====== O surgimento do “eu” transcendental. (SE:C2) ====== RA1965 O problema da consciência de consciência, quer dizer, da consciência autointensificadora de si, coloca-se de uma forma geral em ligação com o da interiorização consciencial de toda ciência separada ou objetiva transfigurando-se em conhecimento inefável. Quando, na atitude natural que é a da totalidade dos existentes, vejo uma casa, minha percepção é espontânea, é essa casa que percebo, não minha percepção mesma. Ao contrário, na atitude transcendental, é minha percepção mesma que é percebida. Mas Husserl tem razão ao fazer notar que essa percepção de minha percepção altera radicalmente o estado primitivo. A fenomenologia husserliana opõe-se aqui absolutamente à fenomenologia cartesiana e a subverte ao cumpri-la. O estado vivido, outrora ingênuo, perde sua espontaneidade precisamente pelo fato de que a nova reflexão toma por objeto o que era outrora estado e não objeto, e que, entre os elementos de minha nova percepção, figuram não somente os da casa enquanto tal mas os da percepção mesma enquanto fluxo vivido. E o que importa essencialmente nessa alteração é que essa espontaneidade perdida, que não foi senão uma espontaneidade primária, o produto de um reflexo, não desaparece senão para deixar lugar a uma espontaneidade segunda infinitamente melhor controlada, mais rica, mais expert, e esta presente a si, que não tem apenas o caráter de um reflexo mas de um poder. A passagem do reflexo ao poder marca tudo o que, no homem, é iniciático. É preciso restituir a esta última palavra, hoje desacreditada, o sentido revolucionário que se liga ao fenômeno capital que ela evoca: a visão concomitante que tenho nesse estado birreflexivo da casa que foi meu motivo originário, longe de ser perdida, distanciada ou obscurecida por essa interposição de minha percepção segunda diante de sua percepção primária, encontra-se paradoxalmente intensificada, mais nítida, mais vivaz, e como que carregada de mais realidade objetiva que antes. Sei, no instante mesmo, que minha visão do mundo está transtornada, e que jamais poderei contentar-me com a antiga visão ingênua. É outra casa que vejo, embora seja a mesma casa. Ela é tão diferente da antiga casa quanto a cadeira pintada por Van Gogh o é da cadeira banal que lhe serviu de modelo. Em que essa nova casa, essa nova cadeira, são outras? E sobretudo, para quem o são? Tomemos um exemplo mais preciso. Tão longe quanto remontam minhas lembranças, sempre soube reconhecer as cores, o azul, o vermelho, o amarelo. Meu olho as via, eu tinha delas a experiência latente. Decerto, meu olho não se interrogava sobre elas, e como, de resto, poderia ele colocar-se questões? Sua função é ver, não se ver em vias de ver, mas meu cérebro mesmo estava como que em sono, ele não era de modo algum o olho do olho, mas um simples prolongamento desse órgão. Assim dizia eu apenas, e quase sem nisso pensar: isto é um belo vermelho, um verde um pouco apagado, um branco brilhante. Um dia, há alguns anos, passeando pelas vinhas de Vaud que dominam em cornija o lago Léman e que compõem um dos mais belos sítios do mundo, tão belo mesmo que o Eu à força de aí ser dilatado, aí se sente dissolvido e, bruscamente, se reassume e se exalta, um evento súbito e para mim extraordinário se produziu. O ocre da encosta abrupta, o azul do lago, o violeta dos montes de Saboia, e ao fundo os glaciares cintilantes do Grand-Combin, eu os vira cem vezes, soube pela primeira vez que jamais os havia olhado. Vivia ali, no entanto, havia três meses. E essa paisagem, decerto, desde o primeiro instante, ameaçava dissolver-me, mas o que lhe respondia em mim não era senão uma exaltação confusa. Decerto, o Eu do filósofo é mais forte que todas as paisagens. O sentimento pungente da beleza não é senão um reassumir pelo Eu, que com isso se fortifica, dessa distância infinita que nos separa dela. Mas nesse dia, bruscamente, soube que eu mesmo criava essa paisagem, que ela não era mais nada sem mim: É eu que te vejo, e que me vejo ver-te, e que ao ver-me te faço. Esse grito interior é o do demiurgo por ocasião de sua criação do mundo. Ele não é apenas suspensão de um antigo mundo, mas projeção de um novo. E no instante, com efeito, o mundo foi recriado. Jamais vira tais cores. Eram cem vezes mais matizadas, mais intensas, mais vivas. Soube que acabava de adquirir o sentido das cores, que estava re-virginizado para as cores, que jamais, até ali, havia realmente visto um quadro ou penetrado no universo da pintura. Mas soube também que, por esse apelo a si de minha consciência, por essa percepção de minha percepção, eu detinha a chave desse mundo da transfiguração que não é um mundo posterior misterioso mas o mundo verdadeiro, aquele de cuja natureza nos mantém exilados. Nada de comum com a atenção. A transfiguração é plena, a atenção não o é. A transfiguração conhece-se em sua suficiência certa, a atenção tende para uma suficiência eventual. Não se pode dizer, bem entendido, que a atenção é vazia: ao contrário, ela é ávida. Mas a avidez não é a plenitude. Quando retornei à aldeia, nesse dia, as pessoas que cruzei estavam em sua maioria atentas a seu trabalho: no entanto, pareceram-me todas sonâmbulas. Em seus Fragmentos de um Ensinamento desconhecido, o filósofo russo Ouspensky narra experiências análogas: elas são para ele a base de toda transformação iniciática. É essa mesma transformação que visa o conhecimento ióguico quando fala da discriminação do espectador e do espetáculo. Essa discriminação não é natural, mas transcendental. E é um fato significativo que o homem natural, se se lhe fala desse estado, banaliza-o e o reconduz a um estado corrente de atenção do qual não retém senão a forma vazia ou a fórmula: É eu que.... Mas o Eu transcendental presente à transfiguração não é apenas uma forma gramatical, mas um conteúdo, ele não é apenas um operador sintático comum que se pode engajar em uma especulação filosófica na terceira pessoa tão bem quanto na primeira, ele é um ato voluntário absoluto e primeiro, um ato princípio onde o ser mesmo é apreendido e que transborda de imediato a crítica do conhecimento, uma experiência vivida que faz da fenomenologia husserliana não apenas uma teoria, mas uma práxis. Não se deve dizer aqui que esse ato está ao alcance de qualquer um: não é verdade. Ele permanece dependente de um certo nível gnóstico de consciência, de uma certa ascese fazendo emergir esse nível e o decapando, tornando-o corrosivo em relação ao antigo modo de visão do mundo. Os universitários que, por essência, ensinam, e têm por conseguinte necessidade de transformar toda análise em pensamento especulativo, o único que é indistintamente comunicável, tropeçam ali em um limiar. Na medida mesma em que a fenomenologia transcendental tornou-se ocupação de universitários, ela chocou-se com esse limiar, que é para ela falha existencial, e é demasiado claro que ela não o transpõe: está em sua essência não o transpor.