| Um belo dia, no fim do século passado, o homem mudou. Considerado à luz da Psicanálise ou da Antropologia Cultural havia cerca de trinta anos, estava sujeito ao peso das estruturas, era determinado pelas condições sociais e familiares, governado por desejos inconscientes, dependente da história, da cultura e da língua. Era, em suma, um “sujeito sujeitado”. Esse homem das Ciências Humanas e Sociais que, em meados do século, florescia no paradigma estruturalista de Lévi-Strauss, Benveniste ou Lacan, e ainda triunfava em Bourdieu, esse homem desapareceu furtivamente da paisagem. Novas ciências falavam-nos de um novo homem. Eram as Neurociências, as Ciências Cognitivas, a Biologia da evolução. O homem por elas delineado nada tinha a ver com o anterior: estava sujeito ao peso da evolução das espécies, era determinado pelos genes e dependente do desempenho do cérebro. Era, em suma, um “animal como os outros”. Passara do “homem estrutural” ao “homem neuronal”, segundo o título do marcante livro de Jean-Pierre Changeux [L’Homme neuronal]. Havia-se, como dizem, “mudado de paradigma”. Sem dúvida, para definir as condições de nossa humanidade, continuava havendo psicanalistas, linguistas ou antropólogos, mas também, a partir de então, e cada vez mais, psicólogos evolucionistas, linguistas cognitivistas e paleoantropólogos. | Um belo dia, no fim do século passado, o homem mudou. Considerado à luz da Psicanálise ou da Antropologia Cultural havia cerca de trinta anos, estava sujeito ao peso das estruturas, era determinado pelas condições sociais e familiares, governado por desejos inconscientes, dependente da história, da cultura e da língua. Era, em suma, um “sujeito sujeitado”. Esse homem das Ciências Humanas e Sociais que, em meados do século, florescia no paradigma estruturalista de Lévi-Strauss, Benveniste ou Lacan, e ainda triunfava em Bourdieu, esse homem desapareceu furtivamente da paisagem. Novas ciências falavam-nos de um novo homem. Eram as Neurociências, as Ciências Cognitivas, a Biologia da evolução. O homem por elas delineado nada tinha a ver com o anterior: estava sujeito ao peso da evolução das espécies, era determinado pelos genes e dependente do desempenho do cérebro. Era, em suma, um “animal como os outros”. Passara do “homem estrutural” ao “homem neuronal”, segundo o título do marcante livro de Jean-Pierre Changeux [L’Homme neuronal]. Havia-se, como dizem, “mudado de paradigma”. Sem dúvida, para definir as condições de nossa humanidade, continuava havendo psicanalistas, linguistas ou antropólogos, mas também, a partir de então, e cada vez mais, psicólogos evolucionistas, linguistas cognitivistas e paleoantropólogos. |