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rosset:rosset-197025-28-crenca

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-====== Rosset (1970:25-28) – crença ======+====== crença (1970:25-28) ======
  
 [...] nada é tão invencível quanto aquilo que não existe. Os mais profundos analistas da crença concordam em reconhecer a impossibilidade de defini-la. A sina habitual de uma crença é não somente proporcionar razões para crer, como ser paupérrima em definições de sua própria crença: sabe sempre dizer porque crê, mas nunca aquilo em que precisamente crê. Além do mais, o grande inimigo da crença não é a “verdade” (que os incrédulos opõem frivolamente a ela), mas a precisão. [...] nada é tão invencível quanto aquilo que não existe. Os mais profundos analistas da crença concordam em reconhecer a impossibilidade de defini-la. A sina habitual de uma crença é não somente proporcionar razões para crer, como ser paupérrima em definições de sua própria crença: sabe sempre dizer porque crê, mas nunca aquilo em que precisamente crê. Além do mais, o grande inimigo da crença não é a “verdade” (que os incrédulos opõem frivolamente a ela), mas a precisão.
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 A ideia de natureza pertence à primeira forma de silêncio: silêncio prolixo e impreciso. Constitui não um erro (pois para ser falso necessita primeiro ser), mas uma miragem, isto é, uma ilusão, no sentido dado ao termo por Freud em O futuro de uma ilusão. Ao erro, que implica uma neutralidade efetiva, opõe-se a ilusão, que antes de ser um jogo de conceitos é um jogo do desejo: “uma ilusão não é a mesma coisa que um erro, tampouco uma ilusão é necessariamente um erro (...) O que caracteriza a ilusão é o fato de ser derivada dos desejos humanos”[[L’avenir d’une illusion, trad. Marie BONAPARTE, Presses Universitaires de France, 1971, p. 44.]]. Ao analisar a crença, Freud manifesta uma penetração crítica que se inscreve numa tradição anti-socrática e antiintelectualista, ilustrada principalmente pelas análises de Lucrécio, Montaigne, Hume e Nietzsche: o homem não se engana porque ignora, mas porque deseja. Ou ainda, com mais profundidade, o homem que se ilude não se engana: as promessas  do desejo nunca se aventuram a constituir uma expressão precisa que poderia ser intelectualmente refutada. Por conseguinte, o homem de desejo nunca se engana, pois falta-lhe precisão e conteúdo: essa falta, não de crença, mas de objeto de crença, é precisamente o que define a especificidade da crença e lhe assegura a invulnerabilidade. Invulnerabilidade indiferente a qualquer confirmação ou invalidação por parte da experiência, já que a ilusão, através da não-determinação do que deseja, situa-se fora do alcance de ambas. Freud invoca dois exemplos de ilusão que ilustram perfeitamente indiferença da ilusão à verdade ou ao erro: “Qualifica-se de ilusão a afirmação de alguns nacionalistas de que as raças indogermânicas seriam as únicas capazes de cultura ou, melhor ainda, a crença de que a criança seria um ser desprovido de sexualidade, crença destruída pela primeira vez pela psicanálise”[[Ibid., p. 44.]]. Nos dois casos, a ilusão não se sustenta diante do exame intelectual: a superioridade indogermânica e a pureza infantil constituem temas simultaneamente vagos em suas afirmações e indiferentes aos fatos (os quais somente poderiam ser invalidados, se os temas tivessem sido precisados). O segundo exemplo é particularmente ilustrativo, pois sendo a sexualidade infantil um fato evidente no cotidiano, o que aliás Freud sempre ressaltou, nunca foi segredo para ninguém; apesar de ter sido a psicanálise que pela primeira vez a anunciou — e seria também excesso de otimismo declarar com Freud que a crença na pureza infantil foi “destruída” pela psicanálise: no máximo pode-se esperar que as manifestações diretas dessa ilusão abandonem progressivamente alguns discursos de tipo científico; contudo, como crença, não parece que venha a correr grandes riscos por parte da psicanálise. Na ilusão, o desejo basta a si mesmo: não espera nenhum apoio da experiência. A “autarquia” da ilusão explica um fenômeno bastante corrente e, no entanto, aparentemente por demais desconcertante: o fato de haver surpresa quando a experiência confirma o que existia como crença — surpresa que mostra, claramente, a que ponto a crença está disposta a prescindir dessa supérflua confirmação, transcendendo assim a toda verdade ou realidade. Freud, sempre em O futuro de uma ilusão, conta a esse respeito uma anedota, “um incidente  realmente curioso”: “Sendo já homem maduro, encontrava-me pela primeira vez em Atenas, sobre a colina da Acrópole, entre as ruínas dos templos, olhando ao longe o mar azul. A minha alegria misturava-se com um sentimento de espanto, que me levava a dizer para mim mesmo: ‘Então as coisas são verdadeiramente tais quais nos ensinavam na escola! Quão superficial e fraca deve ter sido a crença naquilo que ouvira, para que hoje possa estar tão surpreso!’.”[[Ibid., p. 36.]]. Tal surpresa é possível quando um tema intelectual combina-se com um desejo, como na anedota contada por Freud, na qual se combinam um conhecimento aprendido na escola e o objeto de cobiça ulterior que investiu desejo num tema que inicialmente apenas era intelectual. Espanta-se porque encontra na realidade a confirmação de um desejo, ao descobrir um desejo arremedando — uma só vez não forja um hábito — um objeto real. Em geral, ocorre diferentemente: a crença não espera nenhuma confirmação da experiência, e com razão, uma vez que na crença não existe nenhuma ideia que possa ser intelectualmente confirmada. Por isso a crença é, do ponto de vista intelectual, superficial e fraca, mas, também e na mesma medida, do ponto de vista do desejo, inextirpável e com um poder absoluto. A ideia de natureza pertence à primeira forma de silêncio: silêncio prolixo e impreciso. Constitui não um erro (pois para ser falso necessita primeiro ser), mas uma miragem, isto é, uma ilusão, no sentido dado ao termo por Freud em O futuro de uma ilusão. Ao erro, que implica uma neutralidade efetiva, opõe-se a ilusão, que antes de ser um jogo de conceitos é um jogo do desejo: “uma ilusão não é a mesma coisa que um erro, tampouco uma ilusão é necessariamente um erro (...) O que caracteriza a ilusão é o fato de ser derivada dos desejos humanos”[[L’avenir d’une illusion, trad. Marie BONAPARTE, Presses Universitaires de France, 1971, p. 44.]]. Ao analisar a crença, Freud manifesta uma penetração crítica que se inscreve numa tradição anti-socrática e antiintelectualista, ilustrada principalmente pelas análises de Lucrécio, Montaigne, Hume e Nietzsche: o homem não se engana porque ignora, mas porque deseja. Ou ainda, com mais profundidade, o homem que se ilude não se engana: as promessas  do desejo nunca se aventuram a constituir uma expressão precisa que poderia ser intelectualmente refutada. Por conseguinte, o homem de desejo nunca se engana, pois falta-lhe precisão e conteúdo: essa falta, não de crença, mas de objeto de crença, é precisamente o que define a especificidade da crença e lhe assegura a invulnerabilidade. Invulnerabilidade indiferente a qualquer confirmação ou invalidação por parte da experiência, já que a ilusão, através da não-determinação do que deseja, situa-se fora do alcance de ambas. Freud invoca dois exemplos de ilusão que ilustram perfeitamente indiferença da ilusão à verdade ou ao erro: “Qualifica-se de ilusão a afirmação de alguns nacionalistas de que as raças indogermânicas seriam as únicas capazes de cultura ou, melhor ainda, a crença de que a criança seria um ser desprovido de sexualidade, crença destruída pela primeira vez pela psicanálise”[[Ibid., p. 44.]]. Nos dois casos, a ilusão não se sustenta diante do exame intelectual: a superioridade indogermânica e a pureza infantil constituem temas simultaneamente vagos em suas afirmações e indiferentes aos fatos (os quais somente poderiam ser invalidados, se os temas tivessem sido precisados). O segundo exemplo é particularmente ilustrativo, pois sendo a sexualidade infantil um fato evidente no cotidiano, o que aliás Freud sempre ressaltou, nunca foi segredo para ninguém; apesar de ter sido a psicanálise que pela primeira vez a anunciou — e seria também excesso de otimismo declarar com Freud que a crença na pureza infantil foi “destruída” pela psicanálise: no máximo pode-se esperar que as manifestações diretas dessa ilusão abandonem progressivamente alguns discursos de tipo científico; contudo, como crença, não parece que venha a correr grandes riscos por parte da psicanálise. Na ilusão, o desejo basta a si mesmo: não espera nenhum apoio da experiência. A “autarquia” da ilusão explica um fenômeno bastante corrente e, no entanto, aparentemente por demais desconcertante: o fato de haver surpresa quando a experiência confirma o que existia como crença — surpresa que mostra, claramente, a que ponto a crença está disposta a prescindir dessa supérflua confirmação, transcendendo assim a toda verdade ou realidade. Freud, sempre em O futuro de uma ilusão, conta a esse respeito uma anedota, “um incidente  realmente curioso”: “Sendo já homem maduro, encontrava-me pela primeira vez em Atenas, sobre a colina da Acrópole, entre as ruínas dos templos, olhando ao longe o mar azul. A minha alegria misturava-se com um sentimento de espanto, que me levava a dizer para mim mesmo: ‘Então as coisas são verdadeiramente tais quais nos ensinavam na escola! Quão superficial e fraca deve ter sido a crença naquilo que ouvira, para que hoje possa estar tão surpreso!’.”[[Ibid., p. 36.]]. Tal surpresa é possível quando um tema intelectual combina-se com um desejo, como na anedota contada por Freud, na qual se combinam um conhecimento aprendido na escola e o objeto de cobiça ulterior que investiu desejo num tema que inicialmente apenas era intelectual. Espanta-se porque encontra na realidade a confirmação de um desejo, ao descobrir um desejo arremedando — uma só vez não forja um hábito — um objeto real. Em geral, ocorre diferentemente: a crença não espera nenhuma confirmação da experiência, e com razão, uma vez que na crença não existe nenhuma ideia que possa ser intelectualmente confirmada. Por isso a crença é, do ponto de vista intelectual, superficial e fraca, mas, também e na mesma medida, do ponto de vista do desejo, inextirpável e com um poder absoluto.
  
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