====== Anjos segundo Agrippa ====== //BÉHAR, Pierre. Les langues occultes de la Renaissance: essai sur la crise intellectuelle de l’Europe au XVIe siècle. Paris: Desjonquères, 1996.// * A concepção dos anjos em Agrippa marca uma inflexão decisiva em relação à angelologia cabalística de Reuchlin. * Os anjos deixam de ser pensados prioritariamente como mediadores contemplativos da ordem divina. * Passam a ser integrados de modo explícito ao sistema operativo da magia. * Agrippa não admite uma natureza puramente mística dos anjos. * O interesse pelas esferas superiores não visa a elevação espiritual desinteressada. * O conhecimento dos anjos orienta-se para a apropriação de seus poderes. * A angelologia assume um caráter funcional e instrumental. * A curiosidade de Agrippa pelos espíritos superiores intensifica-se em contraste com a prudência de Reuchlin. * A expectativa de acesso aos poderes angélicos conduz a uma sistematização ampliada das hierarquias. * O De Occulta Philosophia apresenta listas extensas de anjos, muitas delas ausentes ou apenas sugeridas em Reuchlin. * Essas listas são recolhidas de fontes diversas e integradas sem exame crítico rigoroso. * Os anjos são associados diretamente às estruturas astrológicas. * Cada esfera celeste é governada por inteligências angélicas. * Os anjos presidem aos planetas, aos signos do zodíaco e aos elementos. * A ordem cósmica é concebida como uma administração espiritual contínua. * A distinção entre anjos bons e maus perde clareza sistemática. * Agrippa mantém formalmente a oposição entre anjos benéficos e espíritos malignos. * Contudo, ambos são integrados ao mesmo campo de operações mágicas. * A diferença torna-se sobretudo pragmática, relacionada aos efeitos produzidos. * A invocação angélica é tratada como técnica. * O uso dos nomes angélicos visa provocar efeitos concretos no mundo. * A eficácia depende da correta combinação de nomes, letras, tempos astrológicos e disposições do operador. * A linguagem assume um papel performativo absoluto. * Agrippa multiplica os sistemas angélicos. * Além das hierarquias tradicionais, incorpora anjos associados aos setenta e dois nomes. * Introduz correspondências entre anjos e regiões do mundo, ventos, direções e horas. * O sistema torna-se expansivo e potencialmente infinito. * A angelologia agrippiana resulta num deslocamento da Cabala. * O eixo passa da teologia simbólica para a magia prática. * O anjo deixa de ser mediação da ordem divina para tornar-se operador do mundo. * A relação entre homem e anjo assume um caráter de manipulação recíproca. * Essa transformação acarreta consequências teóricas profundas. * A distinção entre religião, magia e superstição torna-se instável. * A prática cabalística perde seu fundamento estritamente teológico. * A angelologia converte-se em um dos pontos mais ambíguos e perigosos do sistema. * Em Agrippa, os anjos já não conduzem prioritariamente à contemplação do divino. * Eles se inserem numa economia do poder espiritual. * A magia torna-se o meio de acesso privilegiado às esferas superiores. * A angelologia culmina, assim, numa visão da linguagem e do rito como instrumentos de domínio do real. {{tag>Agrippa Renascença anjos}}