ortega:hg:vida-pessoal
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| + | ====== VIDA PESSOAL ====== | ||
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| + | //Extrato do livro "O Homem e a Gente" | ||
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| + | A VIDA PESSOAL | ||
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| + | Trata-se de que, mais uma vez, o homem se perdeu. Porque não é coisa nova nem acidental. O homem se perdeu muitas vezes ao longo da história, — ainda mais: é constitutivo do homem, diferentemente de todos os demais seres, o ser capaz de perder-se, de se perder na selva da existência, | ||
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| + | Partamos, pois, mobilizados pelo intento de achar, em forma irrecusável, | ||
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| + | Essa realidade radical, em cuja estrita contemplação temos de fundamentar e assegurar, ultimamente, | ||
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| + | Sempre que digo "vida humana", | ||
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| + | Mas há outra coisa. Ao chamá-la " | ||
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| + | Daí, nenhum conhecimento de algo ser suficiente, — isto é, suficientemente profundo, radical, — se não começa por descobrir e precisar o lugar e o modo, dentro do orbe que é nossa vida, onde esse algo faz a sua aparição, assoma, brota e surge, em suma: existe. Porque isso significa propriamente existir, — vocábulo, presumo, originariamente de luta e beligerância, | ||
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| + | Alguns querem hoje designar assim o modo de ser do homem; mas o homem, que é sempre eu, — o eu que é cada um, — é o único que não existe, mas vive ou é vivendo. São precisamente todas as demais coisas, que não são o homem, — eu, — aquelas que existem, porque aparecem, surgem, saltam, me resistem, se afirmam dentro do âmbito que é a minha vida. Seja isso dito e disparado de passagem. | ||
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| + | Ora, dessa estranha e dramática realidade radical, — a nossa vida, — se podem dizer inumeráveis atributos, mas agora vou apenas destacar o mais imprescindível para o nosso tema. | ||
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| + | E é que a vida não a demos nós a nós mesmos, mas a encontramos precisamente quando nos encontramos a nós mesmos. De repente, sem saber como, nem porque, sem prévio aviso, o homem se descobre e se surpreende tendo de ser, em um âmbito impremeditado, | ||
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| + | Não é talvez ocioso observar que isto, — base do meu pensamento filosófico, | ||
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| + | Porque, — repito, — algo, sem remédio, temos de fazer ou de estar fazendo sempre, pois esta vida, que nos é dada, não nos é dada feita; ao contrário, cada um de nós tem de fazê-la para si, cada qual, a sua. Essa vida que nos é dada, nos é dada vazia e o homem tem de ir enchendo-a, ocupando-a. As nossas ocupações são isto. Tal não acontece com a pedra, a planta, o animal. A eles é dado o seu ser já prefixado e resolvido. À pedra, quando começa a ser, não só é dada a sua existência mas lhe é prefixado, de antemão, o seu comportamento, | ||
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| + | Para não nos perdermos, resumamos o que foi dito até agora: vida, no sentido de vida humana, portanto, em sentido biográfico e não biológico, — se por biologia se entende a psicossomática, | ||
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| + | Quando queremos descrever uma situação vital extrema, em que a circunstância parece não nos deixar saída, nem, portanto, opção, dizemos, que "se está entre a espada e a parede" | ||
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| + | Entre todos esses caracteres da realidade radical ou vida, que anunciei, e que são uma parte mínima daqueles que fora mister descrever, para dar uma ideia, algo adequada, dela, entre todos, o que me interessa agora sublinhar é aquilo que o grande lugar-comum faz notar; que a vida é intransferível e que cada um tem de viver a sua,- que ninguém pode substituí-lo na faina de viver; que a dor de dentes que sente tem de doer-lhe a ele, e que ele não pode transferir a outro nem um pedaço dessa dor; que nenhum outro pode escolher, nem decidir, por delegação sua, o que vai fazer, o que vai ser; que ninguém pode substituí-lo, | ||
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| + | Mas entenda-se bem tudo isso. Não quero de modo algum insinuar que eu seja a única coisa que existe. Em primeiro lugar, já se terá reparado em que, mesmo sendo " | ||
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| + | Não, a vida não é existir só a minha mente, existirem as minhas ideias: é totalmente o contrário. A partir de Descartes, o homem ocidental tinha ficado sem mundo. Mas viver significa ter de ser fora de mim, no absoluto fora que é a circunstância ou mundo: é ter de, querendo ou não, enfrentar-me e chocar-me, constantemente, | ||
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| + | Isso quer dizer que já estamos muito longe de Descartes, de Kant, de seus sucessores românticos, | ||
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| + | Estamos, pois, longe de Descartes, de Kant. Estamos mais longe ainda de Aristóteles e de Santo Tomás. Porventura é nosso dever e nosso destino, — não só o dos filósofos, mas o de todos, — distanciarmo-nos, | ||
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| + | A solidão radical da vida humana, o ser do homem, não consiste, pois, em que não haja realmente nada mais do que ele. Ao contrário: há nada menos que o universo com todo o seu conteúdo. Há, portanto, infinitas coisas, mas, — aí está!, — em meio delas, o Homem, em sua realidade radical, está só, — só com elas e, como entre essas coisas estão os outros seres humanos, está só com eles. Se não existisse nada mais que um único ser, não se poderia dizer congruentemente que estaria só. A unicidade nada tem a ver com a solidão. Se meditássemos sobre a " | ||
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| + | E este é o momento para recordar Leibniz. Não vou, é claro, empregar nem um instante para entrar em sua doutrina. Limito-me a fazer notar aos bons conhecedores de Leibniz que a melhor tradução da sua palavra mais importante, — Mônada, — não é unidade, tampouco unicidade. As manadas não têm janelas. Acham-se fechadas em si mesmas, — isto é idealismo. Mas, em seu último sentido, a concepção de Leibniz, da mônada, se expressaria da melhor maneira chamando às manadas " | ||
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| + | Conforme vamos tomando posse da vida e encarregando-nos dela, averiguamos que, quando chegamos a ela, os demais se tinham ido e que temos de viver o nosso radical viver. . . sozinhos, e que, somente em nossa solidão, somos nossa verdade. | ||
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| + | Desse fundo de solidão radical que é, sem remédio, nossa vida, emergimos constantemente em uma ânsia, não menos radical, de companhia. Quereríamos achar aquele cuja vida se fundisse integramente, | ||
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| + | À solidão que somos pertencem, — e fazem parte essencial dela, — todas as coisas e seres do universo, que estão aí em nosso redor, formando nosso contorno, articulando nossa circunstância sem que jamais se fundam com o cada um que o homem é, — e que, ao contrário, são sempre o outro, o absolutamente outro, — um elemento estranho e sempre mais ou menos estorvante, negativo e hostil, no melhor caso: não-coincidente, | ||
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| + | Vemos, pois, diante de toda a filosofia idealista e solipsista, que nossa vida põe, com idêntico valor de realidade, estes dois termos: o alguém, o X, o Homem que vive, e o mundo, contorno ou circunstância em que tem de viver, queira ou não queira. | ||
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| + | Nesse mundo, contorno ou circunstância é que precisamos de buscar uma realidade que, com todo rigor, diferenciando-se de todas as demais, possamos e devamos chamar " | ||
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| + | O homem, ao achar-se vivendo, se acha tendo de ajustar-se a isso que chamamos contorno, circunstância ou mundo. Se esses três vocábulos vão diferenciando diante de nós o seu sentido, é coisa que agora não interessa. Neste momento, para nós, significam a mesma coisa; a saber, o elemento estranho ao homem, forâneo, o "fora de si", em que o homem tem de afanar-se para ser. Esse mundo é uma grande coisa, uma imensa coisa, de limites esbatidos, que está cheio até à borda de coisas menores, do que chamamos coisas e costumamos repartir em ampla e gorda classificação, | ||
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| + | Tal é a verdade radical sobre o que é o mundo, porque ela expressa a sua consistência ou aquilo em que consiste originariamente, | ||
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| + | O homem faz ciência como faz paciência, como faz a sua fazenda, — por isso se chama assim, — faz versos, faz política, negócios, viagens, faz o amor, faz que faz, espera, isto é, faz. . . tempo e, muito mais que tudo, o homem faz ilusões para si mesmo. | ||
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| + | Todos esses dizeres são expressão da língua espanhola mais vulgar, familiar, coloquial. Não obstante, vemos hoje que são termos técnicos numa teoria da vida humana. Para vergonha dos filósofos, é mister declarar que eles não tinham visto nunca o fenômeno radical que é a nossa vida. Sempre o deixavam para trás, e foram os poetas e romancistas, | ||
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| + | E não é de menor interesse esse outro modo de vida em que o homem "faz que faz"? Que é esse estranho e inautêntico fazer, ao qual, às vezes, o homem se dedica precisamente para não fazer de verdade, inclusive o que está fazendo? — o escritor, que não é escritor, mas faz de escritor, a mulher que mal é feminina, mas faz de mulher, faz que sorri, faz que desenha, faz que deseja, faz que ama, incapaz de fazer propriamente qualquer dessas coisas. | ||
