====== O “Uno” de Agrippa von Nettesheim ====== //BÉHAR, Pierre. Les langues occultes de la Renaissance: essai sur la crise intellectuelle de l’Europe au XVIe siècle. Paris: Desjonquères, 1996.// * A noção do Uno constitui o fundamento metafísico último do sistema de Agrippa de Nettesheim e organiza de modo decisivo sua concepção do real, do conhecimento e da magia. * O Uno não é concebido como um ente supremo entre outros, mas como o princípio absoluto a partir do qual toda multiplicidade deriva. * Ele precede ontologicamente toda distinção entre ser e não-ser, forma e matéria, unidade e pluralidade. * A realidade inteira só é inteligível enquanto participação diferenciada desse princípio primeiro. * A concepção agrippiana do Uno inscreve-se explicitamente na tradição neoplatônica. * O Uno é anterior a toda determinação conceitual. * Ele não pode ser apreendido por definições positivas, mas apenas por aproximações simbólicas. * Toda tentativa de descrevê-lo diretamente falha, pois a linguagem pertence já ao domínio do múltiplo. * Apesar de sua transcendência radical, o Uno não permanece separado do mundo. * A criação é compreendida como emanação ou desdobramento do Uno. * A multiplicidade não rompe com sua origem, mas conserva com ela uma relação estrutural permanente. * O mundo é uno em sua fonte e múltiplo em suas manifestações. * O Uno exerce simultaneamente uma função ontológica e uma função epistemológica. * Ontologicamente, tudo o que existe recebe do Uno sua unidade e consistência. * Epistemologicamente, toda verdade participa do Uno enquanto princípio da inteligibilidade. * Conhecer algo é reconduzir sua diversidade aparente a um princípio unitário. * A unidade do Uno garante a coesão do cosmos. * A ordem do mundo não é resultado do acaso. * Ela expressa uma racionalidade originária. * Essa racionalidade não é meramente lógica, mas ontológica e simbólica. * Em Agrippa, o Uno fundamenta a possibilidade mesma da magia. * Se o real fosse fragmentado, nenhuma ação à distância seria possível. * A magia pressupõe a continuidade do ser. * O Uno assegura essa continuidade ao manter todas as coisas ligadas por uma origem comum. * A operação mágica consiste em agir segundo a estrutura do Uno. * O mago não cria novas forças. * Ele explora a unidade subjacente do real. * A eficácia mágica deriva da conformidade com o princípio unitário do mundo. * O Uno manifesta-se no mundo por mediações. * As formas, os números, os astros e os nomes são expressões diferenciadas da unidade originária. * Nenhuma dessas mediações esgota o Uno. * Cada uma participa dele segundo seu grau. * A linguagem simbólica é indispensável para falar do Uno. * O discurso puramente conceitual é insuficiente. * Símbolos geométricos, números e imagens tornam-se necessários. * O símbolo não descreve o Uno, mas o torna parcialmente presente ao intelecto. * O Uno é também princípio de hierarquia. * Quanto mais próximo da unidade, mais elevado é o nível do ser. * A multiplicidade crescente indica afastamento do princípio. * A hierarquia do cosmos reflete graus de participação no Uno. * O retorno ao Uno constitui o movimento fundamental do conhecimento. * O intelecto parte da multiplicidade sensível. * Ele busca progressivamente a unidade que a sustenta. * O saber culmina na intuição da unidade originária. * Essa concepção confere ao saber um caráter espiritual. * Conhecer não é apenas informar-se. * É ordenar o múltiplo segundo o Uno. * O conhecimento transforma o sujeito ao reconduzi-lo à sua origem. * O Uno agrippiano situa-se no ponto de interseção entre filosofia, teologia e magia. * Ele fornece o princípio metafísico da realidade. * Fundamenta a possibilidade do conhecimento verdadeiro. * Justifica a eficácia da operação mágica. * Ao mesmo tempo, essa centralidade do Uno carrega uma ambiguidade estrutural. * A mesma unidade que fundamenta a contemplação pode ser instrumentalizada. * O princípio metafísico pode converter-se em princípio de poder. * A tensão entre sabedoria e dominação atravessa toda a metafísica de Agrippa. {{tag>Agrippa Renascença uno}}