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| + | ====== GALILEU E A MODERNIDADE (OC5) ====== | ||
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| + | //Data: 2021-11-05 12:48// | ||
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| + | ==== Obra Completa V ==== | ||
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| + | === 1933-1941 === | ||
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| + | //ORTEGA Y GASSET, José. Em torno a Galileu. Tr. Luiz Felipe Alves Esteves. Petrópolis: | ||
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| + | <tabbox português> | ||
| + | Galileu nos interessa não por acaso, solto e sem razão, ele e nós frente a frente, de homem para homem. Por pouco que analisemos nossa estima por sua figura, perceberemos que se impõe a nosso fervor, colocado num preciso quadrante, situado num grande pedaço do pretérito que tem uma forma muito precisa: é o início da Idade Moderna, do sistema de ideias, valorizações e impulsos que dominou e nutriu o solo histórico que se estende precisamente de Galileu até os nossos pés. Não é, pois, tão altruísta e generoso o nosso interesse por Galileu como à primeira vista poderíamos imaginar. Ao fundo da civilização contemporânea, | ||
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| + | Diz-se, porém, e talvez com não escasso fundamento, que todos esses princípios constitutivos da Idade Moderna se acham hoje em grave crise. Com efeito, existem não poucos motivos para presumir que o homem europeu levanta suas tendas desse solo moderno onde acampou durante três séculos e começa um novo êxodo para outro âmbito histórico, para outro modo de existência. O que quer dizer: a terra da Idade Moderna que começa sob os pés de Galileu termina sob nossos pés. Que já a abandonaram. | ||
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| + | Mas, então, a figura do grande italiano adquire para nós um interesse mais dramático, interessa-nos então muito mais interessadamente. Porque se é certo que vivemos uma situação de profunda crise histórica, se é certo que saímos de uma Idade para entrar em outra, importa-nos muito: 1) considerar integralmente em fórmula rigorosa como era esse sistema de vida que abandonamos; | ||
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| + | Todo aquele que intentou estudar a época europeia que vai de 1400 a 1600 se deu conta de que é entre todos os períodos da nossa história ocidental o mais confuso e hoje em dia indominado. Em 1860 publicou Jacob Burckhardt seu Cultura do Renascimento na Itália. Pela primeira vez a palavra Renascimento. que andava ao léu desde Vasari com significados indecisos, adquire um sentido preciso e representa a definição de um tempo histórico. Era um primeiro ensaio de esclarecimento que punha um esquema de ordem sobre três séculos de confusa memória. Uma vez mais se pôde ver que o conhecimento não consiste em pôr o homem frente à pululação inumerável dos fatos brutos, dos dados nus. Os fatos, os dados, embora sendo efetivos, não são a realidade, não têm por si realidade e, como não a têm, mal podem entregá-la à nossa mente. Se para conhecer o pensamento não tivesse outra coisa que fazer senão refletir uma realidade que já está aí, nos fatos, pronta como uma virgem prudente à espera do esposo, a ciência seria tarefa cômoda e há muitos milênios o homem teria descoberto todas as verdades urgentes. Mas acontece que a realidade não é um presente que os fatos dão ao homem. Por séculos e séculos os fatos siderais estavam patentes aos olhos humanos e, todavia, o que esses fatos apresentavam ao homem, o que esses fatos patentizavam não era uma realidade, mas todo o contrário, era um enigma, um arcano, um problema, diante do qual ele estremecia de pavor. Os fatos vêm a ser, pois, as figuras de um hieróglifo. Repararam os senhores na paradoxal condição dessas figuras? Elas nos apresentam ostentosamente seus claríssimos perfis, mas esse seu claro aspecto está aí precisamente para nos propor um enigma, para produzir em nós confusão. A figura hieroglífica nos diz: “Vês-me bem? Ótimo, pois isso que vês de mim não é meu verdadeiro ser. Estou aqui para avisar-te que eu não sou minha efetiva realidade. Minha realidade, meu sentido está por detrás de mim, oculto por mim. Para chegar a ele tens que não confiar em mim, que não me tomar a mim como a realidade mesma, mas, ao contrário, tens que interpretar-me e isso supõe que terás de buscar como verdadeiro sentido deste hieróglifo outra coisa muito diferente do aspecto que oferecem suas figuras”. | ||
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| + | A ciência é. com efeito, interpretação dos fatos. Por si mesmos eles não nos dão a realidade, ao contrário, ocultam-na, isto é, nos propõem o problema da realidade. Se não houvesse [25] fatos não haveria problemas, não haveria enigma, não haveria nada oculto que fosse preciso des-ocultar, | ||
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| + | Essa tarefa é a ciência; como se vê. consiste em duas operações distintas. Uma puramente imaginativa, | ||
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| + | Não devia ser necessário tornar isso manifesto: quem quer que se ocupe de trabalho científico deveria sabê-lo. Toda a ciência moderna não tem feito senão isso, e seus criadores sabiam muito bem que a ciência dos fatos, dos fenômenos, tem que em certo ponto desinteressar-se deles, tirá-los de sua frente e ocupar-se em puro imaginar. Assim, por exemplo: os corpos lançados se movem de inumeráveis modos, sobem, descem, seguem em seus trajetos as curvas mais diversas, com as mais diferentes velocidades. Em tão imensa variedade nos perdemos, e, por mais observações que façamos sobre os fatos do movimento, não logramos descobrir o verdadeiro ser do movimento. Em troca, que faz Galileu? Em vez de perder-se na selva dos fatos, entrando neles como passivo espectador, começa por imaginar a gênese do movimento nos corpos lançados: cujus motus generationem talem constituo. Mobile quoddam super planum horizontale projectum mente concipio omni secluso impedimento. Assim inicia Galileu a jornada quarta de seu último livro intitulado Diálogo das novas ciências ou Discorsi e dimostrazione in torno a due nuove scienze attenenti a la mecanica ed ai movimenti locali (Essas duas ciências são [26] nada mais nada manos que a física moderna). “Concebo por obra da minha mente um móvel lançado sobre um plano horizontal e retirado todo impedimento”. Quer dizer: trata-se de um móvel imaginário num plano idealmente horizontal e sem nenhum obstáculo — mas esses obstáculos, | ||
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| + | Pois bem, eu tenho a convicção de que se avizinha um esplêndido florescimento das ciências históricas, | ||
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| + | <tabbox original> | ||
| + | Galileo nos interesa no así como así, suelto y sin más, frente a frente él y nosotros, de hombre a hombre. A poco que analicemos nuestra estimación hacia su figura, advertiremos que se adelanta a nuestro fervor, colocado en un preciso cuadrante, alojado en un gran pedazo del pretérito que tiene una forma muy precisa: es la iniciación de la Edad Moderna, del sistema de ideas, valoraciones e impulsos que ha dominado y nutrido el suelo histórico que se extiende precisamente desde Galileo hasta nuestros pies. No es, pues, tan altruista y generoso nuestro interés hacia Galileo como al pronto podíamos imaginar. Al fondo de la civilización contemporánea, | ||
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| + | Pero se dice, y tal vez con no escaso fundamento, que todos esos principios constitutivos de la Edad Moderna se hallan hoy en grave crisis. Existen, en efecto, no pocos motivos para presumir que el hombre europeo levanta sus tiendas de ese suelo moderno donde ha acampado durante tres siglos y comienza un nuevo éxodo hacia otro ámbito histórico, hacia otro modo de existencia. Esto querría decir: la tierra de la Edad Moderna que comienza bajo los pies de Galileo termina bajo nuestros pies. Éstos la han abandonado ya. | ||
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| + | Pero, entonces, la figura del gran italiano cobra para nosotros un interés más dramático, entonces nos interesa mucho más interesadamente. Porque si es cierto que vivimos una situación de profunda crisis histórica, si es cierto que salimos de una Edad para entrar en otra, nos importa mucho: 1.º, hacernos bien cargo, en rigorosa fórmula, de cómo era ese sistema de vida que abandonamos; | ||
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| + | Todo el que se ha acercado a estudiar la etapa europea que va de 1400 a 1600 se ha dado cuenta de que es entre todos los períodos de nuestra historia occidental el más confuso y hoy por hoy indominado. En 1860 publicó Jacobo Burckhardt su Cultura del Renacimiento en Italia. Por vez primera la palabra Renacimiento, | ||
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| + | La ciencia es, en efecto, interpretación de los hechos. Por sí mismos no nos dan la realidad, al contrario, la ocultan, esto es, nos plantean el problema de la realidad. Si no hubiera hechos no habría problema, no habría enigma, no habría nada oculto que es preciso des-ocultar, | ||
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| + | Esta faena es la ciencia; como se ve consiste en dos operaciones distintas. Una puramente imaginativa, | ||
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| + | No debía ser necesario hacer constar esto: todo el que se ocupa de labores científicas debiera saberlo. Toda la ciencia moderna no ha hecho sino eso y sus creadores sabían muy bien que la ciencia de los hechos, de los fenómenos tiene en un cierto momento que desentenderse de éstos, quitárselos de delante y ocuparse en puro imaginar. Así, por ejemplo: los cuerpos lanzados se mueven de innumerables modos, suben, bajan, siguen en su trayecto las curvas más diversas, con las más distintas velocidades. En tan inmensa variedad nos perdemos y por muchas observaciones que hagamos sobre los hechos del movimiento, no lograremos descubrir el verdadero ser del movimiento. ¿Qué hace, en cambio, Galileo? En vez de perderse en la selva de los hechos entrando en ellos como pasivo espectador, comienza por imaginar la génesis del movimiento en los cuerpos lanzados cujus motus generationem talem constituo. Mobile quoddam super planum horizontale proiectum mente concipio omni secluso impedimento. | ||
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| + | Así inicia Galileo la Jomada cuarta de su libro postrero titulado Diálogo de las nuevas ciencias o Discorsi e dimostrazione in torno a due nuove Science attenenti a la Mecánica ed ai movimenti locali. Estas nuevas ciencias son, nada menos, la física moderna. | ||
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| + | «Concibo por obra de mi mente un móvil lanzado sobre un plano horizontal y quitando todo impedimento». Es decir, se trata de un móvil imaginario en un plano idealmente horizontal y sin estorbo alguno —pero esos estorbos, impedimentos que Galileo imaginariamente quita al móvil son los hechos—, ya que todo cuerpo observable se mueve entre impedimentos, | ||
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| + | Pues bien, yo tengo la convicción de que se avecina un espléndido florecimiento de las ciencias históricas debido a que los historiadores se resolverán a hacer mutatis mutandis, frente a los hechos históricos, | ||
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| + | Este carácter, en parte al menos, imaginativo de la ciencia hace de ella una hermana de la poesía. Pero entre la imaginación de Galileo y la de un poeta hay una radical diferencia: aquélla es una imaginación exacta. El móvil y el plano horizontal que con su mente concibe son figuras rigorosamente matemáticas. Ahora bien, la materia histórica no tiene nada esencial que ver con lo matemático. ¿Tendrá por ello que renunciar a ser una construcción, | ||
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