização, que se opõe radicalmente ao novo, convertido em exigência a priori e antídoto contra a repetição, numa contradição sem síntese possível que dá razão à dialética negativa de Adorno. 29. Marx acaba tendo razão quanto à criatividade essencial do homem, hoje inteiramente voltada à busca do novo e estendida até à infância, como mostra o contraste entre os institutos de belas-artes, presos à estética normativa de Winckelmann trazida por Grandjean de Montigny, e as escolinhas de arte que pressupõem a criança como criativa por si mesma. 30. Embora a categoria do novo e a concepção do homem criativo devessem constituir o ponto de partida de uma estética marxista, Marx, que frequentava as artes com paixão sem jamais formular uma doutrina estética, insere-se resolutamente nos mais rígidos padrões do academicismo classicizante. 31. Nos Grundrisse, de 1857, o mais longo comentário de Marx sobre arte sustenta que a dificuldade não está em ligar a arte e a epopeia gregas a certas formas de desenvolvimento social, mas em explicar por que ainda proporcionam gozo artístico e valem como norma e modelo inatingível. 32. A solução de que os gregos eram crianças normais revela-se trôpega, e o elogio da arte grega como modelo inatingível insere Marx passivamente na tradição Winckelmann-Goethe-Schiller-Hegel, no mesmo neoclassicismo que consagrou David, estertor da arte imitativa, sem o menor laivo de distância crítica. 33. A pergunta sobre a possível reação de Marx a Os comedores de batata, de Van Gogh, obra que pela primeira vez mostra a nova classe operária sem idealização e pinta a própria alienação, expõe os limites de uma estética alheia ao submundo da Revolução Industrial e ainda apegada às leis da beleza. 34. Abandonadas as ideias de modelo insuperável e de leis da beleza, o marxismo oferece premissas para duas estéticas talvez opostas, das quais apenas a do realismo social de Lukács foi desenvolvida, vinculada à estética burguesa da cópia e ao conceito de particularidade herdado de Goethe e Schiller, com limitações evidenciadas no naturalismo, na polêmica com Brecht e na estética oficial dos regimes totalitários. 35. A outra linha, uma estética fundada na categoria do novo e na criatividade, oposta ao realismo social lukacsiano ligado à repetição, permaneceu marginal e escassa nas cogitações de orientação marxista. {{tag>Bornheim novo}}