panikkar:panikkar-palavra-silencio
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Both sides previous revisionPrevious revision | |||
| panikkar:panikkar-palavra-silencio [27/01/2026 19:54] – mccastro | panikkar:panikkar-palavra-silencio [17/02/2026 18:34] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== PALAVRA SILÊNCIO ====== | ||
| + | |||
| + | RAIMON PANIKKAR — ENTRE DEUS E O COSMOS | ||
| + | Excertos de seu livro de entrevistas concedidas a Gwendoline Jarczyk: Entre dieu et le cosmos | ||
| + | |||
| + | Palavra e Silêncio | ||
| + | Não é dito na tradição cristã que a palavra seja o princípio, mas que ela está “no princípio” — e não no começo como algumas traduções inadequadas. “No princípio era a Palavra”. Ora o princípio, é o silêncio. É com efeito do silêncio — o Pai, ou ainda o Nada em certas tradições espirituais — que surge a Palavra. E logo, quando se rompe esta ligação entre silêncio e palavra — ao passo que a palavra é a encarnação, | ||
| + | |||
| + | O silêncio autêntico, certamente, não é uma ausência de palavra. Mas a que tipo de palavra encontra-se ligado? Ao que as tradições judaica, hindu e greco-cristã chamam respectivamente dabar, vac, logos — dito de outra forma, em todos os casos, a palavra “primordial”. | ||
| + | |||
| + | “No princípio era a palavra”, está escrito na Índia cerca de sete ou oito séculos antes de São João. Não é portanto novo... No Talmude, quase na mesma época de João, chama-se esta palavra “memra”, | ||
| + | |||
| + | Os textos do Aitareya Brahmana e de São João (No princípio era o Verbo), e ainda outros, como fiz lembrar, dizem bem: “No princípio era a palavra”; mas a Palavra não era “o” princípio. O princípio — é assim que se traduz In principio, o arche — é o silêncio. E do silêncio surge, aparece, se revela a palavra. O Pai é o silêncio, o Filho é a Palavra, o Logos. E toda palavra que não é prenhe de silêncio não é uma palavra. Já citei este texto tão forte do evangelho no qual nos será cobrada a razão de toda palavra leviana, inútil (Bons Frutos)... O termo empregado é “anergon”, | ||
| + | |||
| + | Uma anedota da vida de Gandhi a ilustra maravilhosamente. Deve-se contextualizá-la nas condições do ashram onde ele vivia então. Uma das mulheres do ashram demanda um dia ao Mahatma Gandhi, em um sat-sang (uma reunião): “V. poderia fazer entender a minha filha que ela come muitos doces; eu a digo que vai estragar os dentes, mas ela não me escuta; se lhe disseres talvez ela leve em conta”. Gandhi elevou sobre ela um olhar de tristeza e nada disse. Esta mulher temeu ter dado um passo em falso, de falar o que não devia ser falado. Algumas semanas mais tarde, ele reencontrou Gandhi nos serviços do ashram e sentiu a necessidade de se desculpar junto a ele por tê-lo sem dúvida importunado. “Quando me demandastes de falar a tua filha, lhe respondeu Gandhi, eu também abusava dos doces; agora, estou disto curado. Traga-a e lhe direi que não deve comer muitos doces”. | ||
| + | |||
| + | Enquanto em si mesmo não se está encarnado no que se diz, as palavras não tem qualquer força. Todos os sermões do gênero “Sejam bons...”, são bla-bla-bla. Devo poder dominar eu mesmo a concupiscência que experimento diante dos doces, antes de dizer que deles não se deve abusar. “Traga-a, lhe falarei e ela poderá obedecer”... Eis aí a força da palavra que sai de um silêncio prévio, matriz de toda palavra. É por isto que a palavra, quando é verdadeiramente palavra, é revelação. E é por isto que inversamente a prostituição da palavra é um dos pecados culturais maiores da humanidade. | ||
