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panikkar:panikkar-palavra-silencio

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 +====== PALAVRA SILÊNCIO ======
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 +RAIMON PANIKKAR — ENTRE DEUS E O COSMOS
 +Excertos de seu livro de entrevistas concedidas a Gwendoline Jarczyk: Entre dieu et le cosmos
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 +Palavra e Silêncio
 +Não é dito na tradição cristã que a palavra seja o princípio, mas que ela está “no princípio” — e não no começo como algumas traduções inadequadas. “No princípio era a Palavra”. Ora o princípio, é o silêncio. É com efeito do silêncio — o Pai, ou ainda o Nada em certas tradições espirituais — que surge a Palavra. E logo, quando se rompe esta ligação entre silêncio e palavra — ao passo que a palavra é a encarnação, a revelação do silêncio — uma tal palavra não é mais portadora do que quer que seja, ela é vazia e mentirosa. Uma vida, é verdade, ou melhor “a” vida nos é dada para experimentar isso. A vida, “minha” vida, que não poderia se medir em tempo de relógio ou em tempo solar.
 +
 +O silêncio autêntico, certamente, não é uma ausência de palavra. Mas a que tipo de palavra encontra-se ligado? Ao que as tradições judaica, hindu e greco-cristã chamam respectivamente dabar, vac, logos — dito de outra forma, em todos os casos, a palavra “primordial”.
 +
 +“No princípio era a palavra”, está escrito na Índia cerca de sete ou oito séculos antes de São João. Não é portanto novo... No Talmude, quase na mesma época de João, chama-se esta palavra “memra”, a palavra autêntica, aquela que está mais longe de toda falação. Ora a palavra é autêntica quando procede do silêncio. Há esta colocação extraordinária de Irineu de Lião, no século II da era cristã: “Do silêncio do Pai surge a Palavra do Filho”. A palavra surge do silêncio. A palavra e o silêncio são as duas faces do mistério trinitário. Há um adágio árabe que diz: “Se tuas palavras não valem mais que teu silêncio, cala-te”. Silêncio e palavra vão estritamente de par. O êxtase do silêncio é a palavra.
 +
 +Os textos do Aitareya Brahmana e de São João (No princípio era o Verbo), e ainda outros, como fiz lembrar, dizem bem: “No princípio era a palavra”; mas a Palavra não era “o” princípio. O princípio — é assim que se traduz In principio, o arche — é o silêncio. E do silêncio surge, aparece, se revela a palavra. O Pai é o silêncio, o Filho é a Palavra, o Logos. E toda palavra que não é prenhe de silêncio não é uma palavra. Já citei este texto tão forte do evangelho no qual nos será cobrada a razão de toda palavra leviana, inútil (Bons Frutos)... O termo empregado é “anergon”, uma palavra que não tem energia, que não é sacramental, que não é causa do que diz. Mas disto perdemos o sentido. Toda palavra deve ser sacramento, deve causar o que exprime, na falta do que ela é destituída de força, sem eficiência.
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 +Uma anedota da vida de Gandhi a ilustra maravilhosamente. Deve-se contextualizá-la nas condições do ashram onde ele vivia então. Uma das mulheres do ashram demanda um dia ao Mahatma Gandhi, em um sat-sang (uma reunião): “V. poderia fazer entender a minha filha que ela come muitos doces; eu a digo que vai estragar os dentes, mas ela não me escuta; se lhe disseres talvez ela leve em conta”. Gandhi elevou sobre ela um olhar de tristeza e nada disse. Esta mulher temeu ter dado um passo em falso, de falar o que não devia ser falado. Algumas semanas mais tarde, ele reencontrou Gandhi nos serviços do ashram e sentiu a necessidade de se desculpar junto a ele por tê-lo sem dúvida importunado. “Quando me demandastes de falar a tua filha, lhe respondeu Gandhi, eu também abusava dos doces; agora, estou disto curado. Traga-a e lhe direi que não deve comer muitos doces”.
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 +Enquanto em si mesmo não se está encarnado no que se diz, as palavras não tem qualquer força. Todos os sermões do gênero “Sejam bons...”, são bla-bla-bla. Devo poder dominar eu mesmo a concupiscência que experimento diante dos doces, antes de dizer que deles não se deve abusar. “Traga-a, lhe falarei e ela poderá obedecer”... Eis aí a força da palavra que sai de um silêncio prévio, matriz de toda palavra. É por isto que a palavra, quando é verdadeiramente palavra, é revelação. E é por isto que inversamente a prostituição da palavra é um dos pecados culturais maiores da humanidade.
  

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