simon-frank:objeto-e-conteudo-do-conhecimento
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| simon-frank:objeto-e-conteudo-do-conhecimento [29/01/2026 16:25] – created mccastro | simon-frank:objeto-e-conteudo-do-conhecimento [17/02/2026 18:34] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== OBJETO E O CONTEÚDO DO CONHECIMENTO ====== | ||
| + | |||
| + | //FRANK, Simon. La connaissance et l’être. Paris: Aubier, 1937// | ||
| + | |||
| + | * Determinação inicial do saber como dualidade essencial | ||
| + | * O sentido corrente de saber algo implica uma dualidade estrutural entre objeto e conteúdo do conhecimento. | ||
| + | * O ato de conhecer envolve, simultaneamente, | ||
| + | * O significado de toda conhecimento está no tipo de relação que se estabelece entre o objeto visado e o conteúdo afirmado acerca dele. | ||
| + | * A distinção, | ||
| + | |||
| + | * Rejeição da identificação imediata entre distinção lógico-gnosiológica e análise gramatical | ||
| + | * A questão sobre o que significa aquilo de que se fala e aquilo que se diz a respeito é colocada como problema de distinção interna do juízo. | ||
| + | * A suposição inicial de que sujeito e predicado gramaticais corresponderiam, | ||
| + | * A não conformidade entre expressão verbal e significação intrínseca do pensamento é demonstrada por proposições diferentes que conservam o mesmo sentido do juízo. | ||
| + | * A diferença entre estrutura da frase e estrutura do juízo é estabelecida como diferença de ordem, de modo que a gramática não decide a articulação interna objetiva do julgamento. | ||
| + | * A análise gramatical é limitada às regras externas do modo de expressão e não alcança os elementos intrínsecos do juízo. | ||
| + | |||
| + | * Tentativa psicológica de fundamentar a dualidade por meio do movimento do pensamento | ||
| + | * Ao excluir a expressão verbal e considerar a natureza intrínseca do pensamento, surge a tentação de aproximar objeto e conteúdo da distinção entre ponto de partida e ponto de chegada da atividade cognitiva. | ||
| + | * O movimento do conhecer é descrito como passagem do familiar e habitual para o novo, curioso e característico, | ||
| + | * Exemplos perceptivos ilustram a presença de algo inicialmente dado como conhecido e indiferente, | ||
| + | * O acervo de conteúdos já conhecidos funciona como base indiferente à qual se associam conteúdos recém-adquiridos e, por isso, interessantes. | ||
| + | * A partir disso, parece possível supor que a dualidade entre ponto de partida e ponto de chegada forneceria fundamento para a dualidade entre objeto e conteúdo, tomando o objeto como o familiar e o conteúdo como o novo. | ||
| + | |||
| + | * Recusa da redução do objeto e do conteúdo à dissociação psicológica | ||
| + | * A distinção entre ponto de partida e ponto de chegada é caracterizada como dissociação puramente psicológica, | ||
| + | * Essa dissociação explicaria apenas a possibilidade de separar sujeito e predicado em sentido psicológico, | ||
| + | * A coincidência entre essa divisão psicológica e a separação lógico-objetiva entre objeto e conteúdo implicaria a impossibilidade de fixar o sentido objetivo de um juízo sem examinar circunstâncias, | ||
| + | * Tal consequência tornaria impossível a determinação do sentido objetivo do juízo enquanto tal e submeteria a análise lógica à investigação psicológica. | ||
| + | * A independência da lógica em relação às vicissitudes psicológicas é preservada por uma distinção rigorosa entre operações lógicas e operações psicológicas. | ||
| + | |||
| + | * Esclarecimento do estatuto das transformações lógicas e psicológicas | ||
| + | * A tese de que transformações psicológicas podem ocorrer sem alteração do sentido lógico pode sugerir que inferências imediatas, como conversões, | ||
| + | * A conversão é afirmada como transformação logicamente efetiva do juízo. | ||
| + | * Para distinguir conversão de mera modificação verbal ou de alteração apenas psicológica, | ||
| + | * Nem toda modificação psicológica preserva o aspecto lógico; em conversões genuínas, a alteração do percurso conceitual pode implicar mudança lógica, podendo coexistir com mudança verbal. | ||
| + | * Como não há identidade nem conexão necessária entre transformação lógica e transformação psicológica, | ||
| + | |||
| + | * Reorientação: | ||
| + | * A análise do uso corrente e psicológico de objeto e conteúdo conduz à conclusão de que não basta que dois conceitos sejam início e término psicológicos de um juízo para que sejam reconhecidos como objeto e conteúdo no sentido lógico. | ||
| + | * A lógica é apresentada como consideração do sentido intrínseco do pensamento, e não dos detalhes do ato de pensar. | ||
| + | * O objeto e o conteúdo, em sentido lógico, devem ser buscados onde o próprio conteúdo dos conceitos determina de modo unívoco a direção do encadeamento conceitual. | ||
| + | * O percurso de um conceito A a um conceito B deve ser determinado pelo conteúdo objetivo dos conceitos e não por arbitrariedade ou motivos psicológicos. | ||
| + | * Nessa condição, o percurso de A a B passa a significar passagem de uma enunciação principal para sua consequência, | ||
| + | |||
| + | * Emergência de dificuldades: | ||
| + | * Persiste a expectativa de que todo juízo implique objeto e conteúdo determinados, | ||
| + | * Juízos impessoais como “faz frio” são compreendidos como afirmação de algo acerca de algo, portanto com objeto e conteúdo, mas não exibem dois conteúdos diferenciados em ordem objetiva. | ||
| + | * Juízos negativos gerais do tipo “A não é B” suscitam dificuldade semelhante quanto à identificação de sujeito e predicado lógicos. | ||
| + | * Em proposições como “branco não é preto”, o sentido objetivo coincide com o de “preto não é branco”, o que sugere reversibilidade e ausência de ordem lógica predeterminada. | ||
| + | * Duas possibilidades são examinadas: negar sujeito e predicado lógicos em correlações reversíveis ou admitir que ambos os termos podem exercer simultaneamente as duas funções. | ||
| + | * A solução enfatiza que, em correlação rigorosa, cada conceito é fundamento e função do outro, tornando permutáveis os papéis de sujeito e predicado sem alteração do sentido. | ||
| + | * Conclui-se que objeto e conteúdo não se identificam com sujeito e predicado lógicos, já que um mesmo sentido pode admitir duas formas lógicas alternativas. | ||
| + | * A centralidade histórica de sujeito e predicado é atribuída à lógica aristotélica e à sua compreensão do juízo como conexão de conceitos preexistentes. | ||
| + | * Uma posição contemporânea é indicada: o conceito não é elemento que preexiste logicamente ao juízo, e o juízo não é produto mecânico de conceitos conectados. | ||
| + | * A análise do juízo não pode começar assumindo a priori partes fixas designadas por sujeito e predicado; a necessidade e o alcance dessas partes requerem elucidação. | ||
| + | |||
| + | * Problema decisivo: em que consiste o objeto do juízo “A é B” | ||
| + | * Considera-se o caso em que A e B se dispõem estritamente em ordem de sucessão por sua significação objetiva. | ||
| + | * Rejeita-se interpretar “A é B” como identidade lógica, pois conceitos diferentes não podem ser idênticos e A não pode ser não-A. | ||
| + | * “A é B” deve significar que é possível e necessário proceder de A a B, isto é, que A está ligado a B. | ||
| + | * A hipótese de que o objeto do juízo seria A isolado é recusada, pois A, tomado apenas por seu conteúdo próprio, não implica conexão com B. | ||
| + | * Se a conexão com B fosse inerente a A enquanto tal, o resultado seria confundir A com não-A, violando o princípio de contradição e tornando o juízo absurdo. | ||
| + | * A hipótese de que o objeto seria A já ligado a B é recusada por reduzir o juízo à forma “AB é B”, isto é, a uma tautologia vazia. | ||
| + | * A crítica a essa solução enfatiza que transferir o juízo para o objeto e depois repeti-lo não explica a natureza do julgar. | ||
| + | * Conclui-se que o objeto do juízo não pode ser nem A isolado nem A já encadeado a B. | ||
| + | * A solução é formulada como A em conexão com algo outro em geral, ainda indeterminado, | ||
| + | * O juízo determina que esse algo indeterminado é precisamente B, o que é expresso pela fórmula “A é B” equivale a “Ax é B”. | ||
| + | |||
| + | * Elucidação do símbolo Ax e do papel criador do sujeito lógico | ||
| + | * A é sujeito lógico apenas quando não é tomado abstratamente como conteúdo intrínseco exclusivo, mas como parte destinada desde o início a estar em relação com um termo ainda desconhecido. | ||
| + | * Ax significa A em conexão com algo desconhecido, | ||
| + | * O x é afirmado como diferente de todos os conteúdos possíveis como A, B, C, de modo a evitar regressão infinita na interpretação de juízos do tipo “A é x”. | ||
| + | * A unidade de Ax é imediata, e nela consiste a capacidade do sujeito de designar uma realidade mais ampla do que seu conteúdo conceitual próprio. | ||
| + | * O excedente inicialmente captado como desconhecido torna-se determinado ao ser fixado como B pelo juízo. | ||
| + | |||
| + | * Exemplo concreto: “o mercúrio é um metal” | ||
| + | * O juízo não é identidade, pois se mercúrio e metal fossem idênticos não haveria juízo. | ||
| + | * A possibilidade de relacionar mercúrio e metal deriva do fato de que mercúrio é pensado não só como conteúdo fixado pela identidade, mas como portador de excedente indeterminado. | ||
| + | * Esse excedente provém da compreensão de mercúrio como elemento de um conjunto mais vasto e não como particularidade exaustiva. | ||
| + | * Mercúrio significa algo em que se afirma a especificidade da mercurialidade, | ||
| + | * A descoberta de nova determinação, | ||
| + | |||
| + | * Interpretação de Ax como subtração e não como soma | ||
| + | * Ax não é concebido como soma de A e x, mas como estrutura em que A é extraído do indeterminado. | ||
| + | * A síntese A mais x é apresentada como função de uma análise que separa A de x. | ||
| + | * O juízo latente em Ax é expresso como “x é A”, isto é, a afirmação de uma primeira determinação do indeterminado. | ||
| + | * O x torna-se o resíduo lógico do algo em geral após a extração de A, preservando-se como aquilo que é outro que A. | ||
| + | * O juízo primordial é descrito como revelação de A a partir do caos da indeterminação e como descoberta de que o objeto em geral implica particularmente esse conteúdo. | ||
| + | * A permanência do desconhecido em torno do determinado é figurada como o determinado emergindo como ilha cercada por um oceano. | ||
| + | |||
| + | * Distinção entre juízos sintéticos e juízos téticos | ||
| + | * “A é B” é apresentado como forma derivada, fundada na afirmação mais primária “x é A”. | ||
| + | * A diferença entre as fórmulas é estabelecida: | ||
| + | * Introduz-se a nomenclatura: | ||
| + | * Os juízos existenciais e impessoais são explicados como casos que embaraçaram a lógica e que se esclarecem pela estrutura tética. | ||
| + | * A forma gramatical não decide o estatuto lógico; proposições existenciais podem ocultar juízo predicativo latente no sujeito. | ||
| + | * Sustenta-se a inevitabilidade de juízos de um só conteúdo determinado, | ||
| + | |||
| + | * Generalização do tipo tético e inclusão de casos aparentes de dois termos | ||
| + | * Juízos em que o sujeito permanece indeterminado e é especificado apenas por situação temporal e espacial são integrados ao tipo tético. | ||
| + | * Apesar da variedade aparente, todos esses juízos são reduzidos ao esquema “x é A”, como extração de primeira determinação do indeterminado. | ||
| + | * Esses juízos possuem dois membros, x e A, mas apenas uma noção determinada no sentido de conteúdo delimitado. | ||
| + | |||
| + | * Derivação dos juízos sintéticos a partir dos juízos téticos | ||
| + | * Os juízos sintéticos são afirmados como derivados e implicando juízos téticos. | ||
| + | * “A é B” é analisado como equivalente a “Ax é B”, e Ax como equivalente a “x é A”. | ||
| + | * A análise completa do juízo sintético conduz à fórmula “x, que é A, é também B”. | ||
| + | * Uma forma alternativa de expressar o sentido completo sem distinguir fases é “x é AB”. | ||
| + | * A estrutura do juízo sintético e do juízo tético é aproximada: ambos determinam um desconhecido, | ||
| + | |||
| + | * Preservação da distinção entre funções de sujeito e predicado e sua derivação | ||
| + | * A e B, sob relação de consequência lógica, exercem funções distintas designáveis como sujeito e predicado. | ||
| + | * A distinção entre sujeito e predicado não coincide com a distinção entre objeto e conteúdo e é afirmada como derivada desta. | ||
| + | * A é sujeito por estar mais próximo de x do que B, pois não se chega de x a B sem passar por A. | ||
| + | * O vínculo primordial é o de x com algo determinado em geral, que funda toda forma de conhecimento, | ||
| + | * O sentido verdadeiro de objeto e conteúdo é localizado no vínculo entre o indeterminado x e a determinação alcançada. | ||
| + | * Objeto, em sentido logicamente exato, é o indeterminado sobre o qual se raciocina; conteúdo é a determinação conseguida nesse indeterminado, | ||
| + | |||
| + | * Recolocação do problema como enigma fundamental da gnosiologia | ||
| + | * A definição de conhecimento como determinação de um objeto desconhecido pode parecer trivial, mas é caracterizada como enigma formidável. | ||
| + | * Toda teoria da ciência humana é apresentada como confrontada com o mistério da fórmula “x é A”. | ||
| + | * O esquema supõe um paradoxo: possuir saber do que não se sabe, pois x é desconhecido e, ao mesmo tempo, objeto do discurso, devendo ter algum lugar no pensamento. | ||
| + | * Pergunta-se pelo estatuto da noção de desconhecido como algo absolutamente indeterminado que, contudo, não é nada e funciona como elemento do conhecer. | ||
| + | * Um segundo aspecto do enigma é formulado: o desconhecido é fundamento do conhecido, pois descobrir A em x significa reconhecer A como pertencente ao próprio x. | ||
| + | * Os conteúdos do conhecimento não são tidos como invenções arbitrárias, | ||
| + | * O saber exige enraizamento de conteúdos no objeto desconhecido por meio do encadeamento de juízos do tipo “x é A, B, C”. | ||
| + | * Onde há apenas conteúdos determinados isolados, sem referência ao fundamento comum, não há conhecimento; | ||
| + | * O desconhecido é apresentado como ponto de apoio da ciência. | ||
| + | |||
| + | * Interpretação do objeto como instância de sanção e termo da realização do saber | ||
| + | * O x não subsiste como elemento passivo, mas como receptáculo do que sanciona e faz culminar o esforço cognitivo. | ||
| + | * O objeto é simultaneamente alvo prefigurado e termo de realização da ciência. | ||
| + | * Enquanto x, o objeto é região desconhecida a conquistar; quando saturado de conteúdo, o conteúdo não é considerado inserido de fora, mas revelado como originariamente contido no objeto. | ||
| + | * A novidade do conteúdo é relativa ao saber que o descobre, não ao objeto em si. | ||
| + | * A singularidade do x é a união de ausência absoluta de definição para o saber com perfeição de definição em si. | ||
| + | * A duplicidade do termo definido é distinguida: | ||
| + | * O objeto é concebido desde o início como absolutamente definido em si, embora desconhecido para o saber, o que torna a determinação uma descoberta e não criação. | ||
| + | * O símbolo x caracteriza posição funcional na esfera do conhecimento, | ||
| + | * A ciência não cria definições do objeto, apenas as conhece, pois elas subsistem independentemente do grau de conhecimento. | ||
| + | * Conteúdos são considerados aquisições cognitivas apenas quando tidos como existentes independentemente de serem conhecidos, isto é, como inerentes ao objeto mesmo quando este é apenas x. | ||
| + | |||
| + | * Formulação explícita do problema do transcendente e crítica de formulações psicológicas | ||
| + | * Precisada a noção de objeto desconhecido como fim do conhecimento, | ||
| + | * Coloca-se a questão do direito de alcançar a noção de uma realidade independente das representações, | ||
| + | * O problema é nomeado como problema do transcendente, | ||
| + | * Toda conhecimento, | ||
| + | * Afirma-se que a expressão objeto transcendente é redundante, pois objeto significa precisamente o que, como x, está fora do conhecido imediato. | ||
| + | * Também se afirma redundância na expressão conhecimento do transcendente, | ||
| + | * A formulação habitual como relação entre consciência e mundo exterior é criticada por imprecisões, | ||
| + | * É indicado que em Kant o problema é posto em amplitude lógica como possibilidade de experiência e ciência, e que uma interpretação posterior vulgarizou-o em chave psicológica. | ||
| + | |||
| + | * Apelo à consciência ingênua como reconhecimento universal da dualidade | ||
| + | * A consciência comum distingue, em todos os domínios, o objeto como coisa real do conteúdo que se sabe dela. | ||
| + | * A realidade é concebida como existindo independentemente do grau de revelação ao saber. | ||
| + | * Essa independência é afirmada tanto para o mundo exterior quanto para o mundo da alma, incluindo o passado e elementos atuais não conhecidos ou mal interpretados. | ||
| + | * A falibilidade do conhecimento humano é salientada: o objeto tal como é realmente nunca coincide completamente com o conteúdo do saber. | ||
| + | * Essa concepção não é atribuída a teoria deliberada, mas ao sentido imanente a todo fenômeno de cognição. | ||
| + | * A dualidade é estabelecida como ponto de partida inevitável da reflexão a ser desenvolvida ulteriormente. | ||
| + | |||
| + | * Definição do objeto como momento de transcendência no ato de conhecer | ||
| + | * Objeto é identificado com o momento de transcendência implicado pelo conhecer. | ||
| + | * Transcendente não significa inacessível por princípio, mas aquilo cuja determinação não é dada de modo completamente imediato, exigindo penetração. | ||
| + | * O objeto transcendente é concebido como alvo situado fora do conhecido, mas alcançável pela atividade cognitiva. | ||
| + | * As diferenças entre domínios do saber dizem respeito ao grau e à complexidade da penetração, | ||
| + | |||
| + | * Delimitação da matéria imanente da conhecimento e negação de conhecimento puramente imanente | ||
| + | * O estritamente imanente é definido como aquilo que, num momento, ocupa integralmente a percepção e a consciência atual. | ||
| + | * Dor atual, manchas de cor, formas espaciais, sons e odores presentes são descritos como absolutamente evidentes enquanto conteúdos de percepção direta. | ||
| + | * Esses dados são nomeados como matéria imanente do conhecimento. | ||
| + | * Um conhecimento composto apenas dessa matéria configuraria conhecimento puramente imanente sem objeto desconhecido, | ||
| + | * As diferenças entre tipos de conhecimento são apresentadas como quantitativas, | ||
| + | |||
| + | * Programa de revisão dos tipos de juízos para mostrar universalidade e variações de transcendência | ||
| + | * Propõe-se revisar tipos de juízos para esclarecer a universalidade da função do objeto transcendente e a variedade de graus de transcendência nos domínios do saber. | ||
| + | * Juízos sintéticos são classificados conforme o sujeito lógico, distinguindo-se os que versam sobre o concreto individual e os de alcance geral e abstrato. | ||
| + | * Juízos téticos podem envolver determinação concreta individual ou determinação abstratamente geral. | ||
| + | * O exame começa pelos juízos sintéticos sobre o concreto individual. | ||
| + | |||
| + | * Juízos sobre o concreto individual com transcendência espacial, temporal e inferencial manifesta | ||
| + | * Casos em que o conteúdo ultrapassa o dado perceptivo imediato são tomados como evidentes. | ||
| + | * Juízos que se apoiam parcialmente na percepção mas abrangem região mais ampla são exemplificados por afirmações sobre o que está além do visto, sobre propriedades astronômicas e sobre identificação geográfica. | ||
| + | * Nesses casos, apenas parte do conteúdo é matéria imanente, e o restante é acrescentado por pensamento e imaginação. | ||
| + | * A percepção funciona como trampolim e pode ser apenas um elemento ou até estar ausente do conteúdo atribuído ao objeto. | ||
| + | * Juízos sobre o futuro e juízos históricos são incluídos como casos em que conteúdo não é dado como matéria imanente. | ||
| + | * O conteúdo atribuído ao objeto é mais amplo que a matéria imanente, e conhecer exige penetrar no não dado. | ||
| + | |||
| + | * Crítica da impressão de imediatez plena em juízos perceptivos simples | ||
| + | * Juízos como “esta rosa é vermelha” parecem afirmar apenas o que é visto imediatamente. | ||
| + | * Essa impressão sustenta doutrinas que reduzem o juízo à ligação de ideias, representações ou sensações. | ||
| + | * Uma análise rigorosa nega que uma coisa concreta possa ser dada imediatamente como unidade perceptiva completa. | ||
| + | * Mostra-se que o ver efetivo consiste em sucessão de imagens parciais variáveis, enquanto a coisa é pensada como idêntica e invariável. | ||
| + | * A multiplicidade de imagens não se identifica com a unidade conceitual de coisa, que surge com contornos definidos na compreensão. | ||
| + | * Mesmo quando nenhuma matéria é adicionada de fora, a construção de um conteúdo coerente a partir de uma série de percepções requer penetração progressiva no não imediatamente dado. | ||
| + | * A redução do juízo empírico a análise ou síntese de sensações é caracterizada como dilettantismo em gnosiologia e deve ser excluída da teoria do conhecimento. | ||
| + | * É enfatizado que mesmo as partes mais descritivas e experimentais das ciências naturais operam com objetos e relações transcendentais em relação a percepções singulares. | ||
| + | |||
| + | * Caso em que toda matéria parece dada de uma vez e persistência da transcendência | ||
| + | * Considera-se o caso em que se percebe imediatamente uma mancha vermelha e se afirma que algo é vermelho no lado visível. | ||
| + | * Mesmo sem adição de matéria não dada, há novidade formal na passagem da matéria imanente ao conteúdo do objeto. | ||
| + | * O juízo transforma o vermelho percebido no instante em qualidade de um objeto, isto é, em realidade que dura independentemente da percepção. | ||
| + | * A atribuição de duração indefinida no passado e no futuro é apresentada como condição para falar de coisa vermelha como atributo de uma realidade. | ||
| + | * Sem essa extensão temporal, restaria apenas a afirmação de presença momentânea sem compromisso com existência de objeto. | ||
| + | * Conclui-se que mesmo aqui há um x desconhecido cuja determinação exige penetração. | ||
| + | |||
| + | * Caso-limite de máxima imanência e descoberta de transcendência lógica | ||
| + | * Juízos como “uma luz vermelha brilhou”, “que frio”, “troveja” pretendem limitar-se ao atual e imediato da percepção. | ||
| + | * Neles parece que o sentido exclui transcendência, | ||
| + | * Ainda assim, o conteúdo definido por noções não é estritamente imanente; apenas a matéria vivida é imanente, enquanto inexprimível como puro isso. | ||
| + | * Ao reconhecer no isso uma mancha vermelha, estabelece-se mais do que foi visto: identifica-se a cor com outros vermelhos e distingue-se do não vermelho. | ||
| + | * O conteúdo implica relação com dados não presentes na percepção, | ||
| + | * O juízo fixa a sensação efêmera em forma que perdura e admite possibilidade de erro mesmo na simples constatação, | ||
| + | * A condição prévia é uma extensão lógica fora do espaço e do tempo, pois conteúdos como ser vermelho valem fora de todo aqui e agora. | ||
| + | * A determinação do dado exige ligação entre a dada imediata e um domínio amplo não dado, o que constitui novamente penetração num x. | ||
| + | |||
| + | * Conclusão geral: toda conhecimento determinado é dirigido ao transcendente | ||
| + | * Toda conhecimento, | ||
| + | * A matéria imanente não é o objeto do conhecimento; | ||
| + | * Há em toda conhecimento indicação de realidade em si indeterminada que nenhuma percepção pode conter. | ||
| + | * A transcendência geral é afirmada como anterior a transcendências particulares em casos especiais. | ||
| + | * A determinação vale fora das circunstâncias temporais e é concebível apenas em relação a outras determinações, | ||
| + | |||
| + | * Resposta à objeção do sentido comum sobre a imediatez de certos conteúdos | ||
| + | * Pode-se objetar que conteúdos como a cor vermelha seriam dados imediatamente, | ||
| + | * Reconhece-se um sentido em que o juízo é imediato, mas o imediato consiste na maneira de apreender um conteúdo não dado, e não na presença de uma determinação já constituída. | ||
| + | * A consciência apreende imediatamente o não dado, mas isso não elimina o fato de haver penetração no objeto transcendente. | ||
| + | * Diferentes modos de penetração existem: ora a matéria é amplificada para virar conteúdo do objeto, ora a determinação geral é intuída diretamente. | ||
| + | * Apesar das diferenças, | ||
| + | |||
| + | * Passagem aos juízos sobre o abstrato geral e reafirmação da transcendência | ||
| + | * A transcendência universal é atribuída ao fato de que toda conhecimento supõe determinação geral situada fora dos limites temporais da percepção. | ||
| + | * Esse aspecto exprime precisamente a transcendência dos juízos téticos sobre o abstrato geral, como “a vermelhidão existe”. | ||
| + | * Tais juízos são considerados fundamento último de toda conhecimento por visarem o absolutamente geral e atemporal, que só pode ser pensado e nunca dado. | ||
| + | * O objeto desses juízos é dito o mesmo dos juízos téticos sobre o concreto individual, diferindo pela ausência de fixação em um ponto temporal. | ||
| + | * Em vez de cume na zona da imanência, visa-se a base ideal infinita da determinação, | ||
| + | * O alvo é o aspecto ideal e atemporal do real, que exige pensamento e não pode ser dado. | ||
| + | |||
| + | * Refutação da crença em juízos sobre o abstrato como fundados apenas no conteúdo isolado | ||
| + | * Pode parecer que, uma vez realizada uma noção, enunciações posteriores se apoiariam exclusivamente no conteúdo isolado. | ||
| + | * A impressão de que se fala do conteúdo enquanto tal, sem referência à realidade empírica, é reconhecida como parcialmente correta, mas insuficiente. | ||
| + | * O sentido dos juízos sintéticos “A é B” é retomado: eles exigem explicação por “Ax é B”, sem exceção para o abstrato geral. | ||
| + | * Verdades sobre vermelho e sobre 2 não dependem de casos empíricos contingentes, | ||
| + | * Juízos exigem considerar o conteúdo em conexão com outros conteúdos, como parte de um conjunto mais amplo de natureza ideal. | ||
| + | * Nega-se a existência de uma classe de juízos analíticos entendidos como complexos sem síntese; restariam apenas identidades e contradições formais. | ||
| + | * Um juízo como “o vermelho é uma cor” é interpretado como inserção do vermelho numa classe ao lado de outras cores e como ligação com a noção geral de cor que unifica diferenças. | ||
| + | * Um juízo aritmético como 2 vezes 2 igual a 4 pressupõe o sistema numérico e relações inteligíveis com outros números, não contemplação isolada do conteúdo de 2. | ||
| + | * O mal-entendido dos juízos como analíticos decorre de que as noções são pensadas desde o início em correlação com outros fatores. | ||
| + | * Admite-se que há uma unidade íntima entre termos, mas recusa-se que essa unidade seja identidade, e mantém-se que, enquanto correlação de noções, o juízo é síntese entre determinações diferentes. | ||
| + | * O fundamento do juízo está fora do conteúdo específico isolado do sujeito e requer apoio em outros aspectos ainda desconhecidos do objeto ligados a A. | ||
| + | * Os juízos sobre o abstrato geral ajustam-se ao esquema “Ax é B”, em que A é ponto de partida para penetrar regiões ainda inexploradas do objeto e descobrir B. | ||
| + | |||
| + | * Diferenciação de tipos de conexões entre determinações abstratas e irrelevância disso para a tese principal | ||
| + | * Distinguem-se conexões de lógica formal que determinam qualquer conteúdo, conexões deriváveis do conteúdo material e conexões reais não dedutíveis do conteúdo. | ||
| + | * O exame detalhado dessas formas é considerado desnecessário após demonstrar que mesmo juízos de máxima imediatez exigem penetração em regiões desconhecidas do objeto. | ||
| + | * Uma observação sobre Kant é introduzida: | ||
| + | * Se analítico significa predicado implicado no sujeito, tais juízos não existiriam; se analítico significa inconcebibilidade do contrário por razões formais, então a classificação se inverteria entre aritmética e proposições como “o vermelho é uma cor”. | ||
| + | * A evidência de “o vermelho é uma cor” dependeria da natureza do vermelho e exigiria representação, | ||
| + | |||
| + | * Síntese final: a fórmula “x é A” como sentido último do juízo e retorno ao enigma | ||
| + | * A análise dos tipos de juízo confirma que, em todos os domínios, a conhecimento é tensão para o objeto desconhecido além da matéria imanente. | ||
| + | * Conhecer é penetrar no objeto e determiná-lo, | ||
| + | * Apenas formas que surgem do caos do desconhecido e às quais se atribui existência independente do progresso de revelação constituem conteúdos autênticos da ciência. | ||
| + | * A conhecimento é juízo, e o sentido último do juízo é expresso pela fórmula “x é A”, em que o conteúdo é função do objeto desconhecido e o objeto é fundamento e sanção do conteúdo. | ||
| + | * Retoma-se a questão decisiva: como explicar a presença desse x, como é possível possuir o desconhecido e entender o conteúdo como pertencente ao objeto desconhecido. | ||
| + | * Anuncia-se a investigação das direções principais em que se buscou solução para esse enigma. | ||
| + | |||
