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| + | ====== Weil ====== | ||
| + | ~~NOCACHE~~ | ||
| + | Simone Weil (1909-1943) | ||
| + | //Giovanni Reale// | ||
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| + | **A Vida e as Obras** | ||
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| + | Simone Weil condensou em sua trajetória biográfica uma multiplicidade de identidades radicais — filósofa, sindicalista, | ||
| + | * Nazareno Fabbretti, em Simone Weil: irmã dos escravos, abre o livro com dois julgamentos contrastantes: | ||
| + | * Weil morreu em solidariedade real e ideal com os judeus incinerados nos campos de concentração nazistas | ||
| + | * Nasceu em Paris em 3 de fevereiro de 1909, filha de um médico alsaciano judeu e agnóstico e de mãe de origem russa | ||
| + | * Cresceu em clima de " | ||
| + | |||
| + | Durante os anos de estudo, conforme recorda o padre Joseph-Marie Perrin — que travou com ela muitos colóquios —, Weil manifestou-se vivamente antirreligiosa e entrou em contato com o movimento sindicalista e com as ideias da revolução proletária. | ||
| + | * Seu rigor era tal que chegou a romper com uma colega que se convertera ao catolicismo | ||
| + | * Atenta aos sofrimentos dos mais pobres, dividia seu salário de professora com os deserdados | ||
| + | * Em 1934, decidiu viver a condição operária: entrou para trabalhar na Renault com o intuito de " | ||
| + | * Em 1936, participou da Guerra Civil Espanhola do lado dos republicanos, | ||
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| + | Com a Segunda Guerra Mundial em 1940, Weil deixou Paris, transferiu-se para Marselha e experimentou diversas formas de perseguição e trabalho duro antes de emigrar e morrer em Londres. | ||
| + | * No Vale do Ródano, conheceu a dureza do trabalho agrícola; escreveu para os Cahiers du Sud | ||
| + | * Foi presa sob acusação de gaullismo e interrogada longamente, com ameaça de ser encarcerada junto a prostitutas — ao que respondeu ao juiz querer conhecer esse ambiente, levando-o a mandá-la embora como louca inofensiva | ||
| + | * Em 16 de março de 1942, embarcou com os pais para os Estados Unidos; em Nova York, viveu entre os mais pobres do Harlem | ||
| + | * Chegou a Londres no final de novembro de 1942 e pediu para participar de missões perigosas movida pelo desejo de se sacrificar utilmente | ||
| + | * Em abril de 1943 foi internada em hospital; transferida para o sanatório de Ashford, morreu em 24 de agosto de 1943 | ||
| + | * Suas obras apareceram postumamente, | ||
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| + | **Escravidão em Nome da Força e Escravidão em Nome da Riqueza** | ||
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| + | Em Opressão e Liberdade, Weil diagnostica o abandono total do indivíduo a uma coletividade cega, em um mundo marcado pelo desequilíbrio monstruoso entre o ser humano e as condições da vida moderna. | ||
| + | * " | ||
| + | * " | ||
| + | * A sociedade tornou-se "uma máquina para comprimir corações e espíritos e para fabricar a inconsciência, | ||
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| + | Para Weil, a história humana é história do assujeitamento dos homens, com duas formas principais de opressão — a escravidão exercida em nome da força armada e a exercida em nome da riqueza transformada em capital — e uma terceira, nova e ameaçadora, | ||
| + | * A terceira forma seria a " | ||
| + | * Diante dessa situação, Weil apela a uma obrigação eterna para com o ser humano enquanto tal, sem qualquer condição prévia: "[Este obrigação implica o dever de] restituir ao homem, isto é, ao indivíduo, o domínio que lhe cabe exercer sobre a natureza, sobre os instrumentos de trabalho, sobre a própria sociedade" | ||
| + | * É preciso atentar para a " | ||
| + | * Em vez de abolir a propriedade privada, deve-se transformá-la em instrumento de trabalho livre e associado | ||
| + | * "Não esqueçamos que queremos fazer do indivíduo, e não da coletividade, | ||
| + | * A verdadeira revolução consiste em tornar o homem fim — e não meio — da produção, estabelecendo que é a produção o meio, não o fim | ||
| + | * Em Reflexões sobre as Causas da Liberdade e da Opressão Social: "O trabalho humano deve tornar-se o valor supremo, não por sua relação com o que produz, mas por sua relação com o homem que o executa" | ||
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| + | **O que Significa ser Revolucionário** | ||
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| + | Para Weil, Marx e seus movimentos não são suficientes para alcançar as finalidades emancipatórias, | ||
| + | * A Weil afirma em Opressão e Liberdade que Marx concebeu a " | ||
| + | * O poder é força e se exerce pela força: o proletariado no poder também seria força opressora | ||
| + | * Os movimentos sociais inspirados por Marx "todos falharam" | ||
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| + | Também não é possível alinhar-se com os revolucionários que aguardam uma catástrofe feliz como cumprimento das promessas do Evangelho — posição que equivale a fatalismo e desinteresse por quem sofre no presente. | ||
| + | * "Ser revolucionário significa invocar com seus desejos e ajudar com suas ações tudo aquilo que pode, direta ou indiretamente, | ||
| + | * Assim entendida, a revolução é um ideal, um juízo de valor, uma vontade — e não uma interpretação da história ou do mecanismo social, embora pressuponha estudo sério e aprofundado da situação social | ||
| + | * "O espírito revolucionário é tão antigo quanto a própria opressão, e durará tanto quanto ela, ou até mais" | ||
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| + | **Nós Estamos aos Pés da Cruz** | ||
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| + | A libertação da opressão social não equivale à salvação do homem nem à redenção de sua infelicidade constitutiva — o infeliz é aquele que experimenta a ausência de Deus e se sente coisa indigna no vórtice da grande máquina do universo. | ||
| + | * A infelicidade é um engenhoso dispositivo da técnica divina para "fazer entrar na alma de uma criatura finita a imensidade da força cega, brutal e fria" | ||
| + | * "A distância infinita que separa Deus da criatura se concentra inteiramente em um ponto para ferir a alma em seu centro" | ||
| + | * Em O Amor de Deus, Weil escreve que a alma atingida no centro pela infelicidade "se debate como uma borboleta que é espetada viva com um alfinete num álbum" | ||
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| + | A distância entre o infeliz e Deus espelha o próprio ato criador, no qual Deus se autolimitou para permitir que o criado existisse — e a salvação exige do homem o caminho inverso: a decreação, | ||
| + | * "A criação é, da parte de Deus, um ato não de expansão de si, mas de limitação, | ||
| + | * O aniquilamento do eu ocorre na sofrimento, na humilhação, | ||
| + | * Na Cruz, nessa aparente ausência de Deus, Deus está secretamente presente: "A Cruz é a nossa pátria" | ||
| + | * É o grito de Cristo moribundo na Cruz — "Deus meu, por que me abandonastes?" | ||
| + | * "As religiões que apresentam uma divindade que exerce seu domínio onde quer que lhe seja possível são falsas. Mesmo que monoteístas, | ||
| + | * Ao mistério da Cruz (" | ||
| + | * "Em qualquer época, em qualquer país, onde quer que haja um sofrimento, a Cruz de Cristo é a sua verdade" | ||
| + | * A diferença entre o mundo — onde sabemos que existe o mal — e Deus — que é bem — reside no fato de que o Onipotente é fraco; e é essa fraqueza que exerce sobre Weil uma força avassaladora de atração | ||
| + | * Em Carta a um religioso: "Se o Evangelho omitisse qualquer referência à ressurreição de Cristo, a fé me seria mais fácil. A Cruz sozinha me basta" | ||
| + | * A prova, o verdadeiro milagre, é para ela "a perfeita beleza dos relatos da paixão", | ||
| + | * Lev Trótski — que Weil hospedou em sua casa — não podia compreendê-la: | ||
| + | * Deus, para Weil, deve ser pensado como um mendigo: " | ||
| + | * "No verdadeiro amor não somos nós que amamos os desventurados em Deus, é Deus que os ama em nós [...]. A compaixão e a gratidão provêm de Deus, e quando são transmitidas por um olhar, Deus está presente no ponto em que os dois olhares se encontram" | ||
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| + | **A Presença de Cristo** | ||
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| + | Simone Weil recusou o batismo até o fim, embora o padre Perrin afirme que ela acabou sendo batizada por sua amiga Simone Deitz, com água de torneira, no hospital. | ||
| + | * Nazareno Fabbretti observa que "seu breve, intenso, apaixonado caminho de vida e pensamento em direção ao absoluto, em direção a Cristo, teve o carisma de uma radical pobreza de sinais exteriores: o quarto de uma clínica, a água de uma torneira, uma batizante leiga" | ||
| + | * A vida de Weil consumiu-se no amor ao próximo e na espera de um sinal de Deus | ||
| + | * Em Espera de Deus escreve: "Não depende da alma crer na realidade de Deus, se o próprio Deus não lhe revela essa realidade" | ||
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| + | Em 1935, numa aldeia portuguesa de pescadores, Weil assistiu a uma procissão durante a festa do padroeiro e experimentou uma certeza fulminante sobre o caráter do cristianismo. | ||
| + | * "Ali me foi impresso para sempre o sinal da escravidão, | ||
| + | * "As esposas dos pescadores faziam em procissão o giro dos barcos segurando velas, e cantavam cantos sem dúvida muito antigos, de uma tristeza dilacerante [...]. Ali, de repente, tive a certeza de que o cristianismo é por excelência a religião dos escravos, que os escravos não podem deixar de aderir a ele, e eu com eles" | ||
| + | * Em 1937, passou "dois dias maravilhosos" | ||
| + | * Em 1938, em Solesmes, seguiu as cerimônias da Paixão e teve pela primeira vez a ideia de uma virtude sobrenatural dos sacramentos, | ||
| + | * Esse jovem — o " | ||
| + | * " | ||
| + | * "Às vezes também, enquanto recito o Pai Nosso ou em outros momentos, Cristo está presente em pessoa, mas com uma presença infinitamente mais real, mais tocante, mais clara, mais cheia de amor do que a primeira vez em que me tomou" | ||
| + | * "Nos meus raciocínios sobre a insolubilidade do problema de Deus, jamais havia previsto essa possibilidade de um contato real, de pessoa a pessoa, aqui embaixo, entre um ser humano e Deus [...]. Apenas senti, através do sofrimento, a presença de um amor análogo ao que se lê no sorriso de um rosto amado" | ||
