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| Fazendo pela primeira vez ressoar muito alto um acordo que dominará no Conto de Inverno e na Tempestade, Shakespeare proclama que o Destino tudo regulou de antemão, que os homens não são senão seus instrumentos cegos ou clarividentes ((Não devemos esquecer, evidentemente, | Fazendo pela primeira vez ressoar muito alto um acordo que dominará no Conto de Inverno e na Tempestade, Shakespeare proclama que o Destino tudo regulou de antemão, que os homens não são senão seus instrumentos cegos ou clarividentes ((Não devemos esquecer, evidentemente, | ||
| - | < | + | Aquele que mais amo, castigo-o para tornar mais doce meu benefício mais diferido. |
| - | Aquele que mais amo, castigo-o para tornar mais doce meu benefício mais diferido. | + | Sua felicidade é eclodida, suas provações são consumadas. |
| - | Sua felicidade é eclodida, suas provações são consumadas. | + | (Será) tornado mais feliz por suas aflições. (V, Cena, 4, 101-108). |
| - | (Será) tornado mais feliz por suas aflições. (V, Cena, 4, 101-108). | + | |
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| Tal é, diz ele, o sentido de suas tribulações, | Tal é, diz ele, o sentido de suas tribulações, | ||
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| Cloten «é uma criatura demasiado má mesmo para dela dizer mal», «um asno» que não sabe contar até vinte, um fátuo ambicioso, pretensioso, | Cloten «é uma criatura demasiado má mesmo para dela dizer mal», «um asno» que não sabe contar até vinte, um fátuo ambicioso, pretensioso, | ||
| - | < | + | Quanto à rainha, essa «viúva que o rei acabara de desposar» |
| - | Quanto à rainha, essa «viúva que o rei acabara de desposar» | + | e de quem ignoramos as origens sem dúvida fort baixas, |
| - | e de quem ignoramos as origens sem dúvida fort baixas, | + | eis o retrato tão colorido. Falando de Cloten, |
| - | eis o retrato tão colorido. Falando de Cloten, | + | um comparsa diz quase no início: «Que um diabo também |
| - | um comparsa diz quase no início: «Que um diabo também | + | astucioso (craftly) como o é sua mãe — haja podido pôr no \\ |
| - | astucioso (craftly) como o é sua mãe — haja podido pôr no | + | mundo esse asno! Uma mulher que — esmaga tudo por seu \\ |
| - | mundo esse asno! Uma mulher que — esmaga tudo por seu | + | espírito» (II, Cena 1, 57-58). |
| - | espírito» (II, Cena 1, 57-58). | + | \\ |
| + | Que deseja ela? O poder, por todos os meios, \\ | ||
| + | mesmo o veneno. Ama somente a si mesma e a seu filho. Ela \\ | ||
| + | finge ter pelo rei uma verdadeira paixão, mas no momento \\ | ||
| + | de morrer, relata seu médico, «ela confessou que nunca \\ | ||
| + | vos amou — apaixonada não por vós mas somente \\ | ||
| + | pela grandeza que vós lhe dais — casada com vossa \\ | ||
| + | realeza, ela era a esposa de vossa posição; — ela abominava \\ | ||
| + | vossa pessoa» (V, Cena 5, 37-40). \\ | ||
| - | Que deseja ela? O poder, por todos os meios, | ||
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| - | finge ter pelo rei uma verdadeira paixão, mas no momento | ||
| - | de morrer, relata seu médico, «ela confessou que nunca | ||
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| - | pela grandeza que vós lhe dais — casada com vossa | ||
| - | realeza, ela era a esposa de vossa posição; — ela abominava | ||
| - | vossa pessoa» (V, Cena 5, 37-40). | ||
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| Como age ela? Por todas as astúcias, todas as hipocrisias, | Como age ela? Por todas as astúcias, todas as hipocrisias, | ||
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| O resultado dessa educação? | O resultado dessa educação? | ||
| - | — o horror das riquezas: quando Imogène ofirere pagar os alimentos que acaba de consumir: «Dinheiro? | + | * o horror das riquezas: quando Imogène ofirere pagar os alimentos que acaba de consumir: «Dinheiro? |
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| - | — o sentido da verdadeira fraternidade humana: «Irmão, ficai aqui, dizem os dois garotos a Imogène em traje de pajem. Não somos irmãos? (IV, Cena 2, 2-3). | + | |
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| - | — o respeito da sabedoria e o desprezo da presunção: | + | |
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| - | — o sentido da harmonia universal: «Todas as coisas solenes não respondem senão a eventos solenes» (Ibid., 191-192). | + | |
| Eis a filosofia dispensada pelo mundo da caverna sob a direção de um velho sábio. E é nesse mundo estranho, à margem da humanidade corrompida, que penetra bruscamente Imogène no instante mesmo em que sucumbia ao desespero e à violência. E de entrada, desde sua entrada em cena, suas próprias reflexões estão à uníssono com as desses trogloditas, | Eis a filosofia dispensada pelo mundo da caverna sob a direção de um velho sábio. E é nesse mundo estranho, à margem da humanidade corrompida, que penetra bruscamente Imogène no instante mesmo em que sucumbia ao desespero e à violência. E de entrada, desde sua entrada em cena, suas próprias reflexões estão à uníssono com as desses trogloditas, | ||
| - | < | + | Os pobres mentiriam |
| - | Os pobres mentiriam | + | que são acossados de aflições, |
| - | que são acossados de aflições, | + | que é um castigo ou uma prova? Sim, nada de espantoso |
| - | que é um castigo ou uma prova? Sim, nada de espantoso | + | que os ricos digam raramente a verdade. Decair na abundância |
| - | que os ricos digam raramente a verdade. Decair na abundância | + | é mais grave que mentir por necessidade, |
| - | é mais grave que mentir por necessidade, | + | é pior nos reis que nos mendigos. (III, Cena 6, 9-14.) |
| - | é pior nos reis que nos mendigos. (III, Cena 6, 9-14.) | + | |
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| É nessa disposição de espírito que ela descobre a caverna, ali se restaura, depois se faz acolher «como um irmão» por Belário e seus «filhos» que não suspeitam que ela é uma mulher e sua própria irmã. «Irmão, ficai aqui, diz Arvírago. Não somos irmãos?» E ela responde: «O homem deveria ser assim com o homem, mas as argilas diferem em dignidade — embora sejam ambas da mesma poeira» (IV, Cena 2, 4-6). E antes de deixá-la para retornar à caça, Guiderio insiste: «Amo-te... tanto e tão bem como amo meu pai» (Ibid., 16-18). | É nessa disposição de espírito que ela descobre a caverna, ali se restaura, depois se faz acolher «como um irmão» por Belário e seus «filhos» que não suspeitam que ela é uma mulher e sua própria irmã. «Irmão, ficai aqui, diz Arvírago. Não somos irmãos?» E ela responde: «O homem deveria ser assim com o homem, mas as argilas diferem em dignidade — embora sejam ambas da mesma poeira» (IV, Cena 2, 4-6). E antes de deixá-la para retornar à caça, Guiderio insiste: «Amo-te... tanto e tão bem como amo meu pai» (Ibid., 16-18). | ||
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| Então Imogène, reencontrando sua solidão e sua insuperável tristeza, retoma suas reflexões sobre o valor dos grandes (monstros do mar) e dos humildes (peixes requintados). O mal rói-lhe o coração. Ela provará o «cordial» da rainha que lhe entregou Pisânio e ela cai em um sono de morte, enquanto Guiderio decapitará Cloten e jogará sua cabeça no riacho. Tal é o início da cena mais que estranha imaginada, acreditava-se, | Então Imogène, reencontrando sua solidão e sua insuperável tristeza, retoma suas reflexões sobre o valor dos grandes (monstros do mar) e dos humildes (peixes requintados). O mal rói-lhe o coração. Ela provará o «cordial» da rainha que lhe entregou Pisânio e ela cai em um sono de morte, enquanto Guiderio decapitará Cloten e jogará sua cabeça no riacho. Tal é o início da cena mais que estranha imaginada, acreditava-se, | ||
| - | < | + | Não temas mais o ardor do sol \\ |
| - | Não temas mais o ardor do sol | + | nem as fúrias do vento furioso, |
| - | nem as fúrias do vento furioso, | + | tu cumpriste tuas tarefas terrenas, |
| - | tu cumpriste tuas tarefas terrenas, | + | retornaste a teu lar e tocaste teus salários; |
| - | retornaste a teu lar e tocaste teus salários; | + | garotos e garotas dourados devem todos, |
| - | garotos e garotas dourados devem todos, | + | como os limpadores de chaminés, tornar-se pó. \\ |
| - | como os limpadores de chaminés, tornar-se pó. | + | Não temas mais a cólera dos grandes, |
| - | Não temas mais a cólera dos grandes, | + | tu ultrapassaste os ataques do tirano: |
| - | tu ultrapassaste os ataques do tirano: | + | não te preocupes mais com vestimentas e alimento; |
| - | não te preocupes mais com vestimentas e alimento; | + | para ti o caniço é como o carvalho: |
| - | para ti o caniço é como o carvalho: | + | cetro, ciência, medicina, |
| - | cetro, ciência, medicina, | + | tudo segue esse caminho, torna-se pó. \\ |
| - | tudo segue esse caminho, torna-se pó. | + | Não temas mais a chama do relâmpago |
| - | Não temas mais a chama do relâmpago | + | nem o raio temido do trovão; |
| - | nem o raio temido do trovão; | + | não temas mais a calúnia, a censura brutal; |
| - | não temas mais a calúnia, a censura brutal; | + | tu acabaste com alegrias e lágrimas: |
| - | tu acabaste com alegrias e lágrimas: | + | todos os jovens amantes, todos os amantes |
| - | todos os jovens amantes, todos os amantes | + | devem reunir-se a ti e tornar-se pó. \\ |
| - | devem reunir-se a ti e tornar-se pó. | + | Que nenhum exorcista te atormente! |
| - | Que nenhum exorcista te atormente! | + | que nenhuma bruxaria te enfeitiçe! |
| - | que nenhuma bruxaria te enfeitiçe! | + | Que os espectros sem sepulturas te respeitem! |
| - | Que os espectros sem sepulturas te respeitem! | + | que nada de mau te aproxime! |
| - | que nada de mau te aproxime! | + | Tenhas consumação na quietude, |
| - | Tenhas consumação na quietude, | + | e que tua tumba seja venerada! (Ibid., 258-281.) |
| - | e que tua tumba seja venerada! (Ibid., 258-281.) | + | |
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| Depositam perto da tumba de Eurífila, lado a lado Imogène e o corpo de Cloten; aspergem-nos de flores e retiram-se sem cobri-los de terra, sob pretexto de jogar sobre os corpos, à meia-noite, outras flores, «pois as ervas que têm sobre elas o orvalho frio da noite convêm melhor para florear as tumbas» (Ibid., 283-285), como se fosse a tumba e não os corpos que se tratasse de florear. Apenas partiram, que Imogène desperta, esfrega os olhos e diante da estranheza dessa cena pergunta-se longamente se sonha: | Depositam perto da tumba de Eurífila, lado a lado Imogène e o corpo de Cloten; aspergem-nos de flores e retiram-se sem cobri-los de terra, sob pretexto de jogar sobre os corpos, à meia-noite, outras flores, «pois as ervas que têm sobre elas o orvalho frio da noite convêm melhor para florear as tumbas» (Ibid., 283-285), como se fosse a tumba e não os corpos que se tratasse de florear. Apenas partiram, que Imogène desperta, esfrega os olhos e diante da estranheza dessa cena pergunta-se longamente se sonha: | ||
| - | < | + | Oh, deuses e deusas! |
| - | Oh, deuses e deusas! | + | Essas flores são parecidas aos prazeres deste mundo; |
| - | Essas flores são parecidas aos prazeres deste mundo; | + | esse cadáver sangrento é o cuidado que se mistura. |
| - | esse cadáver sangrento é o cuidado que se mistura. | + | Espero que eu sonhe… Nossos olhos mesmos |
| - | Espero que eu sonhe… Nossos olhos mesmos | + | são às vezes cegos como nossos julgamentos. Em verdade |
| - | são às vezes cegos como nossos julgamentos. Em verdade | + | eu ainda tremo de medo; mas se resta \\ |
| - | eu ainda tremo de medo; mas se resta | + | no céu uma gota de piedade fosse ela tão pequena |
| - | no céu uma gota de piedade fosse ela tão pequena | + | quanto o olho de um rei-pequeno, |
| - | quanto o olho de um rei-pequeno, | + | O sonho está sempre lá; mesmo quando estou despertada |
| - | O sonho está sempre lá; mesmo quando estou despertada | + | está fora de mim, como em mim, não imaginado, mas sentido. |
| - | está fora de mim, como em mim, não imaginado, mas sentido. | + | Um homem decapitado! (Ibid., 295-308.) |
| - | Um homem decapitado! (Ibid., 295-308.) | + | |
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| Para perpetrar seu estupro, Cloten pusera as vestimentas de Póstumo; Imogène crê reconhecer seu marido nesse corpo sem cabeça; eis bem suas mãos, seus músculos, seu porte, mas «seu rosto de Júpiter»? «Um assassinato no céu!» Ela ensopa as faces com o sangue de Cloten, «para que pareçamos mais horríveis àqueles — que por acaso nos encontrassem». E exclamando: «Oh, meu senhor, meu senhor!» ela desaba sobre o corpo decapitado (Ibid., 308-332). É assim que os Romanos a descobrirão e interrogando-a sobre o sentido de «esse desastre», obterão dela essa resposta: «Não sou nada; ou senão — não ser nada valeria melhor» (Ibid., 367-368) pois seu marido está morto. E Lúcio lhe responde: «Enxuga tuas lágrimas: certas quedas são jeito de elevar-se a mais felicidade» (Ibid., 402-403). É quase palavra por palavra o oráculo de Júpiter. | Para perpetrar seu estupro, Cloten pusera as vestimentas de Póstumo; Imogène crê reconhecer seu marido nesse corpo sem cabeça; eis bem suas mãos, seus músculos, seu porte, mas «seu rosto de Júpiter»? «Um assassinato no céu!» Ela ensopa as faces com o sangue de Cloten, «para que pareçamos mais horríveis àqueles — que por acaso nos encontrassem». E exclamando: «Oh, meu senhor, meu senhor!» ela desaba sobre o corpo decapitado (Ibid., 308-332). É assim que os Romanos a descobrirão e interrogando-a sobre o sentido de «esse desastre», obterão dela essa resposta: «Não sou nada; ou senão — não ser nada valeria melhor» (Ibid., 367-368) pois seu marido está morto. E Lúcio lhe responde: «Enxuga tuas lágrimas: certas quedas são jeito de elevar-se a mais felicidade» (Ibid., 402-403). É quase palavra por palavra o oráculo de Júpiter. | ||
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| É a etapa última sobre o caminho da perfeição que Shakespeare nos descreve no Conto de Inverno. | É a etapa última sobre o caminho da perfeição que Shakespeare nos descreve no Conto de Inverno. | ||
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