ortega:mt:relatividade-da-tecnica
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| + | ====== RELATIVIDADE DA TÉCNICA. ====== | ||
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| + | José Ortega y Gasset | ||
| + | Trad. e prólogo de Luis Washington Vita | ||
| + | 1963 | ||
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| + | II O ESTAR E O BEM-ESTAR. — A " | ||
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| + | II O ESTAR E O BEM-ESTAR. — A " | ||
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| + | Reatemo-nos com a lição anterior. | ||
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| + | Atos técnicos — dizíamos — não são aqueles em que o homem procura satisfazer diretamente as necessidades que a circunstância ou natureza as faz sentir, mas precisamente aquê^ les que levam a reformar essas circunstâncias eliminando no possível dela essas necessidades, | ||
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| + | Esta reação contra seu contorno, este não resignar-se contentando-se com o que o mundo é, é o específico do homem. Por isso, mesmo estudado zoologicamente, | ||
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| + | Mas, até agora, apresentava-se-nos a técnica como uma reação às necessidades orgânicas ou biológicas. Lembram os senhores que insisti em precisar o sentido do termo " | ||
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| + | Mas é o caso que a técnica não se reduz a facilitar a satisfação de necessidades deste gênero. Tão antigos como os inventos de utensílios e procedimentos para esquentar-se, | ||
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| + | Porque isso nos revela que o primitivo não sentia menos como necessidade o proporcionar-se certos estados prazeirosos que o satisfazer suas necessidades mínimas para não morrer; portanto, que desde o princípio o conceito de " | ||
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| + | Precisemos, antes de prosseguir, a situação a que chegamos: na lição anterior considerávamos o esquentar-se e o alimentar-se como necessidades humanas, por ser condições objetivas do viver, no sentido de mero existir e simples estar no mundo. São, pois, necessárias na medida em que seja ao homem necessário viver. E notávamos que, com efeito, o homem mostrava um raro e obstinado empenho em viver. Mas esta expressão, agora o percebemos, era equívoca. O homem não tem empenho algum por estar no mundo. No que tem empenho é em estar bem. Somente isto lhe parece necessário e todo o resto é necessidade somente na medida em que faça possível o bem-estar. Portanto, para o homem somente é necessário o objetivamente supérfluo. Isto se julgará paradoxal, mas é a pura verdade. As necessidades biologicamente objetivas não são, por si, necessidades para ele. Quando se encontra preso a elas se nega a satisfazê-las e prefere sucumbir. Somente se convertem em necessidades quando aparecem como condições do "estar no mundo", | ||
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| + | Tudo se esclarece, ao contrário, se se adverte que as finalidades são distintas: de um lado servir à vida orgânica, que é adaptação do sujeito ao meio, simples estar na natureza. De outro, servir à boa vida, ao bem-estar, que implica adaptação do meio à vontade do sujeito. | ||
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| + | Fiquemos, pois, em que as necessidades humanas o são somente em função do bem-estar. Somente poderemos então averiguar quais são aquelas se averiguamos que é o que o homem entende por seu bem-estar. E isto complica formidavelmente as coisas. Porque. . . vão os senhores saber tudo o que o homem entendeu, entende ou entenderá por bem-estar, por necessidade das necessidades, | ||
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| + | Para Pompeu não era necessário viver, mas era necessário navegar, com o que renovava o lema da sociedade milésia dos aeinautai — os eternos navegantes — aos quais Tales pertenceu, criadores de um novo comércio audaz, uma nova política audaz, um novo conhecimento audaz — a ciência ocidental. | ||
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| + | Existe o faquir, o asceta, de um lado; o sensual, o glutão, de outro. | ||
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| + | Temos, pois, que enquanto o simples viver, o viver em sentido biológico, é uma grandeza fixa que para cada espécie está definida de uma vez para sempre, isso que o homem chama viver, o bom viver ou bem-estar é um termo sempre móvel, ilimitadamente variável. E como o repertório de necessidades humanas é função dele, resultam estas não menos variáveis, e como a técnica é o repertório de atos provocados, suscitados pelo e inspirados no sistema dessas necessidades, | ||
