wolff:wolff-1997-da-imputacao
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| + | ====== DA IMPUTAÇÃO (1997) ====== | ||
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| + | WOLFF, Francis. Dire le monde. Paris: PUF, 1997 | ||
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| + | ==== A distinção crítica entre o mundo teórico das coisas e o mundo prático das pessoas ==== | ||
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| + | A compreensão teórica do mundo, articulada pelas questões «o que é?» e «por que?», revela um universo povoado por coisas que existem e eventos que sobrevêm, mas essa ontologia parece insuficiente para dar conta da dimensão prática da existência, | ||
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| + | A interrogação «quem?» compartilha com a pergunta «o que é?» a busca pela identificação de um ser dotado de realidade, determinidade e identidade, visando frequentemente um nome próprio que satisfaça a exigência de ipseidade radical que o «o que é?» ordinário falha em atingir plenamente. A resposta ao «quem?» parece fornecer o «o que é» por excelência, | ||
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| + | ==== A estrutura da imputação e a natureza híbrida da pessoa e do ato ==== | ||
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| + | O discurso prático funda-se na correlação entre sujeitos pessoais e predicados de ação, formando enunciados de imputação onde um ato é atribuído a uma pessoa como sua causa, distinguindo-se do evento natural que apenas ocorre a uma coisa. Um ato define-se, nesta perspectiva analítica, como um evento causado por uma pessoa, independentemente das modalizações adverbiais como intenção, deliberação ou livre-arbítrio, | ||
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| + | O conceito de pessoa revela-se, sob a análise crítica, como um conceito intersectivo e contraditório, | ||
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| + | Simetricamente, | ||
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| + | ==== A antinomia fundamental do discurso prático e a inconsistência ética ==== | ||
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| + | A tentativa de fundar a ética sobre a estrutura predicativa da imputação conduz a uma antinomia insolúvel, descrita como um quiasma onde as exigências da pessoa e do ato se anulam mutuamente em vez de se complementarem: | ||
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| + | Diferentemente do discurso teórico, onde a cópula «é» opera com sucesso a síntese entre elementos heterogêneos (coisa e evento) permitindo a predicação infinita, o discurso prático carece de uma cópula capaz de unificar consistentemente a pessoa e o ato; a relação de imputação exige que o sujeito seja a causa incausada de seus atos, o que viola a lógica dos eventos, e que os atos sejam predicados essenciais mas contingentes, | ||
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| + | ==== Os conceitos metafísicos de sutura: Vontade, Identidade Pessoal e Liberdade ==== | ||
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| + | A metafísica engendra conceitos híbridos específicos para mascarar a ausência de cópula no discurso prático e deter a regressão infinita das causas, sendo a Vontade o exemplo paradigmático dessa estratégia, | ||
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| + | Paralelamente à vontade, o conceito de Identidade Pessoal (elaborado por Locke) surge como o correlato prático da substância teórica, tendo a função forense de garantir que a pessoa permaneça a mesma através do tempo e da diversidade de seus atos, permitindo a punição e a recompensa. Definida pela continuidade da consciência e da memória, a identidade pessoal visa substancializar o agente para que ele possa ser o suporte permanente de atos transitórios, | ||
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| + | O conceito de Liberdade completa essa tríade de conceitos de sutura, oscilando invariavelmente entre a determinação pelo caráter (liberdade de ser quem se é, que anula a contingência do ato) e a indeterminação do arbítrio (liberdade de indiferença, | ||
