ortega:mt:ensimesmamento-e-alteracao-5393
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| ortega:mt:ensimesmamento-e-alteracao-5393 [17/02/2026 18:34] – created - external edit 127.0.0.1 | ortega:mt:ensimesmamento-e-alteracao-5393 [15/09/2026 20:19] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== ENSIMESMAMENTO E ALTERAÇÃO ====== | ||
| + | |||
| + | |||
| + | |||
| + | 1. ENSIMESMAMENTO E ALTERAÇÃO | ||
| + | |||
| + | [O texto desta lição, na sua maior parte, corresponde à primeira das ministradas em Buenos Aires, em 1939, que foi publicada no livro ENSIMESMAMENTO E ALTERAÇÃO. MEDITAÇÃO DA TÉCNICA. Espasa-Calpe Argentino, Buenos Aires, 1939.] | ||
| + | |||
| + | Trata-se do seguinte: falam os homens hoje, a toda hora, da lei e do direito, do estado, da nação e do internacional, | ||
| + | |||
| + | Uma dessas precauções, | ||
| + | |||
| + | Fala-se, fala-se de todas essas questões, mas o que se diz sobre elas carece da clareza mínima, sem a qual a operação de falar acaba sendo nociva. Porque falar traz sempre algumas consequências e, como dos citados temas se tem falado muito, - há anos quase não se fala, nem se deixa falar de outra coisa, - as consequências dessa loquacidade são, evidentemente, | ||
| + | |||
| + | Uma das maiores desgraças do tempo é a aguda incongruência entre a importância que têm no presente todas essas questões e a rudeza e confusão dos conceitos sobre as mesmas, que esses vocábulos representam. | ||
| + | |||
| + | Note-se que todas essas ideias, - lei, direito, estado, inter-nacionalidade, | ||
| + | |||
| + | Não esquecerei jamais a surpresa, pintada de vergonha s de escândalo, que senti quando, faz muitos anos, consciente de minha ignorância sobre este tema, acudi cheio de ilusão, soltas todas as velas da esperança, aos livros de sociologia, e me encontrei com uma coisa incrível, a saber, que os livros de sociologia não nos dizem nada claro sobre o que é o social, sobre o que seja a sociedade. Mais ainda: não somente não conseguem dar-nos uma noção precisa do que é o social, do que é a sociedade, como ainda, ao ler esses livros, descobrimos que seus autores, - os senhores sociólogos, | ||
| + | |||
| + | Eu não posso, é claro, demonstrar isso agora, porque tal intento ocuparia muito, do escasso tempo que temos a nossa disposição. Baste-me fazer esta simples observação estatística que me parece ser o cúmulo. | ||
| + | |||
| + | Primeiro: as obras nas quais Augusto Comte inicia a ciência sociológica sobem a mais de cinco mil páginas com letra bem apertada. Pois bem: entre todas elas, não encontraremos linhas bastantes para encher uma página e que tratem de dizer-nos o que Augusto Comte entende por Sociedade. | ||
| + | |||
| + | Segundo: o livro em que essa ciência ou pseudociência celebra o seu primeiro triunfo sobre o horizonte intelectual, | ||
| + | |||
| + | Enfim, há poucos anos apareceu o livro de Bergson, - no mais, encantador - intitulado "As Duas Fontes da Moral e da Religião" | ||
| + | |||
| + | Isso não quer dizer, nem muito menos, que nessas obras, como em algumas outras, faltem entrevisões, | ||
| + | * Como anda você, bom homem? - pergunta o cego ao entrevado. E este responde ao cego: | ||
| + | * Como vê, amigo. . . | ||
| + | |||
| + | Se isso acontece com os mestres do pensamento sociológico, | ||
| + | |||
| + | Eis aí como a inépcia da sociologia, enchendo de ideias confusas as cabeças, chegou a converter-se em uma das pragas do nosso tempo. Corn efeito, a sociologia não está à altura dos tempos; por isso, os tempos, mal sustentados em sua altitude, caem e se precipitam. | ||
| + | |||
| + | Se isso é assim, não lhes parece que seria uma das melhores maneiras de não perder por completo o tempo que vamos passar juntos, dedicar-nos a esclarecer um pouco o que é o social, o que é a sociedade? Muitos sabem bem pouco ou sabem nada do assunto. Por que não juntar nossas ignorâncias? | ||
| + | |||
| + | Partamos, pois, mais uma vez, à procura de ideias claras. Isto é de verdades. | ||
| + | |||
| + | São muito poucos os povos que a estas horas, - e me refiro a antes de estalar esta guerra tão tôrva, que estranhamente nasce como se não quisesse acabar de nascer, - são muito poucos, digo, os povos que nos últimos tempos gozavam já da tranquilidade de horizontes que permite escolher de verdade, recolher-se na reflexão. Quase todo o mundo está alterado, e na alteração o homem perde o seu atributo mais essencial: a possibilidade de meditar, de recolher-se dentro de si mesmo, para se pôr de acordo consigo mesmo e precisar, para si mesmo, aquilo que crê; aquilo que estima de verdade e o que deveras detesta. A alteração o obnubila, o cega, o obriga a atuar mecanicamente em um frenético sonambulismo. | ||
| + | |||
| + | Em nenhuma parte advertimos que a possibilidade de meditar é, de fato, o atributo essencial do homem, melhor do que no Jardim Zoológico, diante das jaulas de nossos primos, os macacos. O pássaro e o crustáceo são formas de vida demasiado distantes da nossa para que, ao confrontarmo-nos com eles, percebamos outra coisa senão diferenças avultadas, abstratas, vagas, de tão excessivas. O símio, porém, tanto se parece conosco que nos convida a afinar a comparação, | ||
| + | |||
| + | Se sabemos permanecer quietos um instante, contemplando passivamente a cena simiesca, em breve se destacará dela, como que espontaneamente, | ||
| + | |||
| + | Contemplando esse destino de inquietação sem descanso, chega o momento em que nos dizemos: "que trabalho!" | ||
| + | |||
| + | Com palavras que, de muito usadas, como velhas moedas, já não conseguem dizer com vigor o que pretendem, costumamos chamar a essa operação: pensar, meditar. Estas expressões, | ||
| + | |||
| + | Note-se que essa maravilhosa faculdade que o homem tem, de libertar-se transitoriamente de ser escravizado pelas coisas, implica dois poderes muito diferentes: um, o de não atender, mais ou menos tempo, ao mundo em torno, sem risco fatal; outro, o de ter onde meter-se, onde estar, quando saiu virtualmente do mundo. Baudelaire expressa essa faculdade com romântico e amaneirado dandysmo quando, ao perguntar-lhe alguém onde preferiria | ||
| + | |||
| + | Porque as ideias possuem a extravagantíssima condição de que não estão em nenhum sítio do mundo, que estão fora de todos o lugares, embora simbolicamente as alojemos em nossa cabeça, como os gregos de Homero as alojavam no coração e os pré-homéricos as situavam no diafragma ou no fígado. Todas essas mudanças de domicílio simbólico, que fazemos as ideias padecerem, coincidem sempre nisso.- colocá-las numa víscera,- isto é, em uma entranha, ou seja: no mais íntimo do corpo, embora o dentro do corpo seja sempre um dentro meramente relativo. Dessa maneira, damos uma expressão materializada, | ||
| + | |||
| + | Eis aí porque o animal tem de estar sempre atento ao que se passa fora dele, às coisas em torno. Porque, ainda que estas diminuíssem os seus perigos e as suas incitações, | ||
| + | |||
| + | O animal é pura alteração. Não pode ensimesmar-se. Por isso, quando as coisas deixam de ameaçá-lo ou acariciá-lo; | ||
| + | |||
| + | Mas, bem entendido, - e com isto topamos pela primeira vez com algo que reiteradamente nos vai aparecer em quase todos os cantos e ângulos deste curso, embora cada vez em estratos mais profundos e em virtude de razões mais precisas e eficazes, - as que agora ofereço não são nem uma nem outra coisa; bem entendido, que estas duas coisas, o poder que o homem tem de subtrair-se ao mundo e o de ensimesmar-se não são dons feitos ao homem. Importa-me sublinhar isto para aqueles que se ocupam de filosofia: não são dons feitos ao homem. Nada que seja substantivo foi presenteado ao homem. Êle próprio tem de fazer tudo para si. | ||
| + | |||
| + | Por isso, se o homem goza desse privilégio de liberar-se transitoriamente das coisas, e de poder entrar e descansar em si mesmo, é porque, com seu esforço, seu trabalho e suas ideias, conseguiu reoperar sobre as coisas, transformá-las e criar em seu redor uma margem de segurança sempre limitada, mas sempre ou quase sempre em aumento. Esta criação especificamente humana é a técnica. Graças a ela, e na medida de seu progresso, o homem pode ensimesmar-se. Mas também vice-versa, o homem é técnico, é capaz de modificar seu contorno no sentido de sua conveniência, | ||
| + | |||
| + | Parece-me que presentemente podemos representar-nos, | ||
| + | |||
| + | Acha-se o homem, não menos do que o animal, consignado ao mundo, às coisas em torno, à circunstância. Em princípio, sua existência mal difere da existência zoológica: êle, também, vive governado pelo contorno, inserido entre as coisas do mundo como uma delas. | ||
| + | |||
| + | O padre Chevesta, explorador e missionário, | ||
| + | |||
| + | " | ||
| + | |||
| + | Mas, embora instantâneo e tosco, esse primitivo ensimesma-mento vai separar radicalmente a vida humana da vida animal. Porque agora o homem, esse homem primigênio vai submergir novamente nas coisas do mundo, resistindo a elas, sem entregar-se de todo a elas. Leva um plano contra elas, um projeto de trato com elas, de manipulação de suas formas, que produz uma transformação mínima em seu redor, suficiente para que o oprimam um pouco menos e, em consequência, | ||
| + | |||
| + | São, pois, três momentos diferentes que ciclicamente se repetem ao longo da história humana em formas cada vez mais complexas e densas: I) O homem se sente perdido, naufragado nas coisas; é a alteração. II) O homem, com enérgico esforço, se recolhe à sua intimidade para formar ideias sobre as coisas e seu possível domínio; é o ensimesmamento, | ||
| + | |||
| + | De acordo com isto, não se pode falar de ação senão na medida em que esteja regida por uma prévia contemplação; | ||
| + | |||
| + | O destino do homem é, portanto, primariamente ação. Não vivemos para pensar, mas ao contrário: pensamos para conseguir perviver. Este é um ponto capital em que, a meu juízo, urge que nos oponhamos radicalmente a toda tradição filosófica e nos resolvamos a negar que o pensamento, em qualquer sentido suficiente do vocábulo, tenha sido dado ao homem de uma vez para sempre, de forma que este o encontre, sem mais, à sua disposição, | ||
| + | |||
| + | Se esta pertinaz doutrina fosse válida, teria como resultado que, | ||
| + | |||
| + | Longe de ter sido presenteado o pensamento ao homem, a verdade é que, - uma verdade que agora não possa arrazoar suficientemente, | ||
| + | |||
| + | A condição do homem é, pois, incerteza substancial. Por isso está tão bem aquela máxima, gràcilmente amaneirada, de um senhor borgonhês do século XV: "Rien ne m'est sur que Ia chose incertaine" | ||
| + | |||
| + | Não existe aquisição humana que seja firme. Mesmo aquilo que nos parece mais conseguido e consolidado pode desaparecer em poucas gerações. Isso que chamamos " | ||
| + | |||
| + | A história nos conta inumeráveis retrocessos, | ||
| + | |||
| + | Não escassa porção das angústias que retorcem hoje as almas do Ocidente provém de que durante o século passado, - e quiçá pela primeira vez na história, - o homem chegou a crer-se seguro. Porque a verdade é que seguro, seguro, só conseguiu sentir-se o farmacêutico monsieur Homais, produto nítido do progressismo! A ideia progressista consiste em afirmar não somente que a humanidade, - um ente abstrato, irresponsável, | ||
| + | |||
| + | Segue-se isto à conta de que o pensamento não é um dom do homem, mas aquisição laboriosa, precária | ||
| + | |||
| + | Assim pensando se compreenderá que me pareça um tanto ridícula a definição que Lineu e o século XVIII davam do homem, como homo sapiens. Porque, se entendermos esta expressão com boa fé, ela só pode significar para nós que o homem, com efeito, sabe, isto é, que sabe tudo o que precisa saber. Ora; nada mais longe da realidade. Jamais o homem soube o que necessitava saber. | ||
| + | |||
| + | Conste, pois, que o homem não exercita o seu pensamento porque o encontra como um presente, mas porque, não tendo mais remédio senão viver submergido no mundo e bracejar entre as coisas, se vê obrigado a organizar as suas atividades psíquicas, não muito diferentes das do antropóide, | ||
| + | |||
| + | O homem, portanto, mais do que pelo que é, pelo que tem, escapa à escala zoológica por aquilo que faz, por sua conduta. Daí o ter de estar sempre vigiando-se a si mesmo. | ||
| + | |||
| + | Isto é algo daquilo que eu desejava insinuar na frase, - que não parece senão uma frase, - segundo a qual não vivemos para pensar | ||
| + | |||
| + | Veja-se como isso de atribuir ao homem o pensamento como uma qualidade ingênita, - que, de início, parece uma homenagem e até uma adulação à sua espécie, - é, em rigor, uma injustiça. Porque não há esse dom nem tal presente; ao contrário, êle é uma penosa fabricação e uma conquista, como toda conquista, - seja de uma cidade, seja de uma mulher, - sempre inestável e fugidiça. | ||
| + | |||
| + | Era necessária essa advertência sobre o pensamento, para ajudar a compreender meu enunciado anterior, segundo o qual o homem é primária e fundamentalmente ação. Homenageemos, | ||
| + | |||
| + | Vimos que ação não é qualquer caminhar aos golpes com as coisas em torno, ou com os outros homens-, isso é o infra-umano, | ||
| + | |||
| + | Esta relação, porém, - que é a efetiva, - entre ação e contemplação, | ||
| + | |||
| + | Essa doutrina é o que se tem chamado intelectualismo, | ||
| + | |||
| + | Sob o nome, primeiro, de raison, logo de ilustração, | ||
| + | |||
| + | Essa maneira de inverter a relação efetiva entre vida e cultura, entre ação e contemplação, | ||
| + | |||
| + | O mais grave, porém, nessa aberração intelectualista que significa a beatice da cultura, não é isso, mas consiste em apresentar ao homem a cultura, o ensimesmamento, | ||
| + | |||
| + | À aberração intelectualista que isola a contemplação da ação, sucedeu a aberração oposta: a voluntarista, | ||
| + | |||
| + | Como outras vezes aconteceu no passado conhecido, voltam agora, - e me refiro a estes anos, quase ao que já passou do século, - voltam agora os povos a submergir-se na alteração. O mesmo que aconteceu em Roma! A Europa começou deixando-se atropelar pelo prazer, como Roma, pelo que Ferrero chamou a luxúria, o excesso, o luxo das comodidades. Logo sobreveio o atropelamento pela dor e pelo pavor. Como em Roma, as lutas sociais e as consequentes guerras encheram as almas de estupor. E o estupor, a máxima forma de alteração, | ||
| + | |||
| + | É claro que, como o homem é o animal que conseguiu meter-se dentro de si, quando o homem se põe fora de si é que aspira a descer, e recai na animalidade. Tal é a cena, sempre idêntica, das épocas em que se diviniza a pura ação. O espaço se povoa de crimes. Perde valor, perde preço a vida dos homens, e se praticam todas as formas da violência e da espoliação. Sobretudo da espoliação. Por isso, sempre que se observe que ascende sobre o horizonte e chega ao predomínio a figura do puro homem de ação, a primeira coisa que cada um deve fazer é abotoar-se. Quem quer aprender, de verdade, os efeitos que a espoliação causa em uma grande civilização pode vê-lo no primeiro livro de alta classe que se escreveu sobre o Império Romano, - até agora, não sabíamos o que este havia sido, - refiro-me ao livro do grande russo Rostovzeff, professor há muitos anos na América do Norte, intitulado: " | ||
| + | |||
| + | Deslocada desta forma de sua normal conjuntura com a contemplação, | ||
| + | |||
| + | Estando assim as coisas, parece prudente que, onde as circunstâncias permitam alento, por mínimo que seja, se rompa esse círculo mágico da alteração, | ||
| + | |||
| + | Não julgo, pois, que seja nenhuma extravagância nem inso-lência se, ao chegar a um pais que goza ainda de serenidade, em seu horizonte, penso que a obra mais fértil que possa fazer para si mesmo e para os demais humanos não é contribuir para a alteração do mundo, e, menos ainda, alterar-se êle mais do que é devido, por conta de alterações estranhas, mas aproveitar sua afortunada situação para fazer o que os outros agora não podem: ensimesmar-se um pouco. Se agora, ali onde é possível, não se cria um tesouro de novos projetos humanos, - isto é, de ideias, - pouco podemos confiar no futuro. A metade das tristes coisas que hoje acontecem, a metade delas ocorre porque esses projetos faltaram, como o anunciei por volta de 1922, no prólogo de meu livro " | ||
| + | |||
| + | Sem retirada estratégica a si mesmo, sem pensamento alerta, a vida humana é impossível. Recorde-se tudo que o homem deve a certos grandes ensimesmamentos! Não é um acaso que todos os grandes fundadores de religiões antepusessem famosos retiros a seu apostolado. Buda se retira para a montanha; Mahomé se retira para sua tenda, e ainda dentro de sua tenda se retira dela, envolvendo a cabeça com seu albornoz; superando a todos, Jesus se apartou quarenta dias no deserto. Que devemos a Newton? Quando alguém, maravilhado de que tivesse conseguido reduzir a um sistema tão exato e simples os inumeráveis fenômenos da física, lhe perguntava como tinha conseguido fazê-lo, respondia ingenuamente: | ||
| + | |||
| + | Há hoje uma grande coisa no mundo que está moribunda, e é | ||
| + | |||
| + | Por esse motivo, diante das incitações para a alteração, | ||
| + | |||
| + | Igualmente, o homem oriental se ensimesma de modo diferente ao do homem do Ocidente. O ocidental se ensimesma em claridade da mente. Recordem-se | ||
| + | |||
| + | Eu me confesso da estirpe desses que do escuro ao claro aspiram. [Ich bekenne mich zu dem Gescheecht Das aus dem Dunkel ins Helle strebt.] | ||
| + | |||
| + | A Europa e a América significam o ensaio de viver sobre ideias claras, não sobre mitos. Porque agora faltam essas ideias claras, o europeu se sente perdido e desmoralizado. | ||
| + | |||
| + | Maquiavelo, - que é coisa muito diferente do maquiavelismo, | ||
| + | |||
| + | Do imenso emaranhado de temas que será forçoso esclarecer, se se ambiciona uma nova aurora, elejo um, que me parece urgente: "que é o social, que é a sociedade", | ||
| + | |||
| + | NOTA PRELIMINAR | ||
| + | |||
| + | A partir de uma nota que acompanhava o estudo " | ||
| + | |||
| + | O texto atinge a totalidade do índice previsto; a morte surpreendeu o autor, quando trabalhava nos últimos capítulos. Em ulteriores edições, quando todos os seus escritos inéditos estiverem publicados, acrescentaremos às epígrafes faltantes, - que oferecemos em APÊNDICE, - as oportunas referências ao resto de sua obra, em que esses temas têm um desenvolvimento suficiente. | ||
| + | |||
| + | As questões fundamentais acham-se tratadas neste volume; êle situa, certamente, o urgente e transbordante problema que apresentam hoje os temas sociológicos, | ||
| + | |||
| + | OS | ||
| + | |||
| + | ABREVIATURA [A titulo de introdução, | ||
| + | |||
| + | Ao reatar agora as LIÇÕES SOBRE O HOMEM E A GENTE, dadas na primavera passada, torna-se imprescindível ter claro e presente o que nelas se alcançou. A fim de não sobrecarregar as quatro lições que o ciclo deste ano comporta, com o resumo inevitável, | ||
| + | |||
| + | Comecei por afirmar que boa parte das angústias históricas atuais procede da falta de clareza sobre problemas que somente a sociologia pode esclarecer, e que essa falta de clareza na consciência do homem médio se origina, por sua vez, no estado deplorável da teoria sociológica. A insuficiência da doutrina sociológica que hoje está à disposição de quem procure, de boa fé, orientar-se sobre o que é a política, o Estado, o direito, a coletividade e sua relação com o indivíduo, a revolução, | ||
| + | |||
| + | Torna-se urgente esclarecer deveras o que é sociedade, sem o que nenhuma das noções citadas pode possuir clara substância. Não é possível, porém, obter uma visão luminosa, evidente, do que seja sociedade se, previamente, | ||
| + | |||
| + | Mas não foi dito que o social seja uma realidade peculiar. Poderia acontecer que fosse só uma combinação ou resultado de outras realidades, como os corpos não são "em realidade" | ||
| + | |||
| + | Ora, a questão de ser uma coisa, que não, própria e ultimamente, | ||
| + | |||
| + | Trata-se, pois, de investigar se, no repertório das realidades autênticas, | ||
| + | |||
| + | Para tanto, temos de partir da realidade fundamental, | ||
| + | |||
| + | Na área de nossa vida, - prescindindo do problema transcendente que é Deus, - achamos minerais, vegetais, animais e os outros homens, realidades irredutíveis entre si e, portanto, autênticas. | ||
| + | |||
| + | "1. - O social consiste em ações ou comportamentos humanos, - é um fato da vida humana. Mas a vida humana é sempre a de cada um, é a vida individual ou pessoal e consiste em que o EU que cada qual é se encontre tendo de existir em uma circunstância, | ||
| + | |||
| + | a) - Que é só propriamente humano em mim o que penso, quero, sinto e executo com meu corpo, sendo eu o " | ||
| + | |||
| + | b) - Portanto, somente é humano o meu pensar, se penso alguma coisa por minha própria conta, advertindo-me do que significa. SOMENTE É HUMANO AQUILO QUE, AO FAZER, O FAÇO PORQUE TEM PARA MIM UM SENTIDO, A SABER, AQUILO QUE ENTENDO. | ||
| + | |||
| + | c) - Em toda ação humana existe, pois, um SUJEITO do qual ela emana e que, por isso mesmo, é RESPONSÁVEL por ela. | ||
| + | |||
| + | d) - Consequência do anteriormente exposto é que a minha vida humana, que me põe em relação direta com quanto me rodeia, - minerais, vegetais, animais, os outros homens, - é, por essência, | ||
| + | |||
| + | Mas o fato social não é um comportamento de nossa vida humana como solidão; ao contrário, aparece enquanto estamos em relação com os outros homens. Não é, pois, vida humana no sentido estrito e primário. | ||
| + | |||
| + | 2. - O social é um fato, não da vida humana, mas algo que surge na convivência humana. Por convivência, | ||
| + | |||
| + | Analise-se, porém, toda outra série de fatos humanos, como o cumprimento, | ||
| + | |||
| + | Quem é o sujeito originário, | ||
| + | |||
| + | Eis aqui, pois, ações que são, por um lado, humanas, já que consistem em comportamentos intelectuais ou de conduta especificamente humanos e que, por outro lado, nem se originam na pessoa ou indivíduo, nem este os quer, nem é responsável por eles e com frequência nem sequer os entende. | ||
| + | |||
| + | Aquelas nossas ações que têm essas características negativas e que executamos por conta de um sujeito impessoal, indetermi-nável, | ||
| + | |||
| + | O que pensamos ou dizemos porque " | ||
| + | |||
| + | OS FATOS SOCIAIS CONSTITUTIVOS SÃO USOS | ||
| + | |||
| + | Os usos são formes de comportamento humano que o indivíduo adota e cumpre porque, de um modo ou de outro, em uma ou em outra medida, não tem mais remédio. São-lhe impostos pelo seu contorno de convivência: | ||
| + | |||
| + | Para a doutrina sociológica que vai ser exposta nestas lições, basta que certos usos, se se querem os casos extremos do uso, se caracterizem por estes traços: | ||
| + | |||
| + | 1. - São ações que executamos em virtude de uma pressão social. Esta pressão consiste na antecipação, | ||
| + | |||
| + | 2. - São ações cujo conteúdo preciso, a saber, o que fazemos nelas, é, para nós, ininteligível. | ||
| + | |||
| + | 3. - Encontramo-los como formas de conduta, que são ao mesmo tempo pressões, fora de nossa pessoa e de toda outra pessoa, porque atuam tanto sobre o próximo como sobre nós. Os usos são realidades | ||
| + | |||
| + | Durkheim, por volta de 1890, entreviu os traços 1. e 3. como constitutivos do fato social, mas não conseguiu acabar de vê-los bem, nem começou sequer a pensá-los. Basta dizer que não só não viu o traço 2., como acreditou tudo ao contrário, a saber: que o fato social era o verdadeiramente racional, porque emanava de uma suposta e mística " | ||
| + | |||
| + | Ao seguir os usos, comportamo-nos como autômatos, vivemos por conta da sociedade ou coletividade. Esta, no entanto, não é algo humano ou sobre-humano; | ||
| + | |||
| + | Não obstante, a sociedade, ao ser mecanismo, é uma formidável máquina de fazer homens. | ||
| + | |||
| + | Os usos produzem no indivíduo estas três principais categorias de efeitos: | ||
| + | |||
| + | I - São pautas do comportamento que nos permitem prever a conduta dos indivíduos que não conhecemos e que, portanto, não são, para nós, tais determinados indivíduos. A relação inter-individual somente é possível com o indivíduo ao qual individualmente conhecemos, isto é, com o próximo de nós. Os usos nos permitem a quase-convivência com o desconhecido, | ||
| + | |||
| + | II - Ao impor, por pressão, um determinado repertório de ações, - de ideias, de normas, de técnicas, - obrigam o indivíduo a viver à altura dos tempos e injetam nele, queira ou não queira, a herança acumulada no passado. Graças à sociedade, o homem é progresso e história. A sociedade entesoura o passado. | ||
| + | |||
| + | III - Ao automatizarem uma grande parte da conduta da pessoa e dar-lhe resolvido o programa de quase tudo que tem de fazer, permitem que essa pessoa concentre sua vida individual, criadora e verdadeiramente humana, em certas direções, o que de outro modo seria impossível ao indivíduo. A sociedade situa o homem em certa liberdade diante do porvir e lhe permite criar o novo, racional e mais perfeito. | ||
| + | |||
| + | JOSÉ | ||
