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| + | ====== VICISSITUDES NAS CIÊNCIAS (1963:A1) ====== | ||
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| + | ==== Meditação da Técnica ==== | ||
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| + | === VICISITUDES EN LAS CIENCIAS (1930) === | ||
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| + | //ORTEGA Y GASSET, José. Meditação da Técnica. Tradução e Prólogo de Luís Washington Vita. Rio de Janeiro: Livro Íbero-Americano, | ||
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| + | <tabbox português> | ||
| + | É interessante estudar a história das ciências sob a imagem de que cada uma delas fosse uma pessoa, ou, melhor, uma série de pessoas que se sucedem no tempo, representando as gerações . Sob este suposto, aparece cada ciência comportando-se como um indivíduo, dotada de determinado caráter reagindo ante os demais acontecimentos humanos, soberba e agressiva num momento, humilde em outros. Vemo-la, como o herói de uma biografia, atravessar vicissitudes inumeráveis, | ||
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| + | Assim, durante o século XIX, todas as ciências exerceram o mais atrevido imperialismo. Era este o modo vital que inspirou a toda essa época em todas as ordens. E como um povo pugnava por imperar aos demais e uma arte às outras artes e uma classe social às restantes, quase não houve ciência que não fizesse sua campanha imperialista, | ||
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| + | Nos trinta anos que correram do século XX, as ciências se comportaram de modo bem diverso. Em muitas ocasiões já fiz notar o estranho fenômeno. Sem pôr-se de acordo, e, mais ainda, sem perceber umas e outras, todas foram coincidindo numa resolução oposta à que obedeciam há cinquenta anos. Consiste esta simplesmente em que cada ciência decidiu não preocupar-se das demais nem para bem nem para mal. Sem propósito de imperar sobre as outras, sem descontentamento de não possuir uma das vantagens, cada qual se encaixou em si mesma e aceitou seu destino; pelo menos se enlaçou sem reserva à sua própria limitação, | ||
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| + | Por exemplo, a física não pode chegar a construir seus objetos por métodos puros, como a matemática; | ||
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| + | Mas a medida é, por sua própria essência, relatividade. Não há medida sem metro, e o metro, como tal, não é uma coisa cósmica, não é uma realidade, mas uma arbitrariedade. É uma coisa humaníssima. Quando Protágoras dizia que o homem é a medida de todas as coisas, dizia algo superfetatório. Porque ser medida já é ser algo humano. Deus não mede. Porque, afinal de contas, nenhum ser faz nada que não tenha sentido para ele, que não o faça para alguma coisa, que, portanto, não lhe seja necessário. O homem mede as coisas materiais porque não as possui, porque não as tem em sua inteligência. Tem que sair de si mesmo para conhecê-las. Por si mesmo é indigente, não contém em seu interior mental nem um ponto de realidade cósmica. Vai em busca das coisas; mas estas se lhe escapam, são incompenetráveis com sua mente. Em vista de que não pode apresar as coisas, se contenta com tomar-lhe as medidas, que são os esquemas e fantasmas daquelas. Sua mente — mens — é medida — mensura (calembour do cardeal Cusano), Deus não mede. Não há um deus dos pesos e medidas. Deus é desmensurado (exuperantissimus) . | ||
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| + | Em Galilei, fundador da física, se oculta uma contradição. Por um lado define maravilhosamente a nova ciência que entre as mãos lhe nasce: " | ||
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| + | Ora, esta é uma crença errônea, e é importante advertir que a essa crença errônea se deve a instauração da física. Um exemplo curioso da providencialidade do erro. O homem, para acertar, necessita pôr tudo, até sua ilustre capacidade de equivocar-se. Como o caso é, em verdade, exemplar, permita-se-me expô-lo. | ||
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| + | A ciência física, que começa no século XVI, não se deve a que certos homens, abandonando os raciocínios puros, a especulação dos filósofos, tivessem resolvido a observar os fatos — como se os antigos e medievais, que não tiveram física, não houvessem observado com denodo a natureza e não a houvessem submetido a experiências. Nem por um momento se apresenta Galilei como o homem do experimento diante dos escolásticos. Exatamente o contrário. Contra sua lei de inércia são os escolásticos que fazem constar a experiência. Galilei não pode demonstrar sua lei pelo experimento. Acreditar que o característico das ciências físicas é a observação ou experiência, | ||
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| + | Não a observação produziu a física, mas a exigência da observação exata. E exatidão é um vocábulo que somente tem sentido próprio, autêntico, na matemática. O novo da nuova scienza de Galilei foi a introdução formal da matemática na observação, | ||
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| + | Mas esta aplicação que Galilei faz das leis matemáticas aos fenômenos físicos houvera sido impossível se Galilei não houvesse padecido o preconceito de que os fenômenos físicos obedecem, sem dúvida alguma, às leis matemáticas; | ||
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| + | Imagine-se, agora, que um físico se dissesse radicalmente: | ||
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| + | Tal atitude num físico indica que por um lado não aceita o império da matemática sobre sua ciência. Declara-a independente, | ||
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| + | Esta é a atitude de Einstein. Do que resulta que hoje, quando mais matemática é mais complicada se emprega em física, é quando a matemática tem menos intervenção substantiva por si na física. De ser em rigor um princípio da " | ||
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| + | A instauração da física se deve, pois, a um erro. Se Galilei houvesse contado com meios métricos mais precisos e se houvesse encontrado com que a matéria não é euclideana, a física não houvesse podido nascer, porque o homem de então não contava com uma matemática à altura de tais precisões de mensuração. Respeitemos estas cegueiras, que permitem ao homem ver alguma coisa. Tudo o que somos positivamente o somos graças a alguma limitação. E este ser limitados, este ser carentes, é o que se chama destino, vida. O que nos falta e nos oprime é o que nos constitui e nos sustém. Portanto, aceitemos o destino. | ||
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| + | El Sol, de Madrid, 9 de março de 1930. | ||
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| + | <tabbox original> | ||
| + | ES interesante estudiar la historia de las ciencias bajo la imagen de que cada una de ellas fuese una persona, o, mejor, una serie de personas que se suceden con el tiempo, representando las generaciones. Bajo tal supuesto, aparece cada ciencia comportándose como un individuo, dotada de determinado carácter, reaccionando ante los demás acontecimientos humanos, soberbia y agresiva en unos tiempos, humilde en otros. La vemos, como el héroe de una biografía, atravesar vicisitudes innumerables, | ||
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| + | Así, durante el siglo XIX, todas las ciencias ejercitaron el más desaforado imperialismo. Era éste el modo vital que inspiró a toda esa época en todos los órdenes. Y como un pueblo pugnaba por imperar a los demás y un arte a las otras artes y una clase social a las demás, apenas hubo ciencia que no hiciese su campaña imperialista, | ||
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| + | En los treinta años que han corrido del XX, las ciencias se han comportado de muy otra manera. En muchas ocasiones he hecho notar ya el extraño fenómeno. Sin ponerse de acuerdo; más aún, sin advertirlo las unas y las otras, todas han ido coincidiendo en una resolución opuesta a la que obedecían cincuenta años ha. Consiste ésta sencillamente en que cada ciencia ha decidido no preocuparse de las demás ni para bien ni para mal. Sin propósito de imperar sobre las otras, sin descontento de no poseer la una las ventajas de la otra, cada cual se ha encajado en sí misma y ha aceptado su destino; por lo menos se ha abrazado sin reserva a su propia limitación, | ||
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| + | Por ejemplo, la física no puede llegar a construir sus objetos por métodos puros, como la matemática; | ||
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| + | Pero la medida es, por su misma esencia, relatividad. No hay medida sin metro, y el metro, como tal, no es una cosa cósmica, no es una realidad, sino una arbitrariedad. Es una cosa humanísima. Cuando Protágoras decía que el hombre es la medida de todas las cosas, decía algo superfetatorio. Porque ser medida es ya ser algo humano. Dios no mide. Porque últimamente ningún ser hace nada que no tenga sentido para él, que no lo haga para algo, que, por tanto, no le sea necesario. El hombre mide las cosas materiales porque no las posee, porque no las tiene en su inteligencia. Tiene que salir de sí para conocerlas. Por sí mismo es indigente, no contiene en su interior mental ni un punto de realidad cósmica. Va en busca de las cosas; pero éstas se le escapan, son incompenetrables con su mente. En vista de que no puede apresar las cosas, se contenta con tomarles las medidas, que son los esquemas y fantasmas de aquéllas. Su mente —mens —es medida— mensura (calembour del cardenal Cusano). Dios no mide. No hay un dios de las pesas y medidas. Dios es desmesurado (exuperantissimus). | ||
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| + | En Galileo, fundador de la física late una contradicción. Por un lado define maravillosamente la nueva ciencia que entre las manos le nace: «Consiste —dice— en medir todo lo que se puede medir y en conseguir que pueda mediarse lo que no se puede medir». (Ejemplo de esto último, el calor. La física del calor consiste en inventar el termómetro). Hoy más que nunca, la física confirma esa definición bautismal de Galileo y se da cuenta de que no es sino cosmometría. Mas, por otro lado, Galileo cree que la física es matemática; | ||
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| + | Ahora bien; ésta es una creencia errónea, y es importante advertir que a esa creencia errónea se debe la instauración de la física. Un ejemplo curioso de la providencialidad del error. El hombre, para acertar, necesita poner todo, hasta su ilustre capacidad de equivocarse. Como el caso es, en verdad, ejemplar, permítaseme exponerlo. | ||
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| + | La ciencia física, que comienza en el siglo XVI, no se debe a que ciertos hombres, abandonando los razonamientos puros, la especulación de los filósofos, se resolvieran a observar los hechos —como si los antiguos y medievales, que no tuvieron física, no hubiesen observado concienzudamente la naturaleza y no la hubiesen sometido a experiencias. Ni por un momento se presenta Galileo como el hombre del experimento frente a los escolásticos. Todo lo contrario. Contra su ley de inercia son los escolásticos quienes hacen constar la experiencia. Galileo no puede demostrarla por el experimento. Creer que lo característico de las ciencias físicas es la observación o experiencia, | ||
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| + | No la observación produjo la física, sino la exigencia de la observación exacta. Y exactitud es un vocablo que sólo tiene sentido propio, auténtico, en matemática. Lo nuevo de la nuova Scienza de Galileo fue la introducción formal de la matemática en la observación, | ||
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| + | Pero esta aplicación que Galileo hace de las leyes matemáticas a los fenómenos físicos hubiera sido imposible si Galileo no hubiese padecido el prejuicio de que los fenómenos físicos obedecen, sin duda alguna, a las leyes matemáticas; | ||
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| + | Imagínese ahora que un físico se dijese radicalmente: | ||
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| + | Actitud tal en un físico indica que por un lado no acepta el imperio de la matemática sobre su ciencia. La declara independiente, | ||
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| + | Esta es la actitud de Einstein. De lo que resulta que hoy, cuando más matemática y más complicada se emplea en física, es cuando la matemática tiene menos intervención sustantiva por sí en la física. De ser en rigor un principio de la «realidad» física, ha pasado a ser un nuevo instrumento de la «teoría» física, como el nonius y la balanza. No manda, sino que obedece. | ||
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| + | La instauración de la física se debe, pues, a un error. Si Galileo hubiese contado con medios métricos más precisos y se hubiera encontrado con que la materia no es euclidiana, la física no hubiese podido nacer, porque el hombre de entonces no contaba con una matemática a la altura de tales precisiones de mensuración. Respetemos estas cegueras, que permiten al hombre ver algo. Todo lo que somos positivamente lo somos gracias a alguna limitación. Y este ser limitados, este ser mancos, es lo que se llama destino, vida. Lo que nos falta y nos oprime es lo que nos constituye y nos sostiene. Por tanto, aceptemos el destino. | ||
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| + | El Sol, 9 de marzo de 1930. | ||
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