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| + | ====== VIDA INTER-INDIVIDUAL. NÓS — TU — EU ====== | ||
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| + | //Capítulo V do livro "O Homem e a Gente" | ||
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| + | Tínhamos partido da vida humana como realidade radical. Entendíamos por realidade radical, — é hora de recordá-lo, | ||
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| + | O que deveras está patente na minha vida é a notícia, o sinal de que há outras vidas humanas; mas, como vida humana é, em sua radicalidade, | ||
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| + | A todas essas realidades presuntivas, | ||
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| + | E agora vem a grande mutação de ótica ou de perspectiva que necessitamos fazer. Essa ótica nova, a partir da qual vamos, pouco a pouco, começar a falar, — salvo tal ou qual referência ou momentâneo retorno à anterior, — essa ótica, nova no presente curso, é precisamente a normal em todos. A anormal, a insólita é a que vimos usando. Esclarecerei logo o sentido de ambas as perspectivas. Para isso, porém, convém continuar um pouco no que ia dizendo; e ia dizendo que a aparição do outro homem, com a suspeita ou com-presença de que é um eu como o meu, com uma vida como a minha vida e, portanto, não minha senão sua, e um mundo próprio onde ele vive radicalmente, | ||
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| + | Tal averiguação, | ||
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| + | Pois bem, — e isto é novo, com respeito a tudo anteriormente dito: normalmente vivemos essas presunções, | ||
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| + | Se o que digo é certo, — e isso se verá nas próximas lições, — nossa vida normal consiste em ocupar-nos com pragmata, com coisas ou assuntos e importâncias que não o são propriamente, | ||
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| + | A filosofia não é, pois, uma ciência,- mas, se se quiser, uma indecência, | ||
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| + | É questão diferente a de que esse recorrer da nossa pseudo-vida convencional para a nossa mais autêntica realidade, — em que consiste a filosofia, — requer uma técnica intelectual mais rigorosa que a de qualquer outra ciência. Isso quer somente dizer que a filosofia é, além disso, uma técnica filosófica; | ||
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| + | A filosofia é, pois, a crítica da vida convencional, | ||
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| + | Neste curso, estamos citando diante desse tribunal, que é a realidade da autêntica vida humana, todas as coisas que se costumam chamar sociais; a fim de ver o que é que são na sua verdade, a saber, estamos em processo de constante recurso, da nossa vida convencional, | ||
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| + | O réu mais importante, porém, trazido a juízo, foi o outro homem, com seu corpo e seus gestos presentes, mas cujo caráter de homem, de outro eu, de outra vida humana, se nos revelou como mera realidade interpretada, | ||
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| + | Para o tema genuíno do nosso curso, ele é a realidade decisiva porque, procurando fatos claros, que com suficiente evidência pudéssemos chamar de sociais, vínhamos de fracasso em fracasso, — nem o nosso comportamento com a pedra, nem com a planta tinham o menor ar de socialidade. Ao enfrentarmo-nos com o animal, pareceu que algo assim como relação social, nossa com ele e deles entre si, transparecia. Porque? Porque ao fazermos algo com o animal, nossa ação não tem outro remédio senão contar com que este a prevê, com uma ou outra exatidão, e se prepara para responder a ela. Temos, assim, aqui, um tipo novo de realidade, a saber: uma ação, — a nossa, — da qual faz parte, por antecipação, | ||
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| + | Não obstante, nossa relação total com o animal é, ao mesmo tempo, limitada e confusa. Isso nos sugeriu a mais natural reserva metódica: procurar outros fatos nos quais a reciprocidade seja mais clara, ilimitada e evidente; a saber, nos quais o outro ser que me responde seja, em princípio, capaz de responder-me tanto como eu a ele. A reciprocidade, | ||
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| + | Temos, assim, que o homem, à parte daquele que eu sou, nos aparece como o outro, e isto quer dizer, — interessa-me que se tome em todo o seu rigor, — o outro quer dizer: aquele com o qual posso e tenho, — mesmo que não queira, — de alternar, pois até no caso em que eu preferisse que o outro não existisse, porque o detesto, advém que eu irremediavelmente existo para ele e isto me obriga, quer queira quer não, a contar com ele e com as suas intenções a meu respeito, que talvez sejam avessas. O mútuo " | ||
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| + | A língua nos revela que houve um tempo em que os homens não distinguiam, | ||
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| + | Por hora é mister que corrijamos um possível erro de perspectiva que a ordem irremediável do nosso inventário, | ||
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| + | Isso significa que a aparição do Outro é um fato que fica sempre como nas costas da nossa vida, porque, quando nos surpreendemos pela primeira vez vivendo, já nos achamos, não somente com os outros e no meio dos outros, mas habituados a eles. Isso nos leva a formular este primeiro teorema social: o homem está a nativitate aberto ao outro que não é ele, ao ser estranho; ou, com outras palavras: antes de que cada um de nós percebesse a si mesmo, já havia tido a experiência básica de que existem aqueles que não são " | ||
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| + | O estar aberto ao outro, aos outros, é um estado permanente e constitutivo do Homem, não uma ação determinada, | ||
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| + | Desta minha relação com o outro partem duas linhas diferentes, embora se ligue uma à outra, de progressiva concretização ou determinação: | ||
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| + | Comecemos, pois, com esta segunda. | ||
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| + | Se diante do outro faço um gesto demonstrativo, | ||
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| + | Mas para que haja con-vivência é mister sair daquele simples estar aberto ao outro, ao alter, e que chamávamos altruísmo básico do homem. Estar aberto ao outro é algo passivo: é preciso que, sobre a base de uma abertura, eu atue sobre ele e ele me responda ou me reciproque. Não importa o que seja que façamos-, tratar eu de uma ferida dele ou dar-lhe um soco, ao qual corresponda e reciproque com outro. Num caso e noutro, vivemos juntos e em reciprocidade com respeito a algo. A palavra vivemos em seu " | ||
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| + | Com a rocha não há nostridade. Com o animal, existe uma muito limitada, confusa, difusa e problemática nostridade. | ||
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| + | Conforme convivemos e somos a realidade " | ||
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| + | Dentro do âmbito de convivência que abre a relação " | ||
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| + | Já advertimos o altruísmo básico do homem, isto é, como está ele a nativitate aberto do Outro. Logo, vimos que o Outro entra comigo na relação Nosotros, dentro da qual o outro homem, o indivíduo indeterminado se precisa em indivíduo único e é o TU, com o qual falo do distante, que é ele, a terceira pessoa. Mas agora falta descrever o meu forcejar com o TU, em choque com o qual faço o mais estupendo e dramático descobrimento: | ||
