ortega:ortega-y-gasset-a-vida-inventada
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| + | ====== VIDA INVENTADA ====== | ||
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| + | //Data: 2022-03-23 15:50// | ||
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| + | José Ortega y Gasset | ||
| + | Trad. e prólogo de Luis Washington Vita | ||
| + | 1963 | ||
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| + | III O ESFORÇO PARA POUPAR ESFORÇO É ESFORÇO — O PROBLEMA DO ESFORÇO POUPADO — A VIDA INVENTADA// | ||
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| + | III O ESFORÇO PARA POUPAR ESFORÇO É ESFORÇO — O PROBLEMA DO ESFORÇO POUPADO — A VIDA INVENTADA | ||
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| + | Meu livro A rebelião das massas (Traduzido em português por LIAL, Rio de Janeiro, 1959, 2.a ed., 1962) está inspirado, entre outras coisas, pela espantosa suspeita que sinceramente sentia então — ali por 1927 e 1928; notem-no os senhores, as datas da prosperity — de que a magnífica, a fabulosa técnica atual corria perigo e perfeitamente podia ocorrer que se nos escorresse por entre os dedos e desaparecesse em muito menos tempo de quanto se pode imaginar. Hoje, cinco anos depois, minha suspeita não fêz senão aumentar pavorosamente. Vejam, pois, os engenheiros como para ser engenheiro não basta com ser engenheiro. Enquanto se estão ocupando em sua faina particular, a história lhes retira o solo debaixo dos pés. | ||
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| + | É preciso estar alerta e sair do próprio ofício: explorar bem a paisagem da vida, que é sempre total. A faculdade suprema para viver não a dá nenhum ofício, nem nenhuma ciência: é a sinopse de todos os ofícios e todas as ciências e, de resto, muitas outras coisas. É a integral cautela. A vida humana e tudo nela é um constante e absoluto risco. Todo o quociente se vai pelo ponto menos previsível: | ||
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| + | Uma coisa é, pelo menos, claríssima: | ||
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| + | Não se fale, pois, da técnica como da única coisa positiva, da única realidade incomovível do homem. Isso é uma estupidez, e quanto mais cegos estejam por ela os técnicos, mais provável é que a técnica atual acabe, por ruir e periclitar. | ||
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| + | Basta com que mude um pouco substancialmente o perfil do bem-estar que se esboça diante do homem, que sofra uma mutação de algum vulto a ideia da vida, da qual, a partir da qual e para a qual faz o homem tudo o que faz, para que a técnica tradicional se abale, se desconjunte e tome outros rumos. | ||
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| + | Há quem acredite que a técnica atual está mais firme na história que outras porque ela mesma, como tal técnica, possui ingredientes que a diferenciam de todas as outras, por exemplo, seu embasamento nas ciências. Esta presumida segurança é ilusória. A indiscutível superioridade da técnica presente, como tal técnica, é, por outro lado, seu fator de maior fraqueza. Se se baseia na exatidão da ciência, quer dizer-se que se apoia em mais supostos e condições que as outras, ao fim e ao cabo mais independentes e espontâneas. | ||
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| + | Todas estas seguranças são as que precisamente estão fazendo perigar a cultura europeia. O progressismo, | ||
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| + | Mas deixemos isto, já que não é matéria em que possamos entrar agora seriamente. Resumamos, ao contrário, quanto eu disse até agora: | ||
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| + | 1.°) Não há homem sem técnica. | ||
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| + | 2.°) Essa técnica varia em máximo grau e é sobremaneira inestável, dependendo qual e quanta seja em cada momento da ideia de bem-estar que o homem tenha então. Ao tempo de Platão, a técnica dos chineses, em não poucos setores, era incomparavelmente superior à dos gregos . Existem certas obras da técnica egípcia que são superiores a quanto hoje faz o europeu; por exemplo, o lago Meris, de que fala Heródoto, que um tempo se acreditou fabuloso e cujo resíduo foi depois descoberto. Nesta gigantesca obra hidráulica se armazenavam 3 430 000 000 de metros cúbicos, e graças a isso a região do Delta, que hoje é um deserto, era superlativamente fértil . O mesmo acontece com os foggara do deserto saárico. | ||
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| + | 3.°) Outra questão é se não há em todas as técnicas passadas um torso comum em que foi acumulando seus descobrimentos, | ||
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| + | Logo mais falaremos um pouco dos diversos tipos de técnica, de suas vicissitudes, | ||
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| + | Atos técnicos — dizíamos — não são aqueles em que fazemos esforços para satisfazer diretamente nossas necessidades, | ||
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| + | 1.° Assegurar a satisfação das necessidades, | ||
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| + | 2.° Conseguir essa satisfação com o mínimo esforço. | ||
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| + | 3.° Criar-nos possibilidades completamente novas produzindo objetos que não existem na natureza do homem. Assim, o navegar, o voar, o falar com o antípoda mediante o telégrafo ou a radiocomunicação. | ||
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| + | Deixando por ora o terceiro ponto, notemos os dois traços salientes de toda técnica: que diminui, às vezes quase elimina, o esforço imposto pela circunstância e que o consegue reformando esta, reagindo contra ela e obrigando-a a adotar formas novas que favorecem ao homem. | ||
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| + | Na poupança de esforço que a técnica proporciona podemos incluir, como um de seus componentes, | ||
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| + | Temos, pois, que a técnica é, assim, o esforço para poupar esforço ou, em outras palavras, é o que fazemos para evitar por completo, ou em parte, as canseiras que a circunstância primariamente nos impõe. Nisto se acha toda gente de acordo; mas é curioso que somente se entende por uma de suas faces, a menos interessante, | ||
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| + | Não se cai na conta do surpreendente que é que o homem se esforce precisamente em poupar-se esforço? Dir-se-á que a técnica é um esforço menor com que evitamos um esforço muito maior e, portanto, uma coisa perfeitamente clara e razoável . Certo; mas isso não é o enigmático, | ||
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| + | Mas o fato de a técnica atual apresentar tão às claras esta questão não quer dizer que não preexista desde sempre em toda técnica, pôs-to que toda ela leva a uma poupança de cancei-ra e não acidentalmente ou como resultado qué sobrevém ao ato técnico, senão que esse afã de poupar esforço é o que inspira a técnica. A questão, pois, não é adjacente, senão que pertence à própria essência da técnica, e esta não se entende se nos contentamos com confirmar que poupa esforço e não nos perguntamos em que se emprega o esforço disponível. | ||
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| + | E eis aqui como a meditação sobre a técnica nos faz topar dentro dela, como com o caroço num fruto, com o raro mistério do ser do homem. Porque é este um ente forçado, se quer existir, a existir na natureza, submerso nela; é um animal. Zoologicamente, | ||
