wahl:crise-da-ciencia
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| + | ====== Crise da ciência ====== | ||
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| + | Hoje falamos sobre uma crise na ciência, mas geralmente tentamos mais ou menos descartar a ideia dessa crise. Faremos o oposto; usaremos essa sensação de crise como ponto de partida para descobrir o que é ciência. É a explicação da crise atual que lançará luz sobre a natureza da ciência. | ||
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| + | Começaremos examinando os dois primeiros aspectos da crise. O primeiro diz respeito ao relacionamento entre o indivíduo e a ciência. Como a ciência se tornou especializada, | ||
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| + | Podemos ver em que sentido essas visões sobre a ciência podem ser vinculadas ao pragmatismo. Mas não se trata de pragmatismo, | ||
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| + | Heidegger continua ((Nessa passagem, Jean Wahl resume a palestra de Heidegger de forma bastante livre)): a reflexão sobre as duas crises [16] da ciência nos leva a pensar que é provavelmente um erro dizer que há, por um lado, a ciência e, por outro, o indivíduo (isso se refere à primeira crise), e que é um segundo erro dizer que há, por um lado, a ciência e, por outro, a cultura ou a ciência e, por outro, suas aplicações. Não há primeiro a ciência e depois, ao lado dela, o indivíduo ou as aplicações da ciência; essa relação é muito mais interna. Pode-se dizer que essa é uma forma hegeliana de pensar. Toda vez que dizemos: há essa coisa e outra que vem em cima dela, provavelmente estamos errados, porque há uma ligação mais interna do que essas fórmulas nos permitem ver. | ||
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| + | Portanto, precisamos encontrar uma concepção de ciência que mostre na própria ciência sua relação com o indivíduo e com as aplicações. | ||
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| + | A terceira crise diz respeito ao próprio edifício da ciência ((GA27, § 8, p. 35 e seguintes)); | ||
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| + | Essa crise de princípios nos mostra que a ciência se depara com limites e que está cercada por algo que precisa como ponto de partida enquanto ciência. Mas ela não consegue [17] entender ou mesmo conceber esse algo. Aqui, o pensamento de Heidegger encontra o de Jaspers, que deu grande ênfase a essa ideia do incompreensível que nos cerca. | ||
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| + | A reflexão sobre a crise imanente à ciência deve nos levar a promover o desenvolvimento da ciência o mais longe possível, até o ponto em que iremos contra os limites da ciência. Este momento a física alcançou com o princípio do indeterminismo ((Alusão ao princípio da incerteza formulado especialmente por Heisenberg, o princípio segundo o qual é impossível medir com precisão tanto a posição quanto a velocidade ou a quantidade de movimento de uma partícula)). Esse momento sempre existiu, mas hoje está mais visível do que nunca. | ||
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| + | Então, o que teremos de fazer? Não se trata de evitar essas crises ou fechar os olhos para elas, mas sim de ter força suficiente para senti-las e trazê-las à vida, para devolver à ciência o lugar no ser humano que sua essência exige. Precisamos transformar a relação entre a existência e a ciência. Podemos ver a importância que Heidegger dá à ideia de existência entendida como o modo de ser do indivíduo em sua realidade e em sua totalidade. | ||
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| + | Essa crise tripla nos mostra que há uma obscuridade sobre a relação da ciência com o ser humano, em segundo lugar, sobre sua relação com suas aplicações e, em terceiro lugar, sobre a ciência na medida em que ela é cercada por limites, por um “outro que não ela mesma”. Kierkegaard usou essa expressão para falar sobre Deus. Karl Jaspers e Heidegger a utilizam para mostrar o transcendente não fora do mundo, mas dentro do mundo. Dentro do mundo, há algo que é diferente de nós e diferente da ciência. Esse outro porta a ciência, diz Heidegger, mas não pode ser compreendido por ela. | ||
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| + | Portanto, a ciência é finita. A ciência é finita, assim como nós somos finitos. Essa é uma das ideias essenciais do existencialismo heideggeriano. E é pelo fato de ser finita que a ciência é uma possibilidade essencial da existência humana. | ||
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| + | //WAHL, Jean. Introduction à la pensée de Heidegger. Paris: Livre de Poche, 1998// | ||
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