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| + | ====== 1.1 Filosofia trágica ====== | ||
| + | //ROSSET, Clément. Logique du pire: éléments d'une philosophie tragique. Paris: Presses Universitaires de France, 1971.// | ||
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| + | **1 — POSSIBILIDADE DE UMA « FILOSOFIA » TRÁGICA?** | ||
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| + | * A história da filosofia ocidental começa com o luto do acaso, da desordem e do caos, e só readmite o acaso em segundo plano, subordinado a uma ordem que lhe serve de horizonte. | ||
| + | * A frase de Anaxagoras, segundo a qual no começo era o caos e depois veio a inteligência que tudo ordenou, expulsa do campo filosófico a ideia de um acaso originário e gerador de existência. | ||
| + | * O acaso é depois readmitido apenas como derivado e enquadrado por uma ordem, concepção sistematizada na tese de Cournot. | ||
| + | * Isso torna possível a " | ||
| + | * Torna-se possível também o fantasma dos " | ||
| + | * Esse otimismo é ontológico, | ||
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| + | * Nessa perspectiva, | ||
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| + | * Na margem dessa filosofia surgiram, de longe em longe, pensadores que se atribuíram a tarefa inversa: os filósofos trágicos. | ||
| + | * Sua meta é dissolver a ordem aparente para reencontrar o caos enterrado por Anaxagoras e dissipar a ideia de toda felicidade virtual, afirmando o infortúnio e, na medida de seu gênio, o pior dos infortúnios. | ||
| + | * Esse terrorismo filosófico faz do pensamento uma lógica do pior: parte da ordem aparente e da felicidade virtual e chega, pela impossibilidade de toda felicidade, ao desordenamento, | ||
| + | * A filosofia torna-se ato destrutivo e catastrófico, | ||
| + | * Sofistas, Lucrécio, Montaigne, Pascal e Nietzsche são os exemplos: a angústia do filósofo terrorista é omitir algum aspecto absurdo do sentido admitido ou esquecer uma circunstância agravante, oferecendo do trágico um quadro incompleto e superficial. | ||
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| + | * Pensar o pior é o objetivo geral da filosofia terrorista, reconhecido por esses pensadores como tarefa única e necessária. | ||
| + | * O discurso segundo o pior é visto de saída como o único possível, pois a hipótese do pior exclui qualquer outra. | ||
| + | * Esse discurso se ordena a partir de uma problemática do pior tomada como ponto de partida necessário: | ||
| + | * A filosofia trágica é " | ||
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| + | * A presente Lógica do pior investiga a natureza dessa " | ||
| + | * Nenhuma filosofia é necessária em si, como lembra Bergson ao dizer que ninguém é jamais obrigado a fazer um livro; a necessidade da saída trágica só vale uma vez admitida a existência de pensamento, sob o postulado de que todo pensamento é necessariamente desastroso. | ||
| + | * Essa necessidade é subjetiva, pois consiste nas razões que o filósofo dá à sua própria démarche, mas é uma necessidade lógica, apoiada em considerações ordenadas, e portanto livre dos fundamentos emotivos ou sentimentais presentes em pensadores tidos por angustiados. | ||
| + | * Ela não se encontra na angústia moral ou religiosa de Kierkegaard, | ||
| + | * É provavelmente a esse tipo de pensamento trágico que Maritain alude ao dizer que nada é mais fácil para uma filosofia do que ser trágica, bastando abandonar-se ao seu peso humano. | ||
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| + | * Os ensaios sobre o trágico de autores como Chestov e Unamuno levam a duas constatações. | ||
| + | * Desde Nietzsche, o pensamento trágico quase não encontrou intérprete filósofo. | ||
| + | * A existência desses ensaios reforça a resistência dos filósofos a admitir que o pensamento trágico possa constituir-se em filosofia: escrever sobre o trágico é fácil, e admite-se sem dificuldade que há "algo de trágico" | ||
| + | * A razão confessada é a incapacidade da pensamento trágico de erigir-se em filosofia; a inconfessada é que uma filosofia trágica implicaria a negação prévia de toda outra filosofia. | ||
| + | * Daí o contraste, pouco notado, entre a literatura, brilhante pelo trágico, e a filosofia, hábil em pôr o trágico fora de circuito, como no século XVII francês, em que só Pascal destoa, e dele se diz com Bréhier que não é filósofo. | ||
| + | * A maioria dos filósofos foi lógica da ordem, da razão e da reparação, | ||
| + | * O motivo do banimento é não terem sido filósofos trágicos, e não simplesmente não terem sido filósofos. | ||
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| + | * A noção de " | ||
| + | * Em Montaigne e Pascal, o trágico é declarado não propriamente filosofia, e a " | ||
| + | * Está em jogo saber se o exercício do pensamento pode desqualificar-se a si mesmo, ponto que é precisamente o não admitido. | ||
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| + | * Desqualificar o pensamento pelo pensamento, como no esquema pascaliano de que nada é mais conforme à razão do que o desaval da razão, foi tido por empresa não filosófica, | ||
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| + | * Esse desaval apoia-se no grande número de filosofias pseudotrágicas nascidas de exigências afetivas e, mais profundamente, | ||
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| + | * Se existe uma filosofia trágica, ela não é mais ilógica do que qualquer outra forma de filosofia. | ||
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| + | * O título Lógica do pior designa o caráter filosófico do discurso trágico, e nada além disso. | ||
| + | * Não se trata de encadear logicamente os males, de mal em pior, até a evidência filosófica do pior, como no encadeamento de eventos usado por Zola em cada romance a partir da falha que ameaça o edifício. | ||
| + | * Tal lógica pressupõe eventos já dados, existência que a filosofia trágica contesta, pois busca seu terreno aquém dela. | ||
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