ortega:hg:estrutura-do-nosso-mundo
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| + | ====== ESTRUTURA DO " | ||
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| + | //Extrato do livro "O Homem e a Gente" | ||
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| + | ESTRUTURA DO " | ||
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| + | Achamo-nos comprometidos na difícil faina de descobrir, com clareza irrecusável, | ||
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| + | Para executar com todo rigor o nosso propósito, retrocedemos ao plano de realidade radical, — radical porque nele têm de aparecer, assomar, brotar, surgir, existir todas as demais realidades —, e que é a vida humana. Desta dissemos, em resumo: | ||
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| + | I — Que vida humana, em sentido próprio e originário, | ||
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| + | II — Que ela consiste em achar-se o homem, sem saber como nem porquê, obrigado, sob pena de sucumbir, a fazer, sempre, algo, numa determinada circunstância, | ||
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| + | III — Que a circunstância nos apresenta sempre diversas possibilidades de fazer, portanto: de ser. Isso nos obriga a exercer, queiramos ou não queiramos, a nossa liberdade. Somos livres a força. Graças a isso a vida é permanente encruzilhada e constante perplexidade. Temos de escolher em cada instante se, no instante imediato, ou em outro futuro, vamos ser aquele que faz isto ou aquele que faz outra coisa. Portanto, cada um está escolhendo o seu fazer; portanto: o seu ser, — incessantemente. | ||
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| + | IV — A vida é intransferível. Ninguém me pode substituir nessa tarefa de decidir o meu próprio fazer e isso inclui o meu próprio padecer, pois tenho de aceitar o sofrimento que me vem de fora. Minha vida é, pois, constante e iniludível responsabilidade ante mim mesmo. É mister que aquilo que faço — portanto, o que penso, sinto, quero — tenha sentido e bom sentido para mim. | ||
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| + | Se reunirmos esses atributos, que são aqueles que mais interessam para o nosso tema, temos que a vida é sempre pessoal, circunstancial, | ||
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| + | Mas, no presente, tornemo-nos firmes na evidência de que só é propriamente humano em mim o que penso, quero, sinto e executo com meu corpo, sendo eu o sujeito criador disso ou o que a mim mesmo, como tal mim-mesmo acontece; portanto, só é humano o meu pensar se penso algo por minha própria conta, prevenindo-me do que ele significa. Só é humano aquilo que, ao fazê-lo, faço porque tem para mim um sentido, isto é, o que entendo. Em toda ação humana há, pois, um sujeito de quem ela emana, sujeito que, de igual modo, é agente, autor ou responsável por aquilo. Consequência do anteriormente dito é que minha humana vida, que me põe em relação direta com quanto me rodeia, — minerais, vegetais, animais, os outros homens, — é, por essência solidão. A minha dor de dentes — disse — somente a mim me pode doer. O pensamento que na verdade penso, — e não só repito mecanicamente por tê-lo ouvido, — tenho de pensá-lo eu sozinho ou eu na minha solidão. Dois e dois são verdadeiramente quatro, — isto é, evidentemente, | ||
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| + | Se vamos estudar fenômenos elementares, | ||
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| + | Ao haver vida humana, — disse, — há ipso facto dois termos ou fatores igualmente primários tanto um quanto o outro e, além disso, inseparáveis: | ||
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| + | Ao partirmos, pois, da vida humana como realidade radical, saltamos para além da milenar disputa entre idealistas e realistas e nos encontramos com o fato de que são igualmente reais na vida, não menos primariamente um ou o outro — Homem e Mundo. O Mundo é o emaranhado de assuntos ou importâncias em que o Homem está queira ou não queira, enredado; o Homem é o ser que, queira ou não queira, se acha consignado a nadar nesse mar de assuntos e obrigado, sem remédio, a que tudo, isso lhe importe. A razão disso, é que, a vida se importa a si mesma; ainda mais: não consiste, ultimamente, | ||
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| + | Agora devemos investigar a estrutura e o conteúdo desse contorno, circunstância ou mundo em que temos de viver. Já dissemos que ele se compõe de coisas como prágmata, isto é, que nele nos achamos com coisas. Este achar-nos com coisas, encontrá-las, | ||
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| + | 1) E o primeiro que é mister dizer parece-me ser isto: se o mundo se compõe de coisas, estas me terão de ser dadas uma a uma. Uma coisa é, por exemplo, uma maçã. Prefiramos supor que é a maçã do Paraíso e não a da discórdia. Nessa cena do Paraíso descobrimos logo um problema curioso: a maçã que Eva apresenta a Adão é a mesma que Adão vê, acha e recebe? | ||
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| + | Porque, ao oferecê-la Eva está presente, visível, patente só meia maçã, e a que Adão acha, vê e recebe é também somente meia maçã. O que se vê, o que está, rigorosamente falando, presente, do ponto de vista de Eva, é algo diferente daquilo que se vê e está presente do ponto de vista de Adão. Com efeito, toda coisa corpórea tem duas faces e, como no caso da lua, só temos presente uma dessas faces. Percebemos agora, surpreendidos, | ||
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| + | Certamente eu posso dar voltas em torno â maçã ou fazê-la girar em minha mão. Nesse movimento vão-se-me fazendo presentes aspectos, isto é, faces distintas da maçã, cada uma em continuidade à precedente. Quando estou vendo, o que se chama ver, a segunda face, lembro-me da que vi antes e somo-a àquela. Bem entendido, porém: esta soma, do recordado ao efetivamente visto, não faz que eu possa ver juntos todos os lados da maçã. Esta, pois, enquanto unidade total, portanto, no que entendo quando digo " | ||
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| + | 2) O segundo que convém notar é isto: achamo-nos agora neste salão, que é uma coisa em cujo interior estamos, é um interior por estas duas razões: porque nos rodeia ou envolve por todos os lados e porque a sua forma é fechada, isto é, contínua. Sem interrupção, | ||
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| + | Isso nos faz desembocar em uma primeira lei sobre a estrutura do nosso contorno, circunstância, | ||
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| + | A essa primeira lei estrutural do nosso mundo, que consiste, — repito — em fazer notar como esse mundo se compõe, em cada instante, de umas poucas coisas presentes e muitíssimas latentes, acrescentamos agora uma segunda lei não menos evidente; esta: não nos é presente nunca uma coisa sozinha, mas, ao contrário: vemos sempre uma coisa destacando-se sobre outras em que não prestamos atenção, e que formam um fundo sobre o qual se destaca o que vemos. Aqui se percebe claramente porque chamo a essas leis: leis estruturais; | ||
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| + | Com isso se complicou um pouco mais para nós a estrutura do mundo, pois agora temos três planos ou termos nele: em primeiro termo: a coisa que nos ocupa; em segundo: o horizonte à vista, dentro do qual ela aparece e, em terceiro termo: o mais além latente " | ||
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| + | Precisemos o esquema dessa mais elementar estrutura anatômica do mundo. Como se adverte, começa a mostrar-se-nos uma diferença na significação de contorno e mundo, que até agora tínhamos usado como sinônimos. Contorno é a porção do mundo que abarca em cada momento o meu horizonte à vista e que, portanto, me é presente. Fique bem entendido que, — como sabemos por nossa primeira observação, | ||
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| + | Em toda essa explicação para tornar o assunto mais fácil e pronto, me referi somente à presença visível das coisas, porque a visão e o visível são a forma de presença mais clara. Por isso quase todos os termos que falam do conhecimento e de seus fatores e objetos são, desde os gregos, tomados de vocábulos vulgares que na língua se referem ao ver e ao olhar. Ideia em grego é a vista que oferece uma coisa, seu aspecto, — que em latim vem, por sua vez, de spec, ver, olhar. Daí: espectador o que contempla; inspector; daí respeito, isto é, o lado de uma coisa que se olha e considera; circunspecto, | ||
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| + | O ter eu preferido referir-me somente à presença visível não quer dizer que ela seja a única, — não menos presentes são para nós, e muito, outros caracteres. Reitero uma vez mais que, ao dizer que as coisas nos são presentes, digo algo cientificamente incorreto, pouco rigoroso. | ||
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| + | É um pecado filosófico que cometo com muito gosto, para facilitar o ingresso nessa maneira radical de pensar a realidade básica e primigênia que é nossa vida. Mas conste que essa expressão é inexata. O que nos é propriamente presente não são as coisas, mas as cores e as figuras que as cores formam; resistências a nossas mãos e membros, maiores ou menores, de um ou de outro cariz; isto é, durezas e branduras, a dureza do sólido, a resistência deslizante do líquido ou do fluido, da água, do ar; cheiros bons e maus, etéreos, aromáticos, | ||
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| + | Ao chamá-los " | ||
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| + | Não é isto, porém, o que nos interessa agora; ao contrário, e muito mais: fazer notar que a existência dessas coisas, chamadas sensíveis, não é a verdade primária e inquestionável que se tem a dizer sobre o nosso contorno, não enuncia o caráter primário que todas essas coisas nos apresentam ou, dito de outro modo, que essas coisas são para nós. Ao chamá-las " | ||
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| + | O céu azul não começa por estar lá no alto tão quieto e tão azul, tão impassível e indiferente a nós, mas começa originariamente por atuar sobre nós, como um riquíssimo repertório de sinais úteis, para a nossa vida, sua função, sua atividade, o que nos faz atender a ele e, graças a isso, vê-lo, em seu papel ativo de semáforo. Faz-nos sinais. Desde logo o céu azul nos indica bom tempo e é para nós o primeiro relógio diurno com o sol andejo que, como laborioso e fiel empregado da cidade, como um serviço municipal, muito embora — caso raro! — gratuito, realiza cotidianamente o seu percurso do Oriente ao Ocaso,- e noturnamente as constelações que nos indicam as estações do ano e os milênios, — o calendário egípcio se baseia nas mudanças milenárias de Sírio, — enfim, nos assinalam as horas. Mas não pára aqui a sua atividade indicadora, advertidora, | ||
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| + | Quer dizer que o céu, além de nos indicar todas essas mudanças úteis, — clima, horas, dias, anos, milênios, — úteis, mas triviais, nos indica pelo visto, com a sua noturna presença patética em que palpitam as estrelas, — palpitantes não se sabe porquê, — a existência gigante do Universo, de suas leis, de suas profundidades e a ausente presença de alguém, de algum Ser prepotente que o calculou, criou, ordenou, enfeitou. É inquestionável que a frase de Kant não é apenas uma frase, mas descreve pulcramente um fenômeno constitutivo da vida humana: na escura noturnidade de um céu limpo, o céu cheio de estrelas nos está piscando inumeravelmente, | ||
